terça-feira, 3 de maio de 2016

Márcia Tait Lima

Na introdução de As Veias Abertas Da América Latina o escritor Eduardo Galeano faz o seguinte apontamento: “ É a América Latina, a região das veias abertas. Desde o descobrimento até os nossos dias, tudo se transformou em capital europeu ou , mais tarde, norte-americano, e como tal tem-se acumulado e se acumula até hoje nos distantes centros de poder”.
E é nesse banho de sangue que vamos resistindo aos sucessivos golpes durante uma história que acumula exploração e luta.
 Elas dizem não! Mulheres camponesas e a resistência aos cultivos transgênicos é o mais recente trabalho da pesquisadora Márcia Tait Lima. O livro publicado pela editora Librum mostra o enfrentamento das mulheres camponesas na América Latina contra o cultivo de transgênicos.
Doutora em Política Científica e Tecnológica (DPCT/Unicamp) Márcia também é comunicadora Social formada pela Universidade Estadual Paulista Unesp com especialização em Jornalismo Científico pelo Labjor/Unicamp. Cursou o mestrado em Política Científica e Tecnológica (DPCT/Unicamp) e outras especializações entre os anos de 2008-2014, entre as quais: Teoria Feminista pela Universidade Complutense de Madri, Tecnologia Social e Economia Solidária (Unicamp).
Conversamos com a pesquisadora sobre seu livro:

                                                                    Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora.


Tecendo em Reverso – O trabalho “Elas dizem não! Mulheres camponesas e a resistência aos cultivos transgênicos” se deu sob quais circunstâncias no que se refere às expectativas da pesquisadora Márcia Tait?


MÁRCIA TAIT LIMA – As questões de pesquisa que deram origem ao trabalho de doutorado e ao livro Elas dizem não! Mulheres camponesas e a resistência aos cultivos transgênicos foram sendo formuladas ainda durante a pesquisa de mestrado (também publicada em livro, Editora Annablume, 2011 http://folhashop.folha.uol.com.br/tecnociencia-e-cientistas-cientificismo-e-controversias-na-politica-de-biosseguranca-brasileira-marcia-maria-tait-lima-8539103273.html#rmcl) quando me aprofundei no universo dos conflitos sobre as políticas e regulamentações envolvendo os cultivos transgênicos no Brasil. Essa pesquisa voltou-se a analisar a participação de pesquisadores brasileiros na formulação das políticas de biossegurança e seus discursos sobre os transgênicos. Já no final deste trabalho indico a necessidade de se ampliar e“politizar” o entendimento do discurso tecnocientífico relacionado aos transgênicos. Ao longo do trabalho são colocadas algumas formas de desqualificações dos discursos críticos aos cultivos transgênicos dentro e fora da academia e a falta de participação de determinados grupos, como os movimentos sociais nas decisões políticas sobre liberação e risco. Assim, de certo modo, apesar de pesquisas bem diferentes do ponto de vista de autores mobilizados e metodologia, o estudo e o livro anterior e o atual sobre as ações coletivas de mulheres camponesas contra transgênicos são complementares e surgem de um mesmo interesse de pesquisa de propor uma leitura crítica da tecnociência e das novas biotecnologias e os cultivos transgênicos, trabalhando com discursos, epistemologias e práticas contra-hegemônicas e que sofreram ataques constantes e desqualificação que imputaram um local de não racionalidade e marginalidade aos discursos críticos.


Tecendo em Reverso – No seu livro há uma crítica ao processo de privatização dos sistemas agroalimentares. Como se dá o enfrentamento das camponesas em relação a tal situação? Tratando-se de abordagens mobilizadoras. Em que circunstância ocorre a atuação das mulheres nos movimentos sociais da América Latina?


MÁRCIA TAIT LIMA – Nos países em desenvolvimento, principalmente na América Latina, América Central e Índia, as mulheres camponesas ou trabalhadoras e agricultoras ocupam uma posição de destaque na produção de alimentos para subsistência de suas famílias e também de suas comunidades e também na preservação dos bens comuns (biodiversidade, solo, água). A produção voltada para o comércio, agricultura para venda (commodities) segue uma lógica distinta da lógica de produção da agricultura para consumo direto, familiar e local/regional (alimentos em natura e pouco processados). Neste segundo tipo de agricultura, as mulheres têm contribuído fortemente, embora homens e mulheres participem de ambas as formas de trabalho rural e da produção de alimentos e, portanto, façam parte dos sistemas agroalimentares. O que discuto no livro é justamente como as mulheres vêm atuando na prática da resistência à homogeneização e à privatização das culturas alimentares e sistemas alimentares. No Brasil e Argentina esta resistência se dá pela prática familiar da agricultura camponesa, mas também na associação em movimentos sociais, organizações e cooperativas mistas e exclusivas de mulheres, que quando atuam coletivamente colocam questões diversas como: a própria produção e prioridade da alimentação familiar, local, diversa e livre de contaminações; as desigualdades e violência de gênero persistentes no universo rural; os impactos da monocultura e privatização de sementes para as famílias camponesas e produção de alimentos, entres outras. Esta mobilização/articulação de mulheres em movimentos de trabalhadoras rurais e camponesas não é recente, remonta ao final da década de 70 e início de 80 e aos movimentos por direitos dos trabalhadores e trabalhadoras rurais e processos de redemocratização nos diversos países da América Latina. Porém, durante os finais dos anos 90 primeira década de 2000 os movimentos de mulheres foram crescendo em protagonismo na luta por soberania alimentar e contra os cultivos e sementes geneticamente modificadas.


Tecendo em Reverso – Tratando-se de abordagens mobilizadoras. O que une e separa as camponesas brasileiras e argentinas no que diz respeito aos temas relativos à produção de alimentos?


MÁRCIA TAIT LIMA – Na minha pesquisa e livro busco destacar principalmente as convergências entre as questões, discursos e as ações dos movimentos e grupos de mulheres no Brasil e Argentina. Porque acredito que as convergências são mais significativas que as distinções. Em várias oportunidades de leituras e participação em eventos em outros países, como Bolívia e Equador, também notei mais semelhanças que diferenças, sem desconsiderar, claro, que existem diferenças culturais e de contexto sociopolítico, por exemplo, na Bolívia e Equador a questão camponesa está muito mais vinculada à questão indígena. Neste sentido mais de refletir a partir das convergências e o que aproxima os movimentos de mulheres e participação de mulheres em movimentos e organizações no Brasil e Argentina, poderia destacar: uma forte crítica à mercantilização da agricultura ou ao modus operandi da agricultura industrial e aos impactos negativos para as famílias de pequenos agricultores e para as finalidades e formas e produção de alimentos; uma crítica à diminuição da autonomia, empobrecimento e a crescente dependência de insumos químicos e agrotóxicos na agricultura familiar e camponesa; expulsão do campo e diminuição das pequenas áreas de produção agrícola e cultivos voltados para alimentação em suas regiões e países e não para exportação; crescente empobrecimento e piora das condições de vida das mulheres e famílias camponesas; a agricultura para o alimento e o alimento como medicamento. Essa aproximação na crítica também dialoga com formas de resistência e propostas semelhantes, como feiras de trocas de sementes crioulas, feiras de produtos da agricultura familiar a agroecológica, cooperativas e pequenas associações que trabalham com beneficiamento de alimentos (pães, doces, geleias, chás, frutos secos) e artesanato; formação e solidariedade entre mulheres sobre gênero e feminismo, direitos reprodutivos e saúde, etc.


Tecendo em Reverso – No atual momento político em que infelizmente a mídia irresponsavelmente lança no país ódio e preconceito em relação às mulheres envolvidas na política. Qual reflexão você apontaria para a discussão sobre gênero e consciência de classe?


MÁRCIA TAIT LIMA – Quando lemos ou conversamos com mulheres que participaram nos processos de lutas das classes populares e da esquerda no Brasil e América Latina notamos uma importante similaridade: a formação de movimentos autônomos de mulheres motivadas por um desrespeito à participação política feminina e desconsideração de suas demandas e da própria importância das questões envolvendo a desigualdade de gênero. Existem várias colocações sobre das mulheres militantes sobre como o tema de gênero era referido como sendo uma “lutinha” ou “luta menor” dentro dos movimentos e partidos de esquerda, ou ainda que, primeiro se deveria preocupar com as questões de classe e a superação do capitalismo para depois ou mesmo de forma natural se dissolverem as questões feministas.
No passado e no presente, não apenas nos movimentos de direita, mas também dentro de grupo de esquerda e “progressistas” ainda não existe um entendimento partilhado (pelo menos não de forma majoritária) de que capitalismo e patriarcado são duas faces da mesma moeda, que devem, portanto, ser combatidos juntos - não é possível, honesto e/ou realista o estabelecimento de prioridades. Não reconhecer a exploração e subvalorização do trabalho socialmente designado às mulheres ou feminino - desde trabalho doméstico e de cuidado familiar até nas carreiras ocupadas mais amplamente por mulheres, como na educação, saúde, serviço social - como parte da “luta de classes” é uma “contradição ainda não superada” nas esquerdas, nos meios políticos e em muitas políticas públicas. Esta impossibilidade de separação se mostra bastante clara, por exemplo, numa leitura feminista do aclamado filme “Que horas ela volta”, onde se escancara a exploração de classes, mas também uma exploração de “interseccional” que envolve gênero e raça/etnia, um tipo de desigualdade/discriminação tão conhecida quanto persistentemente “apagada” pela sociedade brasileira: da mulher, pobre e nordestina. São muitas relações possíveis de serem estabelecidas a partir deste filme do ponto de vista feminista, dentre elas, o “ciclo de exploração” das tarefas domésticas e de cuidado que afetam mulheres de todas as classes (faltam políticas públicas e abordagens sociais sérias sobre quem cuida e como das crianças, adolescentes, idosos, doentes), mas principalmente, às mulheres trabalhadoras das classes populares, que não educam e cuidam de seus filhos para cuidarem dos filhos da classe média e alta e “serem quase como parte da família” de outras famílias que não as suas.
De positivo, este contexto recente também aponta justamente para o chamado de “re-florescimento” do feminismo na última década. As mulheres cada vez mais se mobilizam em distintos movimentos feministas, com ênfase em temas diferentes (livre exercício da sexualidade; humanização do parto e medicalização feminina; assédio e machismo nos espaços de trabalho e públicos; desigualdades no trabalho; maior espaço na política etc.), mas todos têm como base a não aceitação da desigualdade, exploração e violência de gênero e, diria também, um “re-florescimento” de uma “sororidade” ou sentido de empatia e união entre mulheres e, porque não dizer, entre mulheres e homens que também defendem as causas feministas. 
Não se pode deixar de notar que muitas manifestações reagem a acontecimentos que reforçam traços de uma sociedade ainda machista e sexista (como coloca em sua pergunta), mas estas reações antes não eram tão vocalizadas ou visíveis e agora são! Não acredito que antes já vivemos períodos melhores em relação ao machismo e sexismo, muito pelo contrário, mas agora isto se escancara e são vistas as rebeldias e resistência, o Não! das mulheres (e homens) como o das camponesas deste livro.  E também vemos claramente o inconformismo, por vezes expresso em reações violentas de homens e também mulheres que não aceitam a igualdade e liberdade para os gêneros e os seres humanos. A “viralização” de posts de resistência/reação a partir da reportagem publicada pela revista Veja “Bela, recatada e do lar”, referente à Marcela Temer, mulher do vice-presidente da república, ilustra bem este espaço de conflito sempre latente e agora cada vez mais escancarado entre setores, grupos, pessoas conservadoras e machistas, que querem impor um modelo de mulher e feminino, e outros inúmeros lados, transbordando e resistindo, centenas, milhares de mulheres reais que não aceitam esta imposição.  Como dizem as mulheres camponesas nos chamados a “companherada”: Lutar! Quando? Todos os dias! Quando mesmo? Todos os dias! (e na toada da Marcha Mundial das Mulheres) – Seguiremos em marcha até que todas sejamos livres!



terça-feira, 26 de abril de 2016

Ivana Jinkings

No dia 07 de abril de 1990 a Folha de São Paulo publicava em seu caderno Letras a matéria: “Textos sobre o marxismo viram sucata nas livrarias em São Paulo”. Em meio a frases como esta: “No Brasil, intelectuais e editores ainda não se deram conta, mas desapareceu o grande público para Marx” o artigo curiosamente também apontava o fato de Lênin ser à época o autor marxista mais traduzido no mundo. Apresentado pela reportagem como famoso, mas pouco lido, Karl Marx foi considerado no artigo como um “autor difícil”.
Pouco tempo depois Ivana Jinkings fundaria em São Paulo a Boitempo Editorial, proposta que começara com seu pai no Pará, o intelectual comunista Raimundo Jinkings. A paraense  apropriou-se de uma herança marxista de bons livros para trazer ao público brasileiro, não só acadêmico, mas também aos amantes do pensamento crítico e dialético os  grandes títulos do marxismo mundial.
Como no poema de Drummond “De curva em curva” a  Boitempo completou em 2016 os seus 20 anos. Com nomes como : István Mészáros, José Paulo Netto, Ricardo Antunes, entre outros, a editora erige-se hoje ao patamar dos grandes projetos editoriais da esquerda brasileira.
O autor de Fausto já dizia na velha Alemanha que a poesia se deve às circunstâncias. Entendendo texto como contexto a teoria de Marx atendeu às exigências históricas de seu tempo e, também do nosso.Traduzir, editar e ler esta obra está na pauta dos nossos dias.

Abaixo a entrevista com Ivana Jinkings:

                                                                     Foto: Ricardo Stuckert

Tecendo em Reverso – A Boitempo tem se destacado no Brasil por ter como alvo a publicação de livros marxistas. Sabe-se que infelizmente este nicho ainda se restringe a um público mais acadêmico. Quais as propostas da editora para popularizar a leitura marxiana?

IVANA JINKINGS – Nós percebemos que a comunicação com o público é essencial no processo de formação e ampliação do público-leitor e por isso investimos fortemente em eventos, imprensa e redes sociais (a Boitempo é a editora brasileira com o maior número de inscritos em canal próprio no YouTube) com o intuito de levar a obra e o pensamento dos nossos autores para mais pessoas. Isso é positivo não apenas para a editora, que acabou se consolidando como “a casa do pensamento crítico”, mas também para o leitor, que ganha outros textos e outras formas de acesso às obras e ao pensamento dos autores que publicamos, já que as gravações e os textos produzidos nesses eventos são depois disponibilizados no blog http://boitempoeditorial.wordpress.com. Muitos deles estão entre os mais importantes escritores contemporâneos, nacionais e internacionais. É o caso do britânico David Harvey, do cubano Leonardo Padura, do esloveno Slavoj Zizek, do húngaro István Mészáros, e dos brasileiros Chico de Oliveira, Leandro Konder, Maria Rita Kehl, Paulo Arantes, Raquel Rolnik e Ruy Braga, entre muitos outros que hoje atraem multidões aos nossos eventos (via de regra, gratuitos). Como forma de popularizar as obras de Marx e Engels temos adotado também a prática de promoções periódicas e a participação em feiras acadêmicas nas quais oferecemos os títulos com até 50% de desconto. Outra via foi dispor os livros do nosso catálogo no formato digital, o que permite uma diminuição significativa no preço de capa – os preços de nossos títulos digitais passaram a custar até 65% menos do que a versão impressa, uma redução acima da média brasileira em termos relativos e absolutos.

Tecendo em Reverso – As campanhas publicitárias de incentivo à leitura no Brasil, bem como os livros são enviesados numa perspectiva mercadológica e, muitas vezes imbecilizante em relação ao seu público alvo, ou seja, as crianças. De que maneira a editora ao lançar o selo infantil Boitatá pretende abordar um conteúdo literário progressista e engajado com a realidade?

IVANA JINKINGS – Já faz alguns anos que vivemos uma verdadeira ebulição política e social no Brasil. Manifestações nas ruas tornaram-se comuns recentemente, tanto de direita quanto de esquerda, e nós temos visto os movimentos sociais cada vez mais organizados, clamando por cidadania, por um maior espaço de participação política. Há um radicalismo no país e as crianças não passam incólumes a isso. Elas veem política na TV, na internet, e querem saber, querem entender, participar da discussão. Mas como explicar para uma criança de oito anos como se organizam as eleições, o que é impeachment, ditadura, corrupção etc.? Ou: o que é feminismo, o que são classes sociais? Enfim, são esses conceitos básicos que a coleção Livros para o amanhã” procura explicar, apostando na inteligência, no questionamento e no senso de justiça de seus pequenos leitores. Neste ano estrearemos em ficção para crianças, com uma autora espanhola e uma brasileira.


                                                       Ivana e os trabalhadores da Boitempo
                                                                Foto: Arquivo pessoal da editora.

Tecendo em Reverso – Na sua concepção quais foram as mudanças mais significativas ocorridas desde a criação da editora no cenário político brasileiro?

IVANA JINKINGS – A editora começou em 1995, com a publicação de um texto inédito de Stendhal sobre Napoleão que revela seu lado “historiador político”. A ideia inicial era publicar obras de indiscutível relevância que fossem inéditas no Brasil ou até editadas, mas esquecidas e esgotadas há muito tempo. Aos poucos a Boitempo foi se firmando como editora de livros de ciências humanas, e a atuação no campo da ficção e de obras raras foi de certo modo “solapada” pelas urgências teóricas do nosso tempo. Fizemos a opção por um catálogo de fundo consistente - movimento contrário ao da maioria das editoras, que acabam relegando seus próprios livros ao esquecimento por estarem sempre em busca de um novo best-seller. O mercado não era tão concentrado há vinte anos, as editoras estrangeiras e os grandes grupos não tinham ainda entrado no Brasil como agora ocorre.
No cenário político, passamos pelos trágicos anos FHC, com inflação e taxas de juros altíssimas; pelos dois mandatos de Lula, que representaram relativos avanços na economia e inclusão social, com crescimento econômico e redução da pobreza; e cá estamos no segundo mandato Dilma, que ora corre sério risco de ser interrompido pelas forças políticas mais retrógradas do país. Chamar o impeachment da presidente Dilma ou dar pouca importância a ele é um diversionismo, as esquerdas precisam se posicionar urgente e firmemente contra esse atentado à democracia. E somente depois pensar numa pauta única contra o ajuste fiscal, contra a Agenda Brasil, a lei antiterror, as terceirizações e todos os retrocessos propostos. Seria a melhor resposta das forças populares à ofensiva da direita e uma resposta – pela esquerda, nas ruas – à capitulação de um governo que traiu seus eleitores e sua base social. Pois embora os governos do PT tenham tirado da miséria 50 milhões de brasileiros, eles afagaram o quanto puderam os “mercados”, a imprensa golpista e o que há de pior no cenário político. A despeito das imensas dificuldades, precisamos agora cerrar fileiras contra a direitização do Brasil.

Tecendo em Reverso – Como se dá hoje o processo da escolha de autores pela editora e, como se dialoga diante de divergências tão grandes entre a esquerda brasileira?

IVANA JINKINGS – Temos uma instância interna, formada por integrantes do editorial, das equipes de comunicação e do comercial, e um conselho editorial formado por alguns dos coordenadores das nossas coleções que se reúne periodicamente. Buscamos compor o catálogo da Boitempo de forma não sectária, contemplando autores de diferentes linhas do pensamento crítico.

Tecendo em Reverso – Alguns clássicos de Karl Marx já foram traduzidos em sua íntegra pela editora. Quais serão as próximas traduções?

IVANA JINKINGS – Os próximos lançamentos da coleção serão O capital, livro III; O roubo da madeira, de Marx com texto introdutório de Daniel Bensaid; e A dialética da natureza, de Engels.



terça-feira, 12 de abril de 2016

Ruy Medeiros - História Local e Memória: Limites e Validade.

Ruy Medeiros é Mestre e Doutor em Linguagem e Sociedade pela UESB. Graduado em Direito pela Universidade Católica de Salvador percorre pelas áreas de História do Direito, Direito do Trabalho e Movimentos Sociais.
Em sua mais recente obra: História Local e Memória: Limites e Validade publicada pela editora Librum o autor faz um amplo estudo tendo como mote a cidade de Vitória da Conquista (BA).

Confiram a entrevista:

                                                                                    Foto: Arquivo pessoal do autor.


Tecendo em Reverso - Como se dão os estudos sobre a história das localidades brasileiras?


RUY MEDEIROS – Isso ocorre com inúmeros obstáculos: dificuldade de acesso às fontes, ausência de aprofundamento metodológico (há certas especificidades do local – até mesmo saber o que é local – que devem ser observadas), dificuldade de destrinchar os nódulos que compõem o local, dispersão de arquivos ou falta desses. A história local, tem sido realmente local (isto é, escrita por não historiadores de ofício) e os acadêmicos de história preferem temas ao invés da história de um Município ou de uma região e isso dificulta o surgimento de modelos, importantes para a escrita da história.


Tecendo em Reverso - Quais foram as maiores dificuldades em se pesquisar a história local de Vitória da Conquista?


RUY MEDEIROS - Pesquisar a história de localidades (s) apresenta dificuldades. A maior delas é a escassez de fontes reunidas. Nem toda localidade possui arquivo público. Algumas possuem mero depósito de documentos. As fontes de origem privada escasseiam com a desagregação familiar e jornais nem sempre existem ou suas coleções são incompletas. A busca do local tem que ser feita igualmente em outros lugares, às vezes fora do Brasil. Há fontes valiosas para a História de Vitória da Conquista, em Portugal, Salvador, Belo Horizonte (neste último lugar, o APM), com documentos que interessam ao movimento de conquista do território.


Tecendo em Reverso - Sabe-se que no interior do Brasil há um grande número de cronistas locais que não tem formação de historiador. Qual a sua avaliação do trabalho deles e sua importância em relação aos registros textuais de determinada região?


RUY MEDEIROS - Os historiadores locais fazem sobretudo “memória” e nesse mister são importantíssimos. Para a História, geralmente são pontos de partida, com as informações que registram e com os documentos que transcrevem em seus livros. Há documentos que só nos chegaram a partir desses memorialistas. Alguns tiveram (têm) o cuidado de analisar, propor explicações, interpretar... Geralmente fazem trabalho marcadamente ideológico, mas o leitor saberá interpretá-lo e retirar de seus escritos muita coisa interessante. São laços de continuidade entre passado e presente.


Tecendo em Reverso - Em seu trabalho, lemos: "Forte é o mito que situa a origem do arraial donde Vitória da Conquista nasce: uma promessa aceita e atendida, ave Maria, gratia plena. O culto à Nossa Senhora da Vitória ou Santa Maria da Vitória, tem início quando o papa Pio V criou a festa de Nossa Senhora do Rosário para comemorar a vitória da frota cristã contra os turcos na batalha naval de Lepanto em 1751. Nossa Senhora da Vitória". Como se estabelecem as relações entre religião e fundação e qual a real importância da primeira sobre a segunda?


RUY MEDEIROS - Trata-se de uma relação complexa,  sobretudo num Estado não laico. Muitas cidades nasceram ou se desenvolveram em torno de um templo católico (fundação), o pensamento religioso estabelece mitos fundadores, a sociabilidade desenvolve-se no templo ou em seu redor, a igreja tece família (sacramento do matrimônio), compadrio (batizado), ajuda a reproduzir o poder, etc.  Em Vitória da Conquista, o mito fundacional da cidade é católico, há padres que foram chefes de família e proprietários rurais. Sobretudo o mito fundacional justifica poder e herança. O fundador de Vitória da Conquista aparece como aquele que foi agraciado por Nossa Senhora com a Vitória contra os nativos da região (mongoiós).


Tecendo em Reverso - Na perspectiva de historiador quais os dilemas que se encontram entre "história local" e "história universal"?


RUY MEDEIROS - Não há univocidade no termo história local. Com a expressão, designa-se a história de localidades escrita por não historiadores de ofício. Mas também se designa a história de localidade, de região ou de país, em oposição ao universal (universal, conhecimento a partir de ciência, ou história global, “do mundo”). O problema está em que ao tratar cientificamente o local, deve-se tratar o universal, porém em níveis ou aprofundamento diversos. Essa ligação pode aparecer forçada (como em alguns autores) ou como mero vínculo para não parecer que o local não está no mundo. Em certo sentido, toda história é universal (o homem no tempo) e isso conduz a que se investigue o próprio tempo, seu ritmo e demoras, na forma local. Como se diferencia o tempo social da vila daquele da metrópole! Dinâmicas internas e externas se complementam; onde e por que se encontram (na inteligência) implica não apenas em saber que existe um só mundo, onde estão os diversos habitats nodulados política, social e culturalmente, pois o local é uma realidade com articulações específicas e com o mundo. 



                                                                           Foto: DIvulgação

terça-feira, 15 de março de 2016

Evandro Medeiros

Nos últimos anos o Brasil assiste a uma expansão do cinema documentário. Ali e acolá vão surgindo nomes que aos poucos ganham espaço em meio aos filmes comerciais.
O nosso entrevistado Evandro Medeiros é diretor e ao mesmo tempo produtor de seus filmes. Em sua carreira estão presentes: Dezinho: Vida, Sonho e luta, Ubá, um massacre anunciado e, mais recentemente Escola Quilombo.
O diretor tem como foco em seus filmes as questões sociais tão caras ao norte e nordeste do país. Com sensibilidade afastada da pieguice com que são tratados temas como estes, nos filmes de Evandro vislumbramos a poesia de trechos oriundos da tristeza que emana do real.
Evandro Medeiros também é Professor na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará [UNIFESSPA] e organizador do Festival Internacional Amazônida de Cinema de Fronteira.




                                                                                                            Foto: Arquivo pessoal do diretor.

Tecendo em Reverso - Quais são as diretrizes pedagógicas que orientam o trabalho do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo [ Campus Universitário de Arraias – UFT]?

EVANDRO MEDEIROS – O Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação do Campo [UFT – Campus de Arraias] faz parte de uma rede nacional de pesquisa em Educação do Campo, vinculados ao Programa Observatório da Educação do Campo da Secretaria de Educação para Diversidade [SECADI – MEC] e a CAPES. De modo geral o grupo tem como objetivo levantar dados sobre as escolas rurais, suas condições materiais, práticas pedagógicas, formação dos professores, experiências curriculares, etc. De modo a produzir possibilidades de diálogo sobre tal realidade no âmbito dos cursos de licenciatura e secretarias de educação, colocando em debate os problemas enfrentados e inovações criadas pelos professores, alunos e comunidades das escolas pesquisadas, para que assim possamos criar movimentos de elaboração de políticas educacionais que ajudem na transformação da realidade destas escolas.

Tecendo em Reverso – Como se deu a concepção do documentário “Escola Quilombo”?

EVANDRO MEDEIROS – O documentário foi pensado como mais um instrumento de enriquecimento da pesquisa, que pudesse ajudar na captação das falas-imagens de professores, alunos e comunidades sobre a realidade e cotidiano pedagógico das escolas rurais em área de quilombo no município de Arraias-To. Enriquecedor da pesquisa porque é um instrumento de apelo antropológico, pois registra a realidade observada pelos pesquisadores e a descreve por meio das imagens de vídeo de modo a permitir que os espectadores possam entrar na realidade pesquisada e construir suas próprias percepções sobre ela, ao passo que sentem tal realidade pelas falas, gestos e emoções manifestas pelos depoentes enquanto narram as questões relativas a escola e a vida na comunidade. Então, pensando assim essa relação entre o filme e a pesquisa, de modo que os resultados da pesquisa fossem ilustrados para além de um mero relatório, desejando produzir dados-informações que pudessem alcançar um público mais amplo e de maneira dinâmica, acessível a todos, independentemente da escolaridade, lugar de vida e trabalho, é que nasceu a ideia de fazer o documentário Escola Quilombo. Em sua concepção estético-fílmica o documentário tem uma ordem simples: trabalhar com as narrativas de professores, alunos e comunidade de modo a mostrar a escola segundo a concepção de quem a vive e filmado a partir de uma convivência em meio ao cotidiano pedagógico da escola.

Tecendo em Reverso- Através desta produção quais foram as maiores dificuldades levantadas no cenário educacional do norte do país?

EVANDRO MEDEIROS – Pobreza, precariedade material, baixos salários e insegurança profissional , professores não são concursados, o personagem do filme trabalha faz 20 anos como contratado, falta de acompanhamento pedagógico, professores sem formação acadêmica, currículos padronizados pela perspectiva urbanocentrica, formação continuada descontextualizada e não pautada pelas demandas do professor, alunos e comunidade.




                                                                                          Evandro e Alexandra Duarte (Diretora de Fotografia).
                                                                                                                                                               Foto: Arquivo pessoal do diretor.

Tecendo em Reverso – Sabe-se que no Brasil há um lastro razoável de produções fílmicas documentais, no entanto, a escola brasileira ainda mostra problemas quando apresenta filmes em sala de aula. Muitas vezes os professores sentem-se despreparados para a preparação de um plano de aula que contenha filmes. Como você analisa este panorama?

EVANDRO MEDEIROS – De modo geral os professores brasileiros possuem uma fragilidade  profissional no que tange ao uso de tecnologias educacionais em geral,  do trabalho com computadores ao uso de filmes em suas aulas, estes muitas vezes são usados sem conexão devida com as demais atividades curriculares e aulas, acabam sendo atividades em si. No caso de material audiovisual muitas vezes acaba sendo o filme pelo filme, falta formação direcionada para isso, óbvio, mas falta também as secretarias de educação de estados e municípios acreditarem na importância pedagógica dos filmes e outros produtos artístico-culturais  e tecnológicos, fomentando a produção desses materiais e seu uso pedagógico, assim como fomentando a produção deles através da escola, da comunidade escolar. Vivemos uma tradição arcaica da “aula monológica e quadro de giz”, em que só o professor fala e as crianças copiam, algo intolerável num tempo de avanços científicos e tecnológicos, algo intolerável em comunidades de tanta riqueza cultural e histórias, falta criatividade e estimulo a criatividade, falta estimular os alunos ao protagonismo na produção de conhecimento. Isto ocorre porque os professores também não foram “ensinados” a serem protagonistas na produção de conhecimento e uso de tecnologias para tal fim. Os professores não foram empoderados como intelectuais de suas práticas, como faz o professor Adão, personagem do filme, talvez porque não querendo que as crianças passem por tudo aquilo que ele mesmo passou na infância e profissionalmente abandonado e isolado na comunidade, se sente impulsionado a ser senhor das soluções aos limites que a realidade lhe impõe.

Tecendo em Reverso- Percebe-se que a temática social se faz presente nas suas produções audiovisuais. O que o levou a esta escolha?

EVANDRO MEDEIROS – Minha história de vida, a história de minha mãe e tios, que na infância viveram realidades parecidas com as da comunidade quilombola apresentada no filme, a trajetória de luta deles para ter acesso a direitos e criar os filhos com mais qualidade de vida, a história das pessoas pobres dos lugares por onde morei, desde pequeno observando as realidades de injustiça, miséria, exclusão social, mortes por violência ou descaso do poder público e todo tipo de tragédia que abate principalmente aqueles que menos possuem condições de se defender. Essas experiências me formaram, forjaram minha sensibilidade estética, meu compromisso ético, minha perspectiva e personalidade profissional. Fui alfabetizador de adultos, trabalhei com meninos de rua, ministrei aula em escolas públicas de periferia, colaborei com a organização de agricultores sem terra, ajudei organizar projetos de escolas para jovens agricultores, me tornei professor de universidade e todas essas experiências somadas ao desejo de realizar uma prática artística me fizeram produtor audiovisual.


                                                         Filme: Escola Quilombo






terça-feira, 22 de dezembro de 2015

No limite dos nós não desfeitos.


 Foto: Tamyris Zago

O romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos , foi publicado no Brasil em 1938. A narrativa centra-se em retirantes sertanejos do nordeste do país que perpetuam em sua trajetória um ciclo de miséria decorrente da seca.
O autor nesta obra, como em outras de sua autoria faz presente ao seu leitor o cuidado na escolha acertada de cada palavra, bem como, na dialética entre forma e conteúdo. Num percurso em que a violência subtraída da realidade faz de Vidas Secas um clássico, cuja atualidade, estimulou os descendentes (netos) de Graciliano a comparar o livro com a situação dos milhares de refugiados que perambulam hoje pelo  mundo. Razão lhes cabe.
A tragédia engendrada pelo escritor alagoano não acontece há pouco tempo. É fruto de séculos de opressão do capital e da propriedade privada nas mãos de poucos. A história se repete através dos tempos, mostrando-se bem parecida com essa pela qual passam os homens, mulheres e crianças da Jordânia, Líbano, Turquia e Síria que deixam esses lugares, não pela seca latifundiária, mas pelas guerras e opressões constantemente reafirmadas por parte dos truculentos governos invasores.
A mídia, muitas vezes não confiável, atesta que mais de 350.000 mil pessoas tenham deixado seus lares em 2015 em busca de uma vida menos atormentada. Muitas chegam ao Brasil com formação universitária, porém sem condições de arrumar em prego por conta da não fluência na língua local.
Coletivos são criados, como por exemplo, o Abraço Cultural ( homônimo do nosso coletivo criado em 2009) para dar conta deste déficit  e ensinar idiomas às pessoas oriundas de outras localidades.  Mas, as coisas seguem insuportáveis, visto que as instituições estatais trabalham ainda com o velho e garantido sistema de doses homeopáticas, no que diz respeito às medidas realmente eficazes relacionadas ao bem - estar dos refugiados.
É importante ressaltar aqui que a saída de forma abrupta de seus locais de origem fomenta questões nem sempre aventadas pelos Fabianos e Sinhás Vitórias, pois estes, muitas vezes desconhecem que por trás das guerras e secas encontra-se a atuação  do capitalismo, isto é,  um sistema econômico contemplador da riqueza para poucos com base na exploração de muitos e, que aos poucos vai destruindo não só o planeta, mas boa parte de seus moradores. A precarização do trabalho e a miséria estão presentes cada vez mais no modo de produção engolidor de gente.
Graciliano mostrou através de Vidas Secas o que existe para além do lenga-lenga açucarado dos romances alienantes. A pós-modernidade tem romanceado a realidade sobremaneira, trabalhando alegoricamente com o que realmente importa.
A imitação e a conformidade configuram-se como a arte destes tempos difíceis, pois o que se vê por aí ultimamente é a mais completa imbecilização dos seres humanos (das pessoas). Nunca houve tanto circo, no pior sentido que esta palavra possa adquirir.
Quem trabalha com a realidade leva logo a pecha de panfletário, pois o que sustenta a humanidade é a ilusão. Pena.
Dessa forma, apaga-se sutilmente qualquer horizonte de luta, pois no lugar deste nos é dada a fanfarrice e os momentos puramente dionisíacos que, se por um lado nos elevam por alguns instantes, por outro atrofiam nossa reflexão mais profunda acerca da vida.
Porém, nem tudo está perdido neste período de art pour l’art. Animei-me outro dia ao assistir uma adaptação para o teatro  de Vidas Secas feita pelos atores da Companhia Teatral: Caravan Maschera. Trata-se da italiana Giorgia Gold e do brasileiro Leonardo Garcia. Ambos, atores da Companhia.
Num espetáculo orientado somente por gestos e, obviamente, pela supressão das palavras, os atores conseguiram enredar o público num processo altamente criativo e crítico. Partindo-se de provocações necessárias, a não voz dos personagens incomodou a plateia o suficiente para a produção de questionamentos relevantes sobre a  própria existência.
Não posso deixar de mencionar um outro grande autor brasileiro: João Guimarães Rosa que em seu livro de contos Primeiras Estórias, escreve “A Terceira Margem do Rio”, narrativa que tece o abandono da casa por um pai que aparentemente fica “louco” e vai morar numa canoa naquilo que transformar-se-ia na terceira margem.
Há alguns anos, Caetano Veloso e Milton Nascimento compuseram uma música também chamada “A Terceira Margem do Rio”. Nela, temos: “Asa da palavra / Asa parada agora / Casa da palavra / Onde o silêncio mora / Brasa da palavra / A hora clara nosso pai”.
Transcrevo o trecho da letra, pois quando vi a encenação da obra de Graciliano, me lembrei da música de Caetano e Milton...pensei no silêncio e, também no “silenciamento” a qual é constantemente submetida a população marginalizada.
Em linhas gerais, o que escreveu o determinista Euclides da Cunha em “Os sertões”, continua válido: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.
Avante Caravan Maschera! Merda procês!

Juliana Gobbe


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Antônio Carlos Maciel


O pesquisador Antônio Carlos Maciel é graduado em Filosofia pela Universidade do Amazonas (1983), tem também graduação em Pedagogia pela Fundação Universidade do Amazonas (1985) com especialização em Inovação Tecnológica pela ISAE/FGV (1995). Possui mestrado em Educação pela Universidade Federal do Amazonas (1992). Possui doutorado em Desenvolvimento Socioambiental pela Universidade Federal do Pará (2004). Atualmente é Pós-doutorando em Educação pela UFOPA /UNICAMP.

Confiram a entrevista com o pesquisador:


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Socorro Lira

Por Juliana Gobbe

Socorro Lira é uma artista de muitos instrumentos. Além de cantora é poeta. Extremamente preocupada com os rumos da vida social brasileira, a artista tem uma ativa participação nas redes sociais e fora delas.
Em 2012 foi agraciada com o mais importante prêmio da música na23ª edição do Prêmio de Música Brasileira.
Recentemente lançou o EP: Os Sertões do Mundo e o livro de poesias : A Pena Secreta Da Asa.
A sessão de autógrafos do livro com recital de poesias acontece hoje na Casa das Rosas em São Paulo às 19horas.
Sua voz dispensa comentários, pois trata-se de um canto bem elaborado e rico de uma sensibilidade genuinamente brasileira. O blogue Tecendo em Reverso conversou com a artista sobre sua carreira.

Confiram:


Tecendo em Reverso - De que maneira o aboio (canto dos vaqueiros) influenciou a menina Socorro Lira no interior da Paraíba?

SOCORRO LIRA – Minha mãe decorava o canto dos vaqueiros (não me lembro de ter vaqueiras) e cantava em casa. Ela gosta muito. E eu ouvia isto de minha mãe ou vindo da mata branca (caatinga). Morávamos na roça. Era um som que vinha de longe em todos os sentidos. Mágico.


                                                 Foto: Arquivo pessoal da artista.

Tecendo em Reverso - Como nasceu a poeta Socorro Lira? Conte-nos um pouco sobre seu mais recente trabalho: A Pena Secreta Da Asa.

SOCORRO LIRA – Nasceu ouvindo poesia cantada, poesia dita, brincando de fazer rima, as brincadeiras de criança tinham poesia, como esta: “lua, luinha / me dê pão com farinha / pra eu dar à minha gatinha / que tá presa na cozinha (Que maldade “prender” a gatinha, mas era só no verso... risos).
Este livro nasceu de uma necessidade minha de organizar meus poemas e lhes dar atenção. É importante organizar e dispor para quem quiser ler (poesia) e ouvir (canção). Aí, a Uka Editorial publicou. Isso foi muito bom, permitiu uma edição bacana.


                                                    Foto: Arquivo pessoal da artista.

Tecendo em Reverso - O documentário Aqui tem coco – Um dia em Caiana dos Crioulos insere-se no projeto Memória Musical da Paraíba. Quais outras atividades estão ligadas a este projeto?

SOCORRO LIRA – Além desse documentário, produzimos 2 CDs com o cancioneiro tradicional de Caiana; o CD Pedra de Amolar, homenagem ao compositor Zé Marcolino e com participação de Sivuca, Marinês, Dominguinhos, Vital Farias e mais um time de artistas; e o álbum Lua Bonita onde interpreto a obra de outro paraibano, outro Zé, Zé do Norte. Ganhei o Prêmio da Música Brasileira com este, em 2012. Tenho bastante coisa registrada que poderá ser publicada ainda. Falta perna.

Tecendo em Reverso - Em que medida a premiação como melhor cantora regional na 23ª edição do Prêmio de Música Brasileira trouxe ao público um contato mais intenso com o que se produz hoje no nordeste?

SOCORRO LIRA – Creio que seja, esta, a mais importante premiação da música brasileira. Sou grata, ajudou bastante. Trata-se de um reconhecimento importante que nos motiva a continuar. Um prêmio serve para animar, tornar publica e afirmar uma trajetória ou uma obra, dentro de um determinado alcance. No mais, a vida segue normalmente.

Tecendo em Reverso - Quais foram as motivações que a levaram a oferecer ao seu público  Os Sertões do Mundo em formato EP?


SOCORRO LIRA – Uma gravação de Dominguinhos na música Fino Poema, que entraria num CD anterior, mas não foi possível. Guardei-a e dela me veio o  nome Os Sertões do Mundo. Pensei que esta canção que fiz para ele, Dominguinhos, e que tem sua sanfona, merecia um lugar especial. Lamento não ter pedido para ele cantar também. Infelizmente.
Depois, um tempo que passei na África, em 2011, trouxe-me o desejo de traçar um paralelo, através da canção, entre o sertão nordestino e o da África do Sul, por exemplo. Como se não houvesse um oceano entre nós. E o fato de sermos uma única espécie que habita esse planeta é um bom motivo. Nunca é demais lembrar-nos disto. Meu encontro com Mia Couto, em Maputo, e ele me dando um livro e falando de parceria também me animou a buscar mais a poesia africana, que é linda. Poema Didáctico é nossa primeira parceria.


                                                     Foto: Arquivo pessoal da artista.


Tecendo em Reverso - Percebe-se nos seus perfis nas redes sociais, uma grande preocupação com os rumos da política no Brasil.Qual é a importância dos artistas nessa espécie de engajamento com as questões que envolvem a sociedade como um todo?

SOCORRO LIRA – Antes de ser artista, sou cidadã. E gostaria que o mundo fosse digno para todo mundo, em toda parte. Quando comecei a compor e cantar eu já era engajada nos movimentos sociais, na Paraíba. Participei de política estudantil na escola e na universidade. A arte é só um jeito de eu dizer o que penso e sinto do mundo, da vida. O resto é a própria vida.