sexta-feira, 13 de maio de 2016

Maria do Carmo Leite

Nos arredores do Capitólio as meninas cantam pelas ruas. Ouvimos também os sons confusos de idiomas inimagináveis.Nas praças os chamados “ricachones” europeus alugam os carros antigos para passearem por Havana. Muitos vão à ilha, mas poucos a conhecem com profundidade.
“Nuestra América” tão bem definida por José Martí abriga um país de lutas implacáveis contra o imperialismo.
No último dia 27 de março, após a visita do presidente Barack Obama à Cuba, reafirmando um processo de reabertura política, o líder Fidel Castro assinalou em seu artigo El Hermano Obama publicado no jornal Granma:

“Ninguém acalente a ilusão de que o povo deste nobre e abnegado país renunciará à glória e os direitos e à riqueza espiritual que ganhou com o desenvolvimento da educação, a ciência e a cultura”.

Fidel está coberto de razão. A educação cubana encontra-se entre as melhores do mundo.
A professora da Universidade Católica de Santos (SP): Maria do Carmo Leite tem dedicado suas pesquisas acadêmicas ao processo educativo em Cuba. Ao longo dos anos viajou muitas vezes até Havana para solidificar um amplo estudo interessado neste modelo que chama atenção pelas iniciativas bem sucedidas.

Confiram a entrevista:

                                                                                                    Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora.


Tecendo em Reverso - José Martí é uma grande referência intelectual para o povo cubano. De que forma a obra deste pensador influencia ainda hoje a educação em Cuba?

MARIA LEITE - O ideário pedagógico de Martí ainda provoca aguçadas reflexões sobre a formação de todos os valores societários da ilha. Acredito que a Ilha nunca poderá abandonar o pensamento martiano. A pedagogia cubana, por mais breve e conciso seu estudo, não pode ser escrita sem referência ao extraordinário papel desempenhado pelo “apóstolo” nacional de Cuba.
Martí foi um homem de firmeza na expressão, de consciência anticolonialista e um alto sentido de solidariedade humana. O jornalismo, conjugado com a intensa atividade política, ocupou grande parte de suas atividades. Como professor, Martí ganhou a vida nas fases mais difíceis, mas não foi pedagogo no sentido estrito do termo, pois sua profissão foi a de advogado, ainda que licenciado em Filosofia e Letras. Apesar do restrito tempo, em seus 42 anos de vida, dedicados ao exercício da docência, os temas educacionais ocupam significativo espaço no conjunto da obra de Martí. O fato do ideário ético-político martiano, impregnado de humanismo pedagógico, privilegiar os valores tornou-se evidente, a partir 1889, quando da publicação da La Edad de Oro, revista voltada para crianças do continente latino-americano ameaçadas pela progressiva perda de sua identidade cultural. Na concepção de Martí, era um fato grave a Educação latino-americana seguir os padrões ou modelos dos sistemas europeus e norte-americanos, desvinculados das realidades socioeconômicas em que se aplicavam. A tradição pedagógica vinculada aos próceres da independência, não apenas de Martí, mas de Félix Varela, Enrique Varona e muitos outros, contribui para uma concepção relativamente autônoma da educação na ilha, com claros reflexos no cotidiano das escolas. Na ordem política, as diferentes etapas da revolução educacional, que se iniciou após 1959, valorizam um legado pedagógico autóctone, o qual contribuiu para a revindicação do trabalho docente em Cuba em um contexto distinto dos postulados neoliberais, oposto do mundo do trabalho que vem do “modelo de competências”, com todas as contradições e o fatalismo de disputas competitivas que ele suscita e, consequentemente,  a constatação de que ser competente representa, também, saber transgredir e até corromper.


Tecendo em Reverso - Como o sistema educacional cubano agrega escola, família e organizações sociais?

MARIA LEITE - A importância destinada aos conselhos de direção, de escola e de grado e a forma sistemática como eles atuam constituem um avanço nos projetos da escola cubana. Uma das ponderações relacionadas ao que Zeichner chama ilusão da reflexão é a insistência em que os professores podem pensar sozinhos sobre seu trabalho. Uma grande parte do discurso sobre o ensino reflexivo faz pouco sentido, pois fala-se pouco da reflexão enquanto prática social, através da qual grupos de professores podem apoiar e sustentar o crescimento uns dos outros. De acordo com os Informe de Seguimiento de la Educación para Todos en el Mundo da Unesco um dos pontos fortes da educação em Cuba é o mecanismo para compartir experiências. Concordo com tais conclusões, na medida em que os debates promovidos nos coletivos das escolas e nos órgãos de direção, contam com o envolvimento significativo dos atores do processo, mobilizados em razão da urgência e da extensão dos problemas. No modelo projetado para a escola em Cuba, as relações entre os estudantes, os coletivos de pioneiros, os claustros, as organizações de massas, o conselho de escola e a comunidade devem contribuir para formar nos alunos uma cultura de diálogo e debate, que favoreça atitudes positivas a respeito das relações interpessoais e das tarefas revolucionárias das novas gerações, como se espera numa democracia participativa.
 O conselho de direção é composto pelo diretor, secretário docente, chefes de grado, guia base, secretários do núcleo do partido, comitê de base da União de Jovens Comunistas, seção sindical, presidente de conselho de pioneiros, representante da Federação dos Estudantes Universitários, médico escolar, subdiretor docente, administrador e subdiretor do internato e de produção, quando houver. A frequência de reunião desse conselho é mensal, com a função de elaborar o diagnóstico integral da escola e da comunidade, promover o trabalho político e ideológico, avaliar o cumprimento dos fins e objetivos de cada etapa do curso escolar, adotar estratégias elegendo prioridades como critério, determinar causas e responsáveis por problemas, elaborar os objetivos de trabalho para cada etapa, planejar o trabalho docente, preparar as atividades diferenciadas para atender aos professores e alunos, planificar treinamentos metodológicos  conjuntos e inspeções, programar os temas de discussão no conselho técnico, no claustro e no conselho de escola e, finalmente, atender e estimular seus quadros de trabalhadores.
O conselho técnico é presidido e dirigido pelo diretor da escola em integração com os chefes de grado, secretário docente, guia base e bibliotecária. Nesse conselho, concretiza-se o planejamento das ações preparadas pelo conselho de direção. Sua frequência é mensal, com as funções de planificar e desenvolver atividades metodológicas para cada grado em razão das necessidades do coletivo pedagógico, preparar estratégias com base no diagnóstico e prognóstico de desenvolvimento dos alunos, analisar os resultados das inspeções realizadas durante a etapa, coordenar e aprovar as práticas de laboratórios concebidas no planejamento do processo educativo e no trabalho da biblioteca escolar, por em prática os métodos propostos nas atividades e analisar os resultados da avaliação do desenvolvimento do processo docente.
O conselho de grado é dirigido pelo chefe de grado e integrado por todos os professores, os trabalhadores sociais e os instrutores de arte. Nessa instância são controladas as ações político-ideológicas e o desenvolvimento do processo pedagógico dos grados.  Os encontros são semanais, com duração de quatro horas. Suas funções são discutir o processo de entrega pedagógica e o aperfeiçoamento do expediente acumulativo do escolar, definir as estratégias de atenção à diversidade entre os alunos, elaborar os projetos de cunho metodológico, analisar o cumprimento dos objetivos de cada grado, propor meios para alcançar a interdisciplinaridade, projetar as linhas de trabalho científico (investigação e comunicação de resultados), coordenar os eventos da escola, viabilizar ações de entrosamento entre professores, bibliotecários, técnicos de laboratório e oficinas, ponderar sobre os resultados da avaliação do pessoal docente e, finalmente, planejar estratégias de atividades com as famílias e com a comunidade.
O conselho de escola constitui a esfera encarregada de promover a participação efetiva da família. Esse órgão deve elaborar projetos educativos, bem como acompanhar sua execução. Os encontros são mensais e suas funções são incentivar os pais a integrar  múltiplas atividades promovidas pela escola, analisar a evolução dos alunos com dificuldades, incorporar a comunidade ao trabalho de prevenção com menores que apresentam problemas de disciplina e aqueles que provêm de lares em desvantagem social ou situação de risco, favorecer o desenvolvimento psicológico e a saúde da família mediante a escola de pais, organizando palestras, debates e outras modalidades de orientação, contribuir no desenvolvimento do currículo escolar, além de valorar as opções pertinentes à continuidade de estudos dos alunos.
O claustro é a instância presidida pelo diretor, com a participação de todos os professores do centro, mais os convidados representantes das organizações, incluindo as estudantis. Os encontros desenrolam-se três vezes, no mínimo, em um ano. Suas funções são analisar os resultados dos indicadores de eficiência do centro e sua comparação com iguais etapas de outros cursos, discutir coletivamente as estratégias que propiciem o sucesso das aspirações educativas na escola.

  
Tecendo em Reverso - Em quais circunstâncias deu-se seu percurso metodológico em relação aos estudos sobre a escola secundária cubana?

MARIA LEITE - A principal pesquisa de campo que realizei na Ilha, como aluna do mestrado em Educação, entre 2003 e 2006, objetivou investigar o processo de formação do professor generalista integral – o PGI – na educação secundária básica em Cuba, destinada aos alunos, entre 12 e 14 anos, dos 7°, 8° e 9° grados, dentro do projeto em curso no sistema cubano de ensino, a partir do ano de 2001. A investigação buscou repensar, cada vez mais, que o locus de discussão dos saberes constituintes da docência e das especificidades da ação educativa a ser privilegiado é a própria escola, além de contribuir para o entendimento de novos vínculos entre o trabalho e a educação. As reflexões apresentadas ponderaram sobre a gama de possibilidades decorrentes do ato de deslocar a formação de professores da universidade para as salas de aula da educação básica. As causas que induziram as mudanças foram desencadeadas no momento histórico, o “Período Especial”, encetado em Cuba no ano de 1991, com a queda dos regimes socialistas no Leste Europeu. Até hoje, em 2016, as transformações no campo político-social na Ilha ainda estão influenciadas por inúmeros fatos recentes, sem um contexto sedimentado que permita alusões conclusivas.
Meu primeiro contato com o Sistema Nacional de Ensino em Cuba reporta-se à década de 80, quando visitei as Cidades Escolares “Libertad”, em Havana, e “26 de Julio”, em Santiago. A participação em inúmeros eventos educacionais realizados na Ilha, em diversas províncias do país, propiciou-me o fortalecimento de elos com a educação cubana e o adentrar à compreensão das situações vivenciadas na ilha. Da frequência aos institutos superiores pedagógicos – os ISPs – e às escolas extraí significativos elementos. Entretanto, o contato com os maestros, as famílias e as organizações de massa, em diversas viagens de retorno a esse país, possibilitou-me formular caminhos para a construção de uma postura crítica em relação aos processos educacionais, tanto em Cuba como no Brasil. O percurso metodológico fundamentou-se em uma abordagem qualitativa do tipo etnográfico. O início da análise documental alicerçou-se em relatórios científicos, elaborados pelo Instituto Central de Ciências Pedagógicas de Cuba.


Tecendo em Reverso - Nos debates mundiais sobre educação, vemos em Cuba uma espécie de paradigma positivo para os outros países. O que diferencia esta orientação educativa das demais?

MARIA LEITE - Acredito que o maior diferencial em relação a distintas reformas, realizadas em outros países, é a constância nos investimentos e a forte determinação política que o Estado imprime à educação. A formação do professor como militante político tem requerido, além dos saberes docentes, o preparo na qualidade de transmissor dos princípios basilares da Revolução. O professor é visto pela sociedade como um soldado da independência política e econômica do país.
O que me parece significativo na experiência em Cuba é a preocupação com o envolvimento dos especialistas das universidades pedagógicas no plano metodológico e teórico, e a sua inserção na dinâmica diária dos centros educativos. Outra questão considerável é o cuidado em derrubar as fronteiras em torno das pesquisas realizadas, que devem apresentar uma linguagem direta e compreensível aos maestros em formação, principalmente em seus itens conclusivos, nos quais se arrolam as recomendações decorrentes dos estudos realizados, evitando academicismos exagerados e desnecessários.  A preocupação com a pessoa do maestro é indissolúvel nas políticas de melhoria das escolas como espaços concretos.
A ambiguidade das reformas em curso no mundo é sintetizada pela tensão entre o “barato” e o “melhor”, na qual a lógica do mercado, em muitos casos é a única levada em consideração. Creio existir um consenso que não se faz boa educação e nenhum país pode oferecer aos seus cidadãos serviços sociais razoáveis sem uma opção clara pela garantia dos investimentos que permitam a sua oferta pública.  Cuba situa-se no grupo de alto rendimento, apresentando elevado índice para o produto nacional bruto, aplicado na educação, juntamente com a Finlândia, país industrializado com um sistema educativo de sólida tradição.


Tecendo em Reverso - No que diz respeito à formação do professor, também encontram-se por estas terras dificuldades imensas oriundas, principalmente de planos advindos dos governos que vão mudando ao sabor de cada nova gestão e, sempre coadunados aos ditames internacionais. Como se dá a formação dos docentes em Cuba e, em que ela se diferencia da formação dos professores brasileiros?

MARIA LEITE - O processo educativo em Cuba não pode ser entendido sem o vínculo com as empreitadas históricas, que cunharam um imaginário de vertentes relativo às lutas de liberação, desde a época colonial. O caráter cubano emergiu de uma “cultura de resistência”, consolidada nas lutas, ao longo de trinta anos do século XIX, nas quais pereceram quatrocentos mil cubanos, ou seja, cerca de um terço da população da ilha na época. A Campanha Nacional de Alfabetização de 1961 conjurou dialeticamente fatores sociais que permaneceram dispersos durante a primeira metade do século passado, contribuindo para que o fazer educativo assumisse uma dimensão político-social e o ensino fosse convertido em instrumento de uma cultura participativa, motivador de constantes reflexões acerca dos problemas de Cuba e dos de âmbito internacional, que tendem a afetar a vida do país.
 A visão retrospectiva da formação docente em caráter emergencial, nos diferentes contextos que evoluem imbricados ao processo político-social do país, afasta as transformações projetadas para a escola cubana do perfil das mudanças com base em formulações que partem do zero, sem recuperar a experiência e as pesquisas disponíveis, desconsiderando as condições reais e específicas de implementação. Ao movimento global, pautado pela inauguração de novos projetos a cada gestão, que muitos denominam “onda reformista”, pode ser debitado o desperdício de importantes recursos, uma vez que a descontinuidade ignora o esforço empreendido pelos coletivos escolares, o levantamento de dados e a análise de relações do saber historicamente construído. Muitas das reformas pretendidas não chegam às salas de aula ou não alteram em profundidade as suas práticas cotidianas. As chamadas inovações são introduzidas, sem uma avaliação dos erros e avanços das lições que poderiam ser extraídas dos programas que “caíram da moda”. Sem visão retrospectiva os modelos procuram soluções rápidas e que não armazenem dividendos para governos com mandatos já concluídos. As reformas movem-se no imediatismo, sem sobrevida garantida em futuras administrações.
No Brasil, do ponto de vista do professor, os ciclos e a sistemática de promoção dos alunos apareceram como forma de uma espécie de retirada de seu poder e um acuamento do controle sobre o processo de trabalho. Dessa forma, prolifera até hoje, em minha opinião, a ideia de que professor já não tem que se preocupar com os resultados de aprendizagem dos alunos, pois o sistema quer que ele “empurre o aluno para frente a qualquer custo”. Essa é uma face oposta ao que ocorre na escola cubana.  Dessa maneira, ocorre no Brasil uma espécie de  desresponsabilização pelo processo de ensino.
Entretanto em meio aos caminhos que tem sido construídos e às soluções propostas no modelo em Cuba, existem dilemas e tensões difíceis de resolver, inscritos na problemática geral do país, sobretudo no conflito entre a lógica da emancipação e da regulação. A possibilidade de participação na tomada de decisões ainda gera fortes barreiras nos professores, no pessoal de direção e nos próprios estudantes. A resistência a muitas mudanças que ocorrem atualmente não é mais que uma expressão do temor e da insegurança que podem experimentar as pessoas diante da autonomia para a qual não estão suficientemente preparadas, habituadas, por longos anos, a formas de trabalho que asfixiavam suas potencialidades para a criação e a inovação pedagógica.
Contudo, as experiências educativas são próprias de cada lugar e não é um processo simples transferir inovações. Quero salientar o aspecto fundamental propício à Educação cubana – as raízes de reflexão dialética fincadas nas circunstâncias históricas locais –, o que possibilita abarcar com mais facilidade as incoerências dos modelos anteriores. Os estudos indicam que há uma atenção voltada aos possíveis desacertos e à consciência crítica de repará-los com prontidão. As conclusões, portanto, acumuladas em retrocessos e avanços, aliadas ao resgate das experiências coletivas no campo educacional, desde a década de 60, representam um fator decisivo na efetividade das transformações. O que foi possível inferir, deste processo de investigação, é que os institutos superiores pedagógicos em Cuba criaram um caldo de práticas, acumuladas ao longo de quase 50 anos na formação de professores, capaz de trabalhar os problemas de forma abrangente e com a urgência requerida pela complexidade do processo histórico cubano.












terça-feira, 3 de maio de 2016

Márcia Tait Lima

Na introdução de As Veias Abertas Da América Latina o escritor Eduardo Galeano faz o seguinte apontamento: “ É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até os nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou , mais tarde, norte-americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder”.
E é nesse banho de sangue que vamos resistindo aos sucessivos golpes durante uma história que acumula exploração e luta.
 Elas dizem não! Mulheres camponesas e a resistência aos cultivos transgênicos é o mais recente trabalho da pesquisadora Márcia Tait Lima. O livro publicado pela editora Librum mostra o enfrentamento das mulheres camponesas na América Latina contra o cultivo de transgênicos.
Doutora em Política Científica e Tecnológica (DPCT/Unicamp) Márcia também é comunicadora Social formada pela Universidade Estadual Paulista Unesp com especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp. Cursou o mestrado em Política Científica e Tecnológica (DPCT/Unicamp) e outras especializações entre os anos de 2008-2014, entre as quais: Teoria Feminista pela Universidade Complutense de Madri, Tecnologia Social e Economia Solidária (Unicamp).
Conversamos com a pesquisadora sobre seu livro:

                                                                    Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora.


Tecendo em Reverso – O trabalho “Elas dizem não! Mulheres camponesas e a resistência aos cultivos transgênicos” se deu sob quais circunstâncias no que se refere às expectativas da pesquisadora Márcia Tait?


MÁRCIA TAIT LIMA – As questões de pesquisa que deram origem ao trabalho de doutorado e ao livro Elas dizem não! Mulheres camponesas e a resistência aos cultivos transgênicos foram sendo formuladas ainda durante a pesquisa de mestrado (também publicada em livro, Editora Annablume, 2011 http://folhashop.folha.uol.com.br/tecnociencia-e-cientistas-cientificismo-e-controversias-na-politica-de-biosseguranca-brasileira-marcia-maria-tait-lima-8539103273.html#rmcl) quando me aprofundei no universo dos conflitos sobre as políticas e regulamentações envolvendo os cultivos transgênicos no Brasil. Essa pesquisa voltou-se a analisar a participação de pesquisadores brasileiros na formulação das políticas de biossegurança e seus discursos sobre os transgênicos. Já no final deste trabalho indico a necessidade de se ampliar e“politizar” o entendimento do discurso tecnocientífico relacionado aos transgênicos. Ao longo do trabalho são colocadas algumas formas de desqualificações dos discursos críticos aos cultivos transgênicos dentro e fora da academia e a falta de participação de determinados grupos, como os movimentos sociais nas decisões políticas sobre liberação e risco. Assim, de certo modo, apesar de pesquisas bem diferentes do ponto de vista de autores mobilizados e metodologia, o estudo e o livro anterior e o atual sobre as ações coletivas de mulheres camponesas contra transgênicos são complementares e surgem de um mesmo interesse de pesquisa de propor uma leitura crítica da tecnociência e das novas biotecnologias e os cultivos transgênicos, trabalhando com discursos, epistemologias e práticas contra-hegemônicas e que sofreram ataques constantes e desqualificação que imputaram um local de não racionalidade e marginalidade aos discursos críticos.


Tecendo em Reverso – No seu livro há uma crítica ao processo de privatização dos sistemas agroalimentares. Como se dá o enfrentamento das camponesas em relação a tal situação? Tratando-se de abordagens mobilizadoras. Em que circunstância ocorre a atuação das mulheres nos movimentos sociais da América Latina?


MÁRCIA TAIT LIMA – Nos países em desenvolvimento, principalmente na América Latina, América Central e Índia, as mulheres camponesas ou trabalhadoras e agricultoras ocupam uma posição de destaque na produção de alimentos para subsistência de suas famílias e também de suas comunidades e também na preservação dos bens comuns (biodiversidade, solo, água). A produção voltada para o comércio, agricultura para venda (commodities) segue uma lógica distinta da lógica de produção da agricultura para consumo direto, familiar e local/regional (alimentos em natura e pouco processados). Neste segundo tipo de agricultura, as mulheres têm contribuído fortemente, embora homens e mulheres participem de ambas as formas de trabalho rural e da produção de alimentos e, portanto, façam parte dos sistemas agroalimentares. O que discuto no livro é justamente como as mulheres vêm atuando na prática da resistência à homogeneização e à privatização das culturas alimentares e sistemas alimentares. No Brasil e Argentina esta resistência se dá pela prática familiar da agricultura camponesa, mas também na associação em movimentos sociais, organizações e cooperativas mistas e exclusivas de mulheres, que quando atuam coletivamente colocam questões diversas como: a própria produção e prioridade da alimentação familiar, local, diversa e livre de contaminações; as desigualdades e violência de gênero persistentes no universo rural; os impactos da monocultura e privatização de sementes para as famílias camponesas e produção de alimentos, entres outras. Esta mobilização/articulação de mulheres em movimentos de trabalhadoras rurais e camponesas não é recente, remonta ao final da década de 70 e início de 80 e aos movimentos por direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais e processos de redemocratização nos diversos países da América Latina. Porém, durante os finais dos anos 90 primeira década de 2000 os movimentos de mulheres foram crescendo em protagonismo na luta por soberania alimentar e contra os cultivos e sementes geneticamente modificadas.


Tecendo em Reverso – Tratando-se de abordagens mobilizadoras. O que une e separa as camponesas brasileiras e argentinas no que diz respeito aos temas relativos à produção de alimentos?


MÁRCIA TAIT LIMA – Na minha pesquisa e livro busco destacar principalmente as convergências entre as questões, discursos e as ações dos movimentos e grupos de mulheres no Brasil e Argentina. Porque acredito que as convergências são mais significativas que as distinções. Em várias oportunidades de leituras e participação em eventos em outros países, como Bolívia e Equador, também notei mais semelhanças que diferenças, sem desconsiderar, claro, que existem diferenças culturais e de contexto sociopolítico, por exemplo, na Bolívia e Equador a questão camponesa está muito mais vinculada à questão indígena. Neste sentido mais de refletir a partir das convergências e o que aproxima os movimentos de mulheres e participação de mulheres em movimentos e organizações no Brasil e Argentina, poderia destacar: uma forte crítica à mercantilização da agricultura ou ao modus operandi da agricultura industrial e aos impactos negativos para as famílias de pequenos agricultores e para as finalidades e formas e produção de alimentos; uma crítica à diminuição da autonomia, empobrecimento e a crescente dependência de insumos químicos e agrotóxicos na agricultura familiar e camponesa; expulsão do campo e diminuição das pequenas áreas de produção agrícola e cultivos voltados para alimentação em suas regiões e países e não para exportação; crescente empobrecimento e piora das condições de vida das mulheres e famílias camponesas; a agricultura para o alimento e o alimento como medicamento. Essa aproximação na crítica também dialoga com formas de resistência e propostas semelhantes, como feiras de trocas de sementes crioulas, feiras de produtos da agricultura familiar a agroecológica, cooperativas e pequenas associações que trabalham com beneficiamento de alimentos (pães, doces, geleias, chás, frutos secos) e artesanato; formação e solidariedade entre mulheres sobre gênero e feminismo, direitos reprodutivos e saúde, etc.


Tecendo em Reverso – No atual momento político em que infelizmente a mídia irresponsavelmente lança no país ódio e preconceito em relação às mulheres envolvidas na política. Qual reflexão você apontaria para a discussão sobre gênero e consciência de classe?


MÁRCIA TAIT LIMA – Quando lemos ou conversamos com mulheres que participaram nos processos de lutas das classes populares e da esquerda no Brasil e América Latina notamos uma importante similaridade: a formação de movimentos autônomos de mulheres motivadas por um desrespeito à participação política feminina e desconsideração de suas demandas e da própria importância das questões envolvendo a desigualdade de gênero. Existem várias colocações sobre das mulheres militantes sobre como o tema de gênero era referido como sendo uma “lutinha” ou “luta menor” dentro dos movimentos e partidos de esquerda, ou ainda que, primeiro se deveria preocupar com as questões de classe e a superação do capitalismo para depois ou mesmo de forma natural se dissolverem as questões feministas.
No passado e no presente, não apenas nos movimentos de direita, mas também dentro de grupo de esquerda e “progressistas” ainda não existe um entendimento partilhado (pelo menos não de forma majoritária) de que capitalismo e patriarcado são duas faces da mesma moeda, que devem, portanto, ser combatidos juntos - não é possível, honesto e/ou realista o estabelecimento de prioridades. Não reconhecer a exploração e subvalorização do trabalho socialmente designado às mulheres ou feminino - desde trabalho doméstico e de cuidado familiar até nas carreiras ocupadas mais amplamente por mulheres, como na educação, saúde, serviço social - como parte da “luta de classes” é uma “contradição ainda não superada” nas esquerdas, nos meios políticos e em muitas políticas públicas. Esta impossibilidade de separação se mostra bastante clara, por exemplo, numa leitura feminista do aclamado filme “Que horas ela volta”, onde se escancara a exploração de classes, mas também uma exploração de “interseccional” que envolve gênero e raça/etnia, um tipo de desigualdade/discriminação tão conhecida quanto persistentemente “apagada” pela sociedade brasileira: da mulher, pobre e nordestina. São muitas relações possíveis de serem estabelecidas a partir deste filme do ponto de vista feminista, dentre elas, o “ciclo de exploração” das tarefas domésticas e de cuidado que afetam mulheres de todas as classes (faltam políticas públicas e abordagens sociais sérias sobre quem cuida e como das crianças, adolescentes, idosos, doentes), mas principalmente, às mulheres trabalhadoras das classes populares, que não educam e cuidam de seus filhos para cuidarem dos filhos da classe média e alta e “serem quase como parte da família” de outras famílias que não as suas.
De positivo, este contexto recente também aponta justamente para o chamado de “re-florescimento” do feminismo na última década. As mulheres cada vez mais se mobilizam em distintos movimentos feministas, com ênfase em temas diferentes (livre exercício da sexualidade; humanização do parto e medicalização feminina; assédio e machismo nos espaços de trabalho e públicos; desigualdades no trabalho; maior espaço na política etc.), mas todos têm como base a não aceitação da desigualdade, exploração e violência de gênero e, diria também, um “re-florescimento” de uma “sororidade” ou sentido de empatia e união entre mulheres e, porque não dizer, entre mulheres e homens que também defendem as causas feministas. 
Não se pode deixar de notar que muitas manifestações reagem a acontecimentos que reforçam traços de uma sociedade ainda machista e sexista (como coloca em sua pergunta), mas estas reações antes não eram tão vocalizadas ou visíveis e agora são! Não acredito que antes já vivemos períodos melhores em relação ao machismo e sexismo, muito pelo contrário, mas agora isto se escancara e são vistas as rebeldias e resistência, o Não! das mulheres (e homens) como o das camponesas deste livro.  E também vemos claramente o inconformismo, por vezes expresso em reações violentas de homens e também mulheres que não aceitam a igualdade e liberdade para os gêneros e os seres humanos. A “viralização” de posts de resistência/reação a partir da reportagem publicada pela revista Veja “Bela, recatada e do lar”, referente à Marcela Temer, mulher do vice-presidente da república, ilustra bem este espaço de conflito sempre latente e agora cada vez mais escancarado entre setores, grupos, pessoas conservadoras e machistas, que querem impor um modelo de mulher e feminino, e outros inúmeros lados, transbordando e resistindo, centenas, milhares de mulheres reais que não aceitam esta imposição.  Como dizem as mulheres camponesas nos chamados a “companherada”: Lutar! Quando? Todos os dias! Quando mesmo? Todos os dias! (e na toada da Marcha Mundial das Mulheres) – Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!



terça-feira, 26 de abril de 2016

Ivana Jinkings

No dia 07 de abril de 1990 a Folha de São Paulo publicava em seu caderno Letras a matéria: “Textos sobre o marxismo viram sucata nas livrarias em São Paulo”. Em meio a frases como esta: “No Brasil, intelectuais e editores ainda não se deram conta, mas desapareceu o grande público para Marx” o artigo curiosamente também apontava o fato de Lênin ser à época o autor marxista mais traduzido no mundo. Apresentado pela reportagem como famoso, mas pouco lido, Karl Marx foi considerado no artigo como um “autor difícil”.
Pouco tempo depois Ivana Jinkings fundaria em São Paulo a Boitempo Editorial, proposta que começara com seu pai no Pará, o intelectual comunista Raimundo Jinkings. A paraense  apropriou-se de uma herança marxista de bons livros para trazer ao público brasileiro, não só acadêmico, mas também aos amantes do pensamento crítico e dialético os  grandes títulos do marxismo mundial.
Como no poema de Drummond “De curva em curva” a  Boitempo completou em 2016 os seus 20 anos. Com nomes como : István Mészáros, José Paulo Netto, Ricardo Antunes, entre outros, a editora erige-se hoje ao patamar dos grandes projetos editoriais da esquerda brasileira.
O autor de Fausto já dizia na velha Alemanha que a poesia se deve às circunstâncias. Entendendo texto como contexto a teoria de Marx atendeu às exigências históricas de seu tempo e, também do nosso.Traduzir, editar e ler esta obra está na pauta dos nossos dias.

Abaixo a entrevista com Ivana Jinkings:

                                                                     Foto: Ricardo Stuckert

Tecendo em Reverso – A Boitempo tem se destacado no Brasil por ter como alvo a publicação de livros marxistas. Sabe-se que infelizmente este nicho ainda se restringe a um público mais acadêmico. Quais as propostas da editora para popularizar a leitura marxiana?

IVANA JINKINGS – Nós percebemos que a comunicação com o público é essencial no processo de formação e ampliação do público-leitor e por isso investimos fortemente em eventos, imprensa e redes sociais (a Boitempo é a editora brasileira com o maior número de inscritos em canal próprio no YouTube) com o intuito de levar a obra e o pensamento dos nossos autores para mais pessoas. Isso é positivo não apenas para a editora, que acabou se consolidando como “a casa do pensamento crítico”, mas também para o leitor, que ganha outros textos e outras formas de acesso às obras e ao pensamento dos autores que publicamos, já que as gravações e os textos produzidos nesses eventos são depois disponibilizados no blog http://boitempoeditorial.wordpress.com. Muitos deles estão entre os mais importantes escritores contemporâneos, nacionais e internacionais. É o caso do britânico David Harvey, do cubano Leonardo Padura, do esloveno Slavoj Zizek, do húngaro István Mészáros, e dos brasileiros Chico de Oliveira, Leandro Konder, Maria Rita Kehl, Paulo Arantes, Raquel Rolnik e Ruy Braga, entre muitos outros que hoje atraem multidões aos nossos eventos (via de regra, gratuitos). Como forma de popularizar as obras de Marx e Engels temos adotado também a prática de promoções periódicas e a participação em feiras acadêmicas nas quais oferecemos os títulos com até 50% de desconto. Outra via foi dispor os livros do nosso catálogo no formato digital, o que permite uma diminuição significativa no preço de capa – os preços de nossos títulos digitais passaram a custar até 65% menos do que a versão impressa, uma redução acima da média brasileira em termos relativos e absolutos.

Tecendo em Reverso – As campanhas publicitárias de incentivo à leitura no Brasil, bem como os livros são enviesados numa perspectiva mercadológica e, muitas vezes imbecilizante em relação ao seu público alvo, ou seja, as crianças. De que maneira a editora ao lançar o selo infantil Boitatá pretende abordar um conteúdo literário progressista e engajado com a realidade?

IVANA JINKINGS – Já faz alguns anos que vivemos uma verdadeira ebulição política e social no Brasil. Manifestações nas ruas tornaram-se comuns recentemente, tanto de direita quanto de esquerda, e nós temos visto os movimentos sociais cada vez mais organizados, clamando por cidadania, por um maior espaço de participação política. Há um radicalismo no país e as crianças não passam incólumes a isso. Elas veem política na TV, na internet, e querem saber, querem entender, participar da discussão. Mas como explicar para uma criança de oito anos como se organizam as eleições, o que é impeachment, ditadura, corrupção etc.? Ou: o que é feminismo, o que são classes sociais? Enfim, são esses conceitos básicos que a coleção Livros para o amanhã” procura explicar, apostando na inteligência, no questionamento e no senso de justiça de seus pequenos leitores. Neste ano estrearemos em ficção para crianças, com uma autora espanhola e uma brasileira.


                                                       Ivana e os trabalhadores da Boitempo
                                                                Foto: Arquivo pessoal da editora.

Tecendo em Reverso – Na sua concepção quais foram as mudanças mais significativas ocorridas desde a criação da editora no cenário político brasileiro?

IVANA JINKINGS – A editora começou em 1995, com a publicação de um texto inédito de Stendhal sobre Napoleão que revela seu lado “historiador político”. A ideia inicial era publicar obras de indiscutível relevância que fossem inéditas no Brasil ou até editadas, mas esquecidas e esgotadas há muito tempo. Aos poucos a Boitempo foi se firmando como editora de livros de ciências humanas, e a atuação no campo da ficção e de obras raras foi de certo modo “solapada” pelas urgências teóricas do nosso tempo. Fizemos a opção por um catálogo de fundo consistente - movimento contrário ao da maioria das editoras, que acabam relegando seus próprios livros ao esquecimento por estarem sempre em busca de um novo best-seller. O mercado não era tão concentrado há vinte anos, as editoras estrangeiras e os grandes grupos não tinham ainda entrado no Brasil como agora ocorre.
No cenário político, passamos pelos trágicos anos FHC, com inflação e taxas de juros altíssimas; pelos dois mandatos de Lula, que representaram relativos avanços na economia e inclusão social, com crescimento econômico e redução da pobreza; e cá estamos no segundo mandato Dilma, que ora corre sério risco de ser interrompido pelas forças políticas mais retrógradas do país. Chamar o impeachment da presidente Dilma ou dar pouca importância a ele é um diversionismo, as esquerdas precisam se posicionar urgente e firmemente contra esse atentado à democracia. E somente depois pensar numa pauta única contra o ajuste fiscal, contra a Agenda Brasil, a lei antiterror, as terceirizações e todos os retrocessos propostos. Seria a melhor resposta das forças populares à ofensiva da direita e uma resposta – pela esquerda, nas ruas – à capitulação de um governo que traiu seus eleitores e sua base social. Pois embora os governos do PT tenham tirado da miséria 50 milhões de brasileiros, eles afagaram o quanto puderam os “mercados”, a imprensa golpista e o que há de pior no cenário político. A despeito das imensas dificuldades, precisamos agora cerrar fileiras contra a direitização do Brasil.

Tecendo em Reverso – Como se dá hoje o processo da escolha de autores pela editora e, como se dialoga diante de divergências tão grandes entre a esquerda brasileira?

IVANA JINKINGS – Temos uma instância interna, formada por integrantes do editorial, das equipes de comunicação e do comercial, e um conselho editorial formado por alguns dos coordenadores das nossas coleções que se reúne periodicamente. Buscamos compor o catálogo da Boitempo de forma não sectária, contemplando autores de diferentes linhas do pensamento crítico.

Tecendo em Reverso – Alguns clássicos de Karl Marx já foram traduzidos em sua íntegra pela editora. Quais serão as próximas traduções?

IVANA JINKINGS – Os próximos lançamentos da coleção serão O capital, livro III; O roubo da madeira, de Marx com texto introdutório de Daniel Bensaid; e A dialética da natureza, de Engels.



terça-feira, 12 de abril de 2016

Ruy Medeiros - História Local e Memória: Limites e Validade.

Ruy Medeiros é Mestre e Doutor em Linguagem e Sociedade pela UESB. Graduado em Direito pela Universidade Católica de Salvador percorre pelas áreas de História do Direito, Direito do Trabalho e Movimentos Sociais.
Em sua mais recente obra: História Local e Memória: Limites e Validade publicada pela editora Librum o autor faz um amplo estudo tendo como mote a cidade de Vitória da Conquista (BA).

Confiram a entrevista:

                                                                                    Foto: Arquivo pessoal do autor.


Tecendo em Reverso - Como se dão os estudos sobre a história das localidades brasileiras?


RUY MEDEIROS – Isso ocorre com inúmeros obstáculos: dificuldade de acesso às fontes, ausência de aprofundamento metodológico (há certas especificidades do local – até mesmo saber o que é local – que devem ser observadas), dificuldade de destrinchar os nódulos que compõem o local, dispersão de arquivos ou falta desses. A história local, tem sido realmente local (isto é, escrita por não historiadores de ofício) e os acadêmicos de história preferem temas ao invés da história de um Município ou de uma região e isso dificulta o surgimento de modelos, importantes para a escrita da história.


Tecendo em Reverso - Quais foram as maiores dificuldades em se pesquisar a história local de Vitória da Conquista?


RUY MEDEIROS - Pesquisar a história de localidades (s) apresenta dificuldades. A maior delas é a escassez de fontes reunidas. Nem toda localidade possui arquivo público. Algumas possuem mero depósito de documentos. As fontes de origem privada escasseiam com a desagregação familiar e jornais nem sempre existem ou suas coleções são incompletas. A busca do local tem que ser feita igualmente em outros lugares, às vezes fora do Brasil. Há fontes valiosas para a História de Vitória da Conquista, em Portugal, Salvador, Belo Horizonte (neste último lugar, o APM), com documentos que interessam ao movimento de conquista do território.


Tecendo em Reverso - Sabe-se que no interior do Brasil há um grande número de cronistas locais que não tem formação de historiador. Qual a sua avaliação do trabalho deles e sua importância em relação aos registros textuais de determinada região?


RUY MEDEIROS - Os historiadores locais fazem sobretudo “memória” e nesse mister são importantíssimos. Para a História, geralmente são pontos de partida, com as informações que registram e com os documentos que transcrevem em seus livros. Há documentos que só nos chegaram a partir desses memorialistas. Alguns tiveram (têm) o cuidado de analisar, propor explicações, interpretar... Geralmente fazem trabalho marcadamente ideológico, mas o leitor saberá interpretá-lo e retirar de seus escritos muita coisa interessante. São laços de continuidade entre passado e presente.


Tecendo em Reverso - Em seu trabalho, lemos: "Forte é o mito que situa a origem do arraial donde Vitória da Conquista nasce: uma promessa aceita e atendida, ave Maria, gratia plena. O culto à Nossa Senhora da Vitória ou Santa Maria da Vitória, tem início quando o papa Pio V criou a festa de Nossa Senhora do Rosário para comemorar a vitória da frota cristã contra os turcos na batalha naval de Lepanto em 1751. Nossa Senhora da Vitória". Como se estabelecem as relações entre religião e fundação e qual a real importância da primeira sobre a segunda?


RUY MEDEIROS - Trata-se de uma relação complexa,  sobretudo num Estado não laico. Muitas cidades nasceram ou se desenvolveram em torno de um templo católico (fundação), o pensamento religioso estabelece mitos fundadores, a sociabilidade desenvolve-se no templo ou em seu redor, a igreja tece família (sacramento do matrimônio), compadrio (batizado), ajuda a reproduzir o poder, etc.  Em Vitória da Conquista, o mito fundacional da cidade é católico, há padres que foram chefes de família e proprietários rurais. Sobretudo o mito fundacional justifica poder e herança. O fundador de Vitória da Conquista aparece como aquele que foi agraciado por Nossa Senhora com a Vitória contra os nativos da região (mongoiós).


Tecendo em Reverso - Na perspectiva de historiador quais os dilemas que se encontram entre "história local" e "história universal"?


RUY MEDEIROS - Não há univocidade no termo história local. Com a expressão, designa-se a história de localidades escrita por não historiadores de ofício. Mas também se designa a história de localidade, de região ou de país, em oposição ao universal (universal, conhecimento a partir de ciência, ou história global, “do mundo”). O problema está em que ao tratar cientificamente o local, deve-se tratar o universal, porém em níveis ou aprofundamento diversos. Essa ligação pode aparecer forçada (como em alguns autores) ou como mero vínculo para não parecer que o local não está no mundo. Em certo sentido, toda história é universal (o homem no tempo) e isso conduz a que se investigue o próprio tempo, seu ritmo e demoras, na forma local. Como se diferencia o tempo social da vila daquele da metrópole! Dinâmicas internas e externas se complementam; onde e por que se encontram (na inteligência) implica não apenas em saber que existe um só mundo, onde estão os diversos habitats nodulados política, social e culturalmente, pois o local é uma realidade com articulações específicas e com o mundo. 



                                                                           Foto: DIvulgação

terça-feira, 15 de março de 2016

Evandro Medeiros

Nos últimos anos o Brasil assiste a uma expansão do cinema documentário. Ali e acolá vão surgindo nomes que aos poucos ganham espaço em meio aos filmes comerciais.
O nosso entrevistado Evandro Medeiros é diretor e ao mesmo tempo produtor de seus filmes. Em sua carreira estão presentes: Dezinho: Vida, Sonho e luta, Ubá, um massacre anunciado e, mais recentemente Escola Quilombo.
O diretor tem como foco em seus filmes as questões sociais tão caras ao norte e nordeste do país. Com sensibilidade afastada da pieguice com que são tratados temas como estes, nos filmes de Evandro vislumbramos a poesia de trechos oriundos da tristeza que emana do real.
Evandro Medeiros também é Professor na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará [UNIFESSPA] e organizador do Festival Internacional Amazônida de Cinema de Fronteira.




                                                                                                            Foto: Arquivo pessoal do diretor.

Tecendo em Reverso - Quais são as diretrizes pedagógicas que orientam o trabalho do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo [ Campus Universitário de Arraias – UFT]?

EVANDRO MEDEIROS – O Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação do Campo [UFT – Campus de Arraias] faz parte de uma rede nacional de pesquisa em Educação do Campo, vinculados ao Programa Observatório da Educação do Campo da Secretaria de Educação para Diversidade [SECADI – MEC] e a CAPES. De modo geral o grupo tem como objetivo levantar dados sobre as escolas rurais, suas condições materiais, práticas pedagógicas, formação dos professores, experiências curriculares, etc. De modo a produzir possibilidades de diálogo sobre tal realidade no âmbito dos cursos de licenciatura e secretarias de educação, colocando em debate os problemas enfrentados e inovações criadas pelos professores, alunos e comunidades das escolas pesquisadas, para que assim possamos criar movimentos de elaboração de políticas educacionais que ajudem na transformação da realidade destas escolas.

Tecendo em Reverso – Como se deu a concepção do documentário “Escola Quilombo”?

EVANDRO MEDEIROS – O documentário foi pensado como mais um instrumento de enriquecimento da pesquisa, que pudesse ajudar na captação das falas-imagens de professores, alunos e comunidades sobre a realidade e cotidiano pedagógico das escolas rurais em área de quilombo no município de Arraias-To. Enriquecedor da pesquisa porque é um instrumento de apelo antropológico, pois registra a realidade observada pelos pesquisadores e a descreve por meio das imagens de vídeo de modo a permitir que os espectadores possam entrar na realidade pesquisada e construir suas próprias percepções sobre ela, ao passo que sentem tal realidade pelas falas, gestos e emoções manifestas pelos depoentes enquanto narram as questões relativas a escola e a vida na comunidade. Então, pensando assim essa relação entre o filme e a pesquisa, de modo que os resultados da pesquisa fossem ilustrados para além de um mero relatório, desejando produzir dados-informações que pudessem alcançar um público mais amplo e de maneira dinâmica, acessível a todos, independentemente da escolaridade, lugar de vida e trabalho, é que nasceu a ideia de fazer o documentário Escola Quilombo. Em sua concepção estético-fílmica o documentário tem uma ordem simples: trabalhar com as narrativas de professores, alunos e comunidade de modo a mostrar a escola segundo a concepção de quem a vive e filmado a partir de uma convivência em meio ao cotidiano pedagógico da escola.

Tecendo em Reverso- Através desta produção quais foram as maiores dificuldades levantadas no cenário educacional do norte do país?

EVANDRO MEDEIROS – Pobreza, precariedade material, baixos salários e insegurança profissional , professores não são concursados, o personagem do filme trabalha faz 20 anos como contratado, falta de acompanhamento pedagógico, professores sem formação acadêmica, currículos padronizados pela perspectiva urbanocentrica, formação continuada descontextualizada e não pautada pelas demandas do professor, alunos e comunidade.




                                                                                          Evandro e Alexandra Duarte (Diretora de Fotografia).
                                                                                                                                                               Foto: Arquivo pessoal do diretor.

Tecendo em Reverso – Sabe-se que no Brasil há um lastro razoável de produções fílmicas documentais, no entanto, a escola brasileira ainda mostra problemas quando apresenta filmes em sala de aula. Muitas vezes os professores sentem-se despreparados para a preparação de um plano de aula que contenha filmes. Como você analisa este panorama?

EVANDRO MEDEIROS – De modo geral os professores brasileiros possuem uma fragilidade  profissional no que tange ao uso de tecnologias educacionais em geral,  do trabalho com computadores ao uso de filmes em suas aulas, estes muitas vezes são usados sem conexão devida com as demais atividades curriculares e aulas, acabam sendo atividades em si. No caso de material audiovisual muitas vezes acaba sendo o filme pelo filme, falta formação direcionada para isso, óbvio, mas falta também as secretarias de educação de estados e municípios acreditarem na importância pedagógica dos filmes e outros produtos artístico-culturais  e tecnológicos, fomentando a produção desses materiais e seu uso pedagógico, assim como fomentando a produção deles através da escola, da comunidade escolar. Vivemos uma tradição arcaica da “aula monológica e quadro de giz”, em que só o professor fala e as crianças copiam, algo intolerável num tempo de avanços científicos e tecnológicos, algo intolerável em comunidades de tanta riqueza cultural e histórias, falta criatividade e estimulo a criatividade, falta estimular os alunos ao protagonismo na produção de conhecimento. Isto ocorre porque os professores também não foram “ensinados” a serem protagonistas na produção de conhecimento e uso de tecnologias para tal fim. Os professores não foram empoderados como intelectuais de suas práticas, como faz o professor Adão, personagem do filme, talvez porque não querendo que as crianças passem por tudo aquilo que ele mesmo passou na infância e profissionalmente abandonado e isolado na comunidade, se sente impulsionado a ser senhor das soluções aos limites que a realidade lhe impõe.

Tecendo em Reverso- Percebe-se que a temática social se faz presente nas suas produções audiovisuais. O que o levou a esta escolha?

EVANDRO MEDEIROS – Minha história de vida, a história de minha mãe e tios, que na infância viveram realidades parecidas com as da comunidade quilombola apresentada no filme, a trajetória de luta deles para ter acesso a direitos e criar os filhos com mais qualidade de vida, a história das pessoas pobres dos lugares por onde morei, desde pequeno observando as realidades de injustiça, miséria, exclusão social, mortes por violência ou descaso do poder público e todo tipo de tragédia que abate principalmente aqueles que menos possuem condições de se defender. Essas experiências me formaram, forjaram minha sensibilidade estética, meu compromisso ético, minha perspectiva e personalidade profissional. Fui alfabetizador de adultos, trabalhei com meninos de rua, ministrei aula em escolas públicas de periferia, colaborei com a organização de agricultores sem terra, ajudei organizar projetos de escolas para jovens agricultores, me tornei professor de universidade e todas essas experiências somadas ao desejo de realizar uma prática artística me fizeram produtor audiovisual.


                                                         Filme: Escola Quilombo