sexta-feira, 6 de março de 2015

O Lunar de Sepé por Denise Gomide

Denise Gomide é doutoranda pela Universidade Estadual de Campinas, mestre em Educação (2004) e graduada em Pedagogia pela mesma Universidade (1998). Possui especialização em Gestão da Rede Pública pela Universidade de São Paulo (2011). Atualmente é supervisora de ensino – Secretaria do Estado da Educação (SP) e pesquisadora do grupo HISTEDBR ( História, Sociedade e Educação no Brasil).
O blogue Tecendo em Reverso apresenta a resenha da pesquisadora sobre o livro de Dermeval Saviani: O Lunar de Sepé.

                                                              Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Composta por doze capítulos, a obra intitulada O lunar de Sepé. Paixão, dilemas e perspectivas na educação é uma coletânea de estudos apresentados pelo autor em conferências proferidas em diferentes circunstâncias. O título do trabalho refere-se a sua curiosidade intelectual que, ao conhecer a cidade de São Sepé, buscou alguma referência a este santo desconhecido. Tomou conhecimento do poema popular “O lunar de Sepé”, entendendo assim que a canonização de São Sepé se deu pelo imaginário popular.
O poema, apresentado na íntegra no capítulo primeiro, retrata a saga do índio Sepé que, no âmbito das missões jesuíticas, foi um dos chefes na resistência armada às determinações do Tratado de Madri que definia os novos limites entre as colônias portuguesa e espanhola na América. Pelo Tratado, boa parte das terras do sul passou para o domínio português e, por isso, os jesuítas foram obrigados a migrar com os índios para outras terras, culminando na resistência dos índios em cumprir tais determinações. O lunar correspondia a uma mancha congênita que Sepé tinha gravada na testa na forma estelar do cruzeiro, caracterizando uma predestinação divina à liderança e à guerra.
É a partir desse contexto que no primeiro capítulo o autor aborda a questão das reduções jesuítas e a última migração. A cultura introjetada nos índios pelos jesuítas representou a base da resistência, conduzindo a guerras cujo resultado foi a destruição das missões pelas forças associadas de portugueses e espanhóis.
No processo de inculcação da fé cristã, a vida social em conjunto assume papel de destaque e com esse modelo educativo os jesuítas conseguiram forjar nos índios e, especificamente no índio Sepé, os princípios da cultura jesuíta. Nesse contexto, o índio Sepé encarnou mais plenamente essa cultura introjetada pelos jesuítas. Sepé foi morto em uma das batalhas de resistência e, conforme o imaginário popular, saiu vitorioso sobre a morte a ponto de seu lunar tomar no céu a posição do Cruzeiro do Sul, saga esta que o tornou imortalizado na cultura do Rio Grande do Sul. A imagem do índio Sepé significa, no âmbito pedagógico, a representação do projeto civilizatório e do modelo educativo dos jesuítas de aculturação dos indígenas. O êxito desse trabalho educativo de aculturação é representado pela santidade atribuída pelos próprios índios à Sepé.
No capítulo dois, o autor aborda as vicissitudes, entendida como dificuldade ou revés, e as perspectivas da pedagogia no Brasil definindo-a como uma teoria que orienta de modo intencional a prática pedagógica.
O autor ressalta que no período colonial da história da educação brasileira, embora a problemática se fizesse presente, o termo “pedagogia” estava ausente tanto do plano do Ratio como nas reformas pombalinas e por este motivo denomina este período como “pedagogia antes da pedagogia”.
Ao tratar da primeira vicissitude na história da pedagogia no Brasil aponta que o termo “pedagogia” apareceu pela primeira vez em 1826 no projeto de lei de ensino apresentado por Januário da Cunha Barbosa. Dadas as diferentes interpretações do termo, foi substituído no texto da lei por “escolas de primeiras letras”.
A escola Normal para formação docente foi criada em 1835 com o objetivo de realizar o treinamento no método monitorial-mútuo, no entanto, face à sua ineficiência apontada por Couto Ferraz, buscou-se substituí-la pelos professores adjuntos que atuariam como ajudantes do regente da classe, caminho que não prosperou, dando continuidade à instalação dos Cursos Normais. Essa interrupção na instalação dos Cursos Normais e a tentativa frustrada de substituí-los pelos adjuntos são identificadas como a segunda vicissitude na história da pedagogia no Brasil, tendo em vista que retardou a formação padronizada dos professores primários.
A terceira vicissitude na história da pedagogia no Brasil foi o Decreto 19.851 de 1931 baixado pelo ministro Francisco Campos que instituiu a Faculdade de Educação, Ciências e Letras e fixou o Estatuto das Universidades Brasileiras. No entanto, essa Faculdade, definida como modelo para todo o país, nunca chegou a ser instalada. Duas iniciativas ainda da década de 30 manifestam a quarta vicissitude na trajetória histórica da pedagogia no Brasil: a criação do Instituto de Educação em São Paulo e o Instituto de Educação no Rio de Janeiro.
Ambos os institutos foram incorporados a universidades e, portanto, elevados ao nível universitário, solidificando a formação docente na investigação e experimentação científicas.
A origem do curso de pedagogia na história da educação brasileira remonta-se ao Decreto-Lei 1.190 de 1939 que normatizou a Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, organizando-a em quatro seções: filosofia, ciências, letras e pedagogia, acrescidas da seção especial de didática. Os alunos, para obterem a licença para lecionar, cursariam três anos de bacharelado na área específica mais um ano do curso de didática, o que conferiria a licenciatura. Desta forma, a formação dos professores se daria em duas vertentes: para o ensino normal e para as especialidades, o que configurou a quinta vicissitude na história da pedagogia no Brasil.
Com a organização da Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE) em 1990, emergiram duas idéias-força: a tendência em organizar o curso de pedagogia em torno da formação de professores; e a definição dos elementos fundamentais que devem basear a formação de um educador consciente e crítica, ideia essa expressa no termo “base comum nacional”.
A primeira idéia representa a sexta vicissitude da pedagogia no Brasil por definir a docência como base para a formação dos profissionais da educação, reduzindo a pedagogia à docência. A segunda idéia representa a sétima vicissitude, pois a noção de “base comum nacional” permanece obscurecida.
A pedagogia foi a última área a ter definidas suas diretrizes nacionais previstas pela nova LDB (1996), o que aconteceu somente em 2006, dez anos depois de sua promulgação. No entanto, essas diretrizes curriculares nacionais do curso de pedagogia restringiram o pedagogo a um docente formado em curso de licenciatura, caracterizando a oitava vicissitude da pedagogia no Brasil por centrar a formação do pedagogo no exercício docente.
No tocante às perspectivas da pedagogia no Brasil, o autor aponta o caminho da história como eixo articulador na organização dos conteúdos curriculares, a partir do qual a realidade da escola torna-se foco do processo formativo. A partir da trajetória histórica, os elementos da atualidade necessários à formação do pedagogo, serão estudados pelo viés da história que contemplará seu nascimento e seu desenvolvimento, possibilitando assim uma instrumentalização técnica para uma prática pedagógica eficaz, focando o processo formativo na história da organização e funcionamento da escola.
O autor reforça ainda neste capítulo a necessidade das unidades universitárias na área da educação propiciar aos jovens aspirantes à tarefa de educadores um ambiente de intenso e exigente estímulo intelectual, através da articulação dos fundamentos teóricos e práticos da educação com a pesquisa científica.
No capítulo 3, sob o título Pedagogia, Paixão e Crítica, o autor aborda a paixão do professor em cinco estações, a qual ao mesmo tempo em que remete ao prazer e à felicidade, significa também sofrimento. Assim, percorre na história, o calvário dos professores. Na 1ª Estação, a educação na Grécia, a profissão docente estava associada mais ao desprezo do que à estima. Na 2ª Estação, a educação em Roma, os dois pólos da palavra paixão, sofrimento e prazer, se fazem presentes. Na Educação na Idade Média, caracterizada como a 3ª Estação, a falta de mestres e o desinteresse pelo estudo das letras reduziram o valor social da educação, fazendo desaparecer a escola clássica e surgir os mestres livres. A educação moderna ou burguesa da 4ª Estação é definida como precária, condicionando a subsistência miserável dos professores aos centavos recebidos pelo maior número de alunos que conseguisse incluir na lista. A 5ª Estação, a educação no Brasil, trata do paradoxo exaltação e penúria que desmobiliza os movimentos docentes.
Ainda neste capítulo, o autor alerta para o fato de que a apaixonante profissão do educador não deve ser subjugada pela ingenuidade. É preciso superá-la a partir de uma perspectiva crítica que permita adequar as ações aos objetivos que se deseja atingir. Nesse sentido, o compromisso com a educação implica na tomada de consciência e no entendimento de que existe uma correlação de forças daqueles que buscam perpetuar a ordem vigente e aqueles que lutam por transformá-la, onde o professor assume a causa dos dominados (excluídos). Essa passagem da consciência ingênua à consciência crítica implica em desfazer toda ilusão de poder que acometia o professor otimista e fazia-o acreditar na sua capacidade de transformar a sociedade sem, contudo, cair num pessimismo igualmente ingênuo que não vislumbra possibilidades de transformação da sociedade pela educação. A superação do otimismo ingênuo e do pessimismo ingênuo está, segundo o autor, no entusiasmo crítico que supera a visão de senso comum intuitiva e opinativa, ascendendo à consciência fundamentada filosoficamente e cientificamente.
A temática Ética, Educação e Cidadania é tratada no capítulo 4 a partir da centralidade da Educação na trilogia, isto é, a educação, por se definir pela mediação no sentido de possibilitar ao homem a apropriação da produção humana historicamente acumulada, fará também a mediação do homem e a ética (consciência ética) e do homem e a cidadania (consciência cidadã). Além disso, a educação fará a mediação entre a ética e a cidadania, possibilitando a construção de uma cidadania ética e de uma ética cidadã.
Ao refletir sobre “O homem e os valores”, o autor aponta os condicionamentos aos quais o homem está submetido tanto no meio natural como no ambiente cultural. Esses condicionamentos tornam-no um ser situado (a priori existencial), o que lhe dá as condições de existência humana. Por este motivo, o homem passa a valorizar os elementos que lhe dão essas condições, exercendo assim uma atitude axiológica, ou seja, passa a atribuir conceitos de valor. Define, portanto, a situação (contexto determinado) como o primeiro aspecto que caracteriza a estrutura do homem.
A partir dessas considerações, o autor define valor como uma relação de não indiferença entre o homem e os elementos com que ele se defronta, estabelecendo uma relação de valoração positiva com os elementos que favorecem a sua existência e uma relação de valoração negativa com os elementos que prejudicam a sua existência. Dessa forma, é possível ao homem reagir e intervir na situação para aceitá-la, rejeitá-la ou transformá-la. E a transformação que o homem opera no contexto determinado é definida pelo autor como cultura que, enquanto produto da ação humana, é resultado da ação que ele opera no meio, sendo-lhe, portanto, capaz de superar os condicionamentos da situação.
Ao tratar do segundo aspecto da estrutura do homem, a liberdade, que por ser pessoal e intransferível, evidencia a autonomia dos sujeitos e impõe o respeito à pessoa humana. Nessa perspectiva, o autor assevera que a relação de domínio do homem sobre as coisas jamais pode ser estendida para as relações entre os homens.
O terceiro aspecto que caracteriza a estrutura do homem, o aspecto intelectual, implica na consciência, por meio da qual é possível ultrapassar os limites situacionais e pessoais numa perspectiva de objetividade, transcendendo os pontos de vista pessoais e possibilitando, portanto, a comunicação e o entendimento entre os homens numa relação de colaboração. Isso dá abertura para a relação estética, de apreciação, do homem com as coisas e do homem com outros homens.
Ao tratar da educação e os valores, o autor retoma a idéia de homem como ser que produz a sua própria existência a partir da ação coletiva sobre a natureza. E nesse sentido, as origens da educação se confundem com as origens do próprio homem que, não tendo garantida a sua existência, tem que aprender a produzi-la, agindo sobre a natureza e transformando-a. Neste sentido, a educação, enquanto atividade intencional consiste em produzir na singularidade a humanidade que é produzida historicamente pela coletividade a fim de capacitá-lo para intervir na situação para transformá-la, ou seja, transformar o que é naquilo que deve ser.
Ao falar sobre Ética e Educação, o autor aponta a educação como mediação no processo de tomada de consciência moral das ações humanas elevando-a ao nível ético, isto é, a partir da educação os valores morais são subordinados à compreensão teórica dos fundamentos, critérios e regras que os definem, o que os eleva ao nível ético.
A ética pertence, portanto, ao domínio pessoal das relações entre os homens, nas quais está em evidencia a questão indissociável da liberdade e da responsabilidade. No entanto a educação tem tratado a questão de forma dicotômica: hora exaltando a liberdade, hora exaltando a responsabilidade. Com efeito, o indivíduo deve assumir as suas decisões e escolhas (liberdade), mas também deve assumir as suas consequências e implicações (responsabilidade).
Sobre Cidadania e Educação, inicia afirmando que ser cidadão significa ser sujeito de direitos e de deveres, agindo politicamente segundo as exigências próprias da vida em sociedade.
Ressalta que a questão da cidadania se põe na sociedade burguesa e, nesse contexto, a educação escolar configura-se como instrumento básico para o exercício da cidadania, como condição indispensável para que ela se constitua, pois não é possível a existência na sociedade moderna sem o acesso à cultura letrada, sem a qual não se pode participar plenamente da vida em sociedade e nem mesmo ser sujeito de direitos e deveres.
Considerando que na base da sociedade burguesa está a divisão de classes, os interesses opostos dessas classes acabam por refletirem-se nas relações da trilogia ética, educação e cidadania, tanto na vida social cotidiana, como também nas relações de trabalho e na vida cultural, o que atribui à trilogia uma determinação histórica e social. No contexto da sociedade burguesa, a ética, a educação e a cidadania refletem a ideologia burguesa, e a educação, no papel de mediadora entre a ética e a cidadania, buscará instituir em cada indivíduo singular o cidadão ético correspondente a esse tipo de sociedade.
Diante desses impasses, aponta-se como horizonte a visão socialista de educação, capaz de embasar uma nova sociedade em que a ética e a cidadania, mediadas pela educação, realize a verdadeira emancipação humana.
No capítulo 5, ao tratar dos dilemas e perspectivas da formação de professores no Brasil, o debate se inicia com uma reflexão sobre a situação atual da educação e a formação de professores situando, em termos quantitativos, o avanço significativo no campo educacional ocorrido no século XX, consubstanciado na universalização do acesso ao ensino fundamental. No entanto, o avanço quantitativo trouxe em seu bojo os problemas de caráter qualitativo, que se evidenciam no desempenho insuficiente e na dificuldade de conclusão do ensino fundamental. Nessa discussão, o problema da formação docente emerge como o vilão responsável pela falta de qualidade na educação.
Retomando os antecedentes históricos, o autor aponta que no século XIX dois modelos buscaram resolver o problema da formação docente: o modelo dos conteúdos culturais-cognitivos e o modelo pedagógico-didático. A preocupação do primeiro modelo está no domínio da cultura geral e na formação específica na área de conhecimento que o professor pretende lecionar, representando, na história da educação, as instituições de ensino que foram responsáveis pela formação dos professores secundários. No segundo modelo além da cultura geral e da formação específica, prioriza-se a preparação pedagógico-didática, tendo as Escolas Normais como representantes deste modelo na formação dos professores primários.
Aponta ainda que as políticas formativas no Brasil são descontínuas. Enquanto que nas reformas da década de 30 a questão pedagógica ocupou posição central; as diretrizes sucessivas, não conseguiram estabelecer um padrão mínimo de formação docente para o enfrentamento dos problemas da educação escolar brasileira.
Ao analisar os documentos oficiais que estruturam a atual formação dos professores no Brasil, o autor faz menção a cinco dilemas:
1. Apontam os problemas a serem resolvidos e as dificuldades a serem superadas, porém são insuficientes no encaminhamento das soluções.
2. São restritos no que diz respeito aos conhecimentos historicamente acumulados, essenciais à formação docente; porém são impregnados dos novos paradigmas da pós-modernidade.
3. Centralizam a noção de “competência” entendida como mecanismo de adaptação do comportamento humano ao meio material e social, o que resulta na incompetência dos professores em lidar com a complexidade da tarefa pedagógica.
4. Reforçam uma formação focada no máximo desempenho com o mínimo de investimento, resultando no professor técnico cuja atividade restringe-se à aplicação de regras, em detrimento do professor culto que domina os fundamentos científicos e filosóficos do conhecimento.
5. Evidenciam a dicotomia entre os dois modelos de formação (o modelo dos conteúdos culturais-cognitivos e o modelo pedagógico-didático), sem qualquer encaminhamento para sua superação.
Quanto às perspectivas da formação docente no Brasil hoje, apresenta a fragmentação, dispersão e descontinuidade das políticas educacionais; o formalismo das normas legais nos cursos de formação docente; separação entre as instituições formativas e as escolas; dicotomia entre teoria e prática; e precarização do trabalho docente como desafios a serem superados. Para essa superação apresenta como perspectivas a formação centrada no padrão universitário com foco na docência; uma política educacional que priorize a formação de professores cultos; a formação para o ensino e a pesquisa com intenso e exigente estímulo intelectual; uma articulação das instituições formativas com o funcionamento das escolas através de um redimensionamento dos estágios; um posicionamento teórico, no âmbito da pedagogia histórico-crítica, para articulação da teoria e da prática; e uma política de valorização docente.
Nessa perspectiva, há que se ressaltar que não há como enfrentar o problema da formação docente, ignorando a questão das condições do exercício do trabalho docente. Se por um lado, a boa formação implica num trabalho docente satisfatório; por outro lado, as condições do exercício do magistério verificadas fundamentalmente nos próprios professores formadores e nos estágios, acabam por determinar a qualidade da formação docente. Assim, as condições de trabalho docente têm um impacto decisivo na formação de novos professores, ligando-se intimamente à valorização social da profissão.
Ao tratar do direito à educação, o autor inicia o capítulo 6 distinguindo direitos civis, ligados ao exercício da liberdade individual; direitos políticos, ligados à participação no poder político; e direitos sociais, correspondendo ao nível mínimo de bem-estar e no qual se configura a educação que, para além de um direito social, é condição necessária para o exercício de todos os direitos. Considerando que a sociedade urbano-industrial se baseia em normas escritas, para a participação ativa nessa sociedade e o exercício dos direitos, os indivíduos necessitam ter acesso aos códigos escritos, o que, de fato, é mediado pela escola, convertendo os indivíduos em cidadãos, isto é, sujeitos de direitos e deveres.
No entanto, ao longo da história da educação no Brasil, o Estado não conseguiu cumprir o seu dever de garantir à população o direito de ter acesso à educação, persistindo o conflito entre a proclamação do direito à educação e a sua efetivação, dada a histórica resistência em investir neste direito social.
Em seguida, no capítulo 7, buscando responder a questão “que escola queremos?”, o autor descreve os quatro paradoxos da educação escolar. O primeiro deles, o paradoxo da escola cidadã: autonomia ou submissão, trata da expectativa contraditória da escola cidadã que, ao nível do discurso, tem por objetivo formar para o exercício consciente da cidadania, isto é, transformar os indivíduos de sujeitos passivos e conformados em sujeitos críticos, ativos e transformadores; e da escola que, na realidade, entende a educação cidadã como o processo de formar indivíduos disciplinados, ordeiros, que respeitem os outros e sejam submissos. Já as expectativas contraditórias do paradoxo da escola imparcial: justiça ou injustiça, se definem na defesa de uma escola justa, imparcial, que, por uma lado, leve em conta apenas o mérito individual como padrão de justiça; mas que, por outro lado, se pauta pela defesa de uma escola que leve em conta as diferenças e particularidades individuais e sociais dos alunos. Ao tratar do paradoxo da escola igualitária: igualdade ou desigualdade as expectativas contraditórias resumem-se no tratamento igual conferido ao desiguais e o tratamento desigual aos iguais, o que reporta ao último paradoxo: o paradoxo da escola equalizadora: equidade ou ini(e)quidade.
Neste paradoxo, o autor discorre sobre a escola que busca equalizar as desigualdades tratando de forma diferenciada os desiguais. Todavia, é exatamente o discurso da equidade que acentua as desigualdades por permitir que regras utilitárias de conduta sobrepujem a questão do direito, adaptando-o às diferentes circunstâncias.
A razão dessa tendência da educação em gerar expectativas contraditórias está na estrutura da sociedade atual. O caráter contraditório da ideologia liberal, que é a base da sociedade capitalista, se expressa no campo educacional a partir das contradições entre o homem e sociedade expressas na divisão entre o indivíduo egoísta e independente e a pessoa moral, cidadão do Estado; entre o homem e o trabalho que contrapõe o trabalho enquanto fonte criadora da existência humana e o trabalho como elemento de degradação e escravidão do trabalhador; e entre o homem e a cultura que contrapõe a cultura socializada, rebaixada para as massas, à cultura individual, sofisticada para as elites.
Tais questões evidenciam a impossibilidade do desenvolvimento da escola pública na sociedade de classes de tipo capitalista a qual funda-se na apropriação privada dos meios de produção, dentre eles o saber. Uma escola pública de qualidade viabilizaria a apropriação do saber por parte dos trabalhadores que, sendo proprietários apenas de sua força de trabalho, não podem, portanto, apropriar-se do saber. Por isso, a luta pela escola pública coincide com a luta pela superação dessa forma de sociedade, com a luta pelo socialismo. Este é o caminho para resolver o paradoxo da educação escolar, superando as expectativas contraditórias.
O capítulo 8 aborda a importância da filosofia para a educação, considerando que a filosofia, por ser a forma mais elaborada de compreensão do homem pelo próprio homem, é uma especialidade que interessa a todos os homens.
Sendo a história o conteúdo da filosofia por tratar da produção da existência humana no tempo, o método do filosofar pode seguir dois caminhos distintos e opostos: o do idealismo ou da metafísica, que faz abstração do movimento concreto da história, convertendo-a em idéias que se justificam por si mesmas, e o da historicização, que toma a história como o próprio método do filosofar. Nessa perspectiva, a formação do educador deveria priorizar o desenvolvimento de uma ampla cultura filosófica que tenha a história como conteúdo e forma, possibilitando assim compreender o modo de ser do homem enquanto indivíduo real e sujeito histórico.
A politecnia e a formação humana são tratadas no capítulo 9 a partir do trabalho enquanto princípio educativo no sentido de ajustar a natureza às finalidades humanas. Essa ação sobre a natureza para transformá-la é guiada por objetivos, antecipada mentalmente, o que diferencia os homens dos animais que apenas adaptam-se a natureza e agem sobre ela por instinto.
A formação dos homens traz a determinação do modo como produzem a sua existência e a realidade da escola tem de ser vista nesse quadro. Nos primórdios, a educação se restringia a pequenas parcelas da humanidade. O trabalho produtivo era o trabalho de cultivo da terra, para o qual não eram requeridos conhecimentos sistemáticos. Com o advento da sociedade moderna, os conhecimentos passam a ser incorporados como força produtiva por meio da indústria, subordinando o campo à cidade, e a agricultura à indústria. Distanciando-se das relações naturais, a sociedade moderna passou a adotar normas para as relações entre os homens, normas estas compreendidas no direito positivo, que assumiu a forma escrita, sendo necessária a introdução de códigos de comunicação. É nesse contexto que a escola se constitui como via de acesso aos códigos escritos e o currículo escolar, desde a escola elementar, passa a ser estruturado considerando o princípio do trabalho como processo pelo qual o homem transforma a natureza. No entanto, a sociedade moderna, alicerçada na propriedade privada dos meios de produção, converteu o conhecimento em força produtiva, ou seja, propriedade privada da classe dominante, desenvolvendo mecanismos que sistematizam os conhecimentos em saberes genéricos aos trabalhadores e reforçando a separação entre o trabalho manual e trabalho intelectual.
A noção de politecnia vem contrapor-se a essa dicotomia, postulando que o processo de trabalho desenvolva os aspectos manuais e intelectuais, colocando assim todo o processo produtivo a serviço do conjunto da sociedade, abarcando assim todos os ângulos da prática produtiva.
No capítulo 10, o autor discorre sobre O futuro da Universidade entre o possível e o desejável. As universidades surgiram na Idade Média com o propósito de formação de profissionais intelectuais, em oposição às corporações de ofício cujo objetivo era a formação nas artes manuais.
Na primeira metade do século XIX definiram-se os três modelos clássicos de universidade e que configuram a universidade como a conhecemos atualmente: o modelo napoleônico, com a prevalência do Estado, o modelo anglo-saxônico, com destaque para a sociedade civil, e o modelo prussiano, prevalecendo a autonomia da comunidade acadêmica.
No Brasil, o modelo napoleônico prevaleceu desde 1808. A partir da década de 80, há um deslocamento no padrão do ensino superior no Brasil com a incorporação de elementos do modelo anglo-saxônico, principalmente no que diz respeito a distinção entre as universidades de pesquisa, espaços restritos de concentração dos investimentos públicos; e as universidades de ensino, tidas como universidades de segunda classe que não necessitam desenvolver pesquisa. Nesse contexto, configura-se o futuro possível da universidade: o de subordinação da educação superior aos mecanismos de mercado.
Segundo o autor, a atividade de pesquisa é um produto que não é separável do ato de produção, o que limita o modo de produção capitalista neste tipo de atividade e, portanto, não pode ser plenamente objetivada. No âmbito da produção material, a maior produtividade e o maior nível de qualidade estão atrelados a incorporação de inovações tecnológicas que possibilitaram o incremento da mais-valia relativa, de modo que os ganhos de produtividade expressam-se igualmente em ganhos de qualidade. Já no âmbito da atividade científica e da educação, modalidades da produção não material, o incremento da produtividade interfere negativamente na qualidade e vice-versa. No entanto, é importante ressaltar que, trabalho produtivo na sociedade capitalista é o que gera mais-valia e trabalho improdutivo é o que não gera mais-valia, o que não significa que nada produza. Pode produzir, sem, contudo, gerar mais-valia, ou seja, sem entrar no circuito do capital.
Esses dois aspectos, produtividade e qualidade, consistem no dilema do ensino superior hoje, especialmente dos cursos de pós-graduação. Ao dar precedência à produtividade, atendendo aos critérios das agências de apoio à pesquisa no que diz respeito ao aumento do número de relatórios de pesquisa em troca de apoio financeiro, ignora-se o tempo destinado à produção de dissertações e teses, o que acaba por contribuir com a queda da qualidade dos programas de pós-graduação. Ao dar precedência à qualidade, com foco na formação e na produção de dissertações e teses, as exigências de produtividade ficariam em segundo plano, reduzindo o financiamento.
A solução deste problema, segundo o autor, é buscar construir outro futuro para a universidade que afirme a educação como fator estratégico, de modo que a prática articulada do ensino, da pesquisa e da extensão converta-se em principal instrumento no projeto de desenvolvimento da sociedade brasileira.
Dando continuidade ao tema da educação superior, o capítulo 11 trata da Pós-graduação em educação, interdisciplinaridade e formação de professores. Inicia o texto fazendo a distinção entre a pós-graduação lato sensu, voltada para o aperfeiçoamento e especialização da formação profissional básica obtida na graduação e tendo como elemento principal o ensino; e a pós-graduação stricto sensu, organizada nas formas de mestrado e doutorado e voltada para a formação acadêmica de pesquisadores e, portanto, com foco na pesquisa inicial (mestrado) e de consolidação (doutorado).
O autor retomou o Parecer 977 de 1965, de autoria de Newton Sucupira, que trata da conceituação dos estudos pós-graduados stricto sensu, prevendo apenas o mestrado e o doutorado, e da estrutura organizacional bastante articulada influenciada pelo modelo americano, mas inspirada, na sua implantação, pela experiência europeia de densidade teórica herdada do iluminismo.
Questiona a redução do tempo de realização do mestrado com a tendência de dispensar a dissertação, ressaltando como necessário o exercício da pesquisa como forma de adquirir domínio teórico e prático do processo de investigação. Aponta como alternativa as monografias de base como ideia reguladora da dissertação de mestrado que, a partir de temas relevantes ainda não suficientemente explorados, orientariam um levantamento das informações possíveis.
Com relação à forma de organização curricular da pós-graduação, o autor trata da questão da interdisciplinaridade, ressaltando como o termo vem sendo banalizado nas teorizações. Com relação ao campo educativo, suas reflexões partem da diferenciação entre as ciências da educação (psicologia da educação, sociologia da educação, história da educação, etc), onde o ponto de partida e o ponto de chegada estão fora da educação; e a ciência da educação enquanto constituição concreta a partir de uma totalidade e, portanto, ponto de chegada e ponto de partida, onde as contribuições e os conhecimentos científicos das diferentes áreas têm como referência a problemática educacional.
No tocante a formação docente na pós-graduação, a história da educação brasileira desde seus primórdios evidencia que não se manifestou uma preocupação explícita com a formação dos professores.
Fechando a obra, o autor trata no capítulo 12 sobre o financiamento da educação sob perspectiva histórica, constatando que embora a legislação tenha definido em diferentes momentos percentuais mínimos a serem investidos no ensino, tais percentuais sempre foram entendidos como máximos, configurando assim na história brasileira a escassez de recursos para a área da educação.
A atual sociedade do conhecimento aponta a educação como fator estratégico no projeto de desenvolvimento do país e, considerando isto, o autor apresenta uma proposta de aumento exponencial dos recursos para a educação. Inicia pontuando a relação entre educação e desenvolvimento a partir de três concepções distintas: educação pelo desenvolvimento econômico, educação para o desenvolvimento econômico e educação como desenvolvimento econômico.
A educação pelo desenvolvimento econômico considera a relação entre educação e desenvolvimento a partir do entendimento de que a educação situa-se à margem do desenvolvimento econômico, porém dependente das possibilidades abertas por ele. Esta concepção estabelece a educação no âmbito do não trabalho como atividade improdutiva. Pautada na concepção liberal, centrada na valorização absoluta do indivíduo, a educação nesse contexto é vista como fruição da cultura e não como preparo para a atuação social.
Na segunda concepção, educação para o desenvolvimento, a educação atua como instrumento a serviço do desenvolvimento econômico. Tal perspectiva se projetou na década de 1960, com a teoria do capital humano, focando o valor econômico da educação pela sua relação direta com a qualificação da mão de obra. Isso significa que, nesse contexto, o projeto de desenvolvimento nacional buscava adequar o ensino escolar às demandas do processo produtivo resultando na instalação das escolas técnicas profissionalizantes e reforçando a visão dualista e excludente que contrapõe desenvolvimento econômico e desenvolvimento social.
Na terceira concepção, educação como desenvolvimento econômico, o autor, a partir de Marx, define a educação como não apenas um bem de consumo, mas um bem de produção, evidenciando que o processo de produção social é uma totalidade orgânica.
Assim, não faz sentido a dicotomia entre educação e economia, justamente porque no contexto da atual sociedade do conhecimento, o processo produtivo depende cada vez mais do domínio de formas de pensamento adquiridas sistematicamente através da escola.
O autor sinaliza para a superação do modelo econômico vigente, a partir do consenso de que a educação formal, na atual sociedade do conhecimento, é a chave do sucesso para todos os setores e empreendimentos. Portanto, é preciso assumir a educação como fator estratégico para o desenvolvimento o que implica no investimento maciço para atacar, na linha de frente, todos os outros problemas decorrentes da falta dela, pois, pela educação, estará sendo promovido o desenvolvimento econômico.
O autor conclui o capítulo final refletindo sobre a oportunidade que nos é posta pelo novo Plano Nacional de Educação (PNE) no sentido da melhoria da qualidade na educação e, especificamente, no tocante ao financiamento, sem o qual todas as outras metas ficam inviabilizadas. A educação, como modelo de desenvolvimento econômico e como área prioritária em torno da qual girará o desenvolvimento do país, é o caminho mais consistente e estratégico, e por isso, reivindica via PNE, o adequado encaminhamento da questão do financiamento.
Finalizando, ressaltamos que os doze capítulos apresentam uma importante referência para a área da educação e isto se deve, especialmente, à sua linguagem clara, direta e objetiva, o que facilita a consulta e a compreensão por parte dos leitores das temáticas abordadas nesta obra.


* Esta resenha foi publicada pela primeira vez na Revista HISTEDBR online.



Indicação de leitura:

                                                                 Foto: Divulgação

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

MIRLA CISNE

Por Juliana Gobbe


A pesquisadora Mirla Cisne é graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual do Ceará (UECE) com mestrado em Serviço Social pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE) e doutorado na mesma área pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ). Atualmente integra o Núcleo de Estudos sobre a Mulher Simone de Beauvoir e é também professora adjunta da Universidade do Estado do Rio Grande do Norte.
Em 2014 trouxe ao público brasileiro a obra: Feminismo e Consciência de Classe no Brasil e é sobre ela que a pesquisadora nos concede esta entrevista.


        Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora.


Tecendo em Reverso - De que forma se deu a necessidade de pesquisar a temática “ Feminismo e consciência de classe no Brasil”?


MIRLA CISNE – Se deu pela necessidade de compreender como sujeitos inseridos em relações de alienação não apenas advindas do trabalho assalariado, mas, também, do patriarcado, conseguem romper com a naturalização da subordinação ao se reconhecerem como feministas. Esse reconhecimento não afeta apenas as vidas individuais das mulheres, mas, influencia em transformações coletivas  ao colidirem com os conservadorismos e hierarquias que marcam relações familiares, trabalhistas, religiosas e políticas (mesmo no campo da esquerda). Daí pensar na importância do feminismo para a luta de classes, já que sem essa perspectiva, a construção de uma nova sociedade tende a não romper com relações de opressão patriarcais. Em outras palavras, não me parece suficiente transformar o modo de produção capitalista do ponto de vista restritamente econômico, sem enfrentar relações estruturais que alimentam sua lógica de exploração e sua cultura de opressões que sustentam desigualdades, quais sejam: o patriarcado e o racismo. O feminismo classista e materialista enfrenta em uma perspectiva de totalidade todas as formas de opressão e exploração, mesmo no interior da esquerda que, infelizmente, não está imune aos preconceitos, relações de privilégio e práticas de violências patriarcais e racistas. Assim, penso que o feminismo busca desde o agora a coerência com valores libertários e igualitários nas relações sociais concretas que estabelecemos.



Tecendo em Reverso- Qual é a grande contribuição dada pelo feminismo materialista francófono às causas feministas?


MIRLA CISNE - Analisar de forma crítica e em uma perspectiva de totalidade, a construção sócio-histórica da exploração e opressão sobre as mulheres, apreendendo as relações sociais estruturantes dessa condição, quais sejam, as relações sociais de sexo, raça e classe, que atuam de forma consubstanciada e coextensivas. O destaque que fazemos a essa perspectiva feminista é, fundamentalmente, sua base materialista, que a distancia do idealismo e do culturalismo, ao partir da análise das determinações concretas das desigualdades sociais. A cultura possui determinações, permeadas por interesses e antagonismos de classe, bem como pelas relações étnico-raciais e de sexo. Desconsiderar isso, é isolar a cultura da sociedade, deslocando as determinações materiais das desigualdades para uma cultura atomizada e ideologizada.


Tecendo em Reverso - No seu livro o leitor encontra excertos de anúncios de empregos para mulheres do Sistema Nacional de Empregos (Sine) de São Paulo. Neles há a preponderância da “ditadura da beleza” como algo importante para o trabalho feminino. Quais são atualmente os grandes contribuidores para a naturalização de padrões de beleza no Brasil?


MIRLA CISNE – Centralmente, penso que a ditadura da beleza conta com uma forte difusora: a indústria da beleza que, permeada pelo racismo historicamente construído no Brasil, estabelece a beleza branca como o padrão. A mídia e o processo de mercantilização que empreende sobre o corpo feminino para venda de produtos também possui papel importante na naturalização dos padrões de beleza. É importante perceber que essa indústria da beleza consegue ditar normas que provocam necessidades de práticas invasivas ao nosso corpo, como cirurgias no nariz e nos seios, em especial. Lembro que na minha adolescência, o padrão de beleza eram seios pequenos, e via muitas mulheres buscando reduzir as mamas. Agora, o apelo é para seios grandes. Construiu-se a geração do silicone....  Até quando permitiremos que o nosso corpo seja moldado segundo os interesses industriais?
Por outro lado, movimentos feministas e negros  têm resistido a essa ditadura e fomentado processos de consciência que desmistificam o que é socialmente determinado como belo. Como exemplo, citamos a campanha “Solte seus cabelos e prenda seu racismo”, desenvolvida pela Articulação de Mulheres Brasileiras (AMB).


Tecendo em Reverso -  Em que medida o patriarcado orientou a vida das mulheres, bem como seus propósitos de dominação em relação a estas ao longo da história?


MIRLA CISNE – O patriarcado possui uma base material e ideológica muito fortes e absolutamente atuais. Considero a divisão sexual do trabalho uma relação material concreta para entendermos de onde a ideologia patriarcal parte e é construída. Essa divisão sexual que não apenas divide o que é considerado trabalho de homens e mulheres, mas os hierarquiza. Assim, o que é considerado masculino é valorizado e feminino desvalorizado. Essa divisão hierárquica se espraia em várias relações sociais, expressando-se, também, por exemplo, na divisão sexual dos brinquedos e brincadeiras entre meninos e meninas e na divisão sexual da política, na qual, geralmente, os homens ocupam os cargos de presidência e as mulheres de secretária. Daí vão surgindo as ideologias de naturalização de características consideradas femininas e masculinas, como se fossem determinadas biologicamente quando, na verdade, são socialmente construídas. Nesse caldo cultural, advindo de relações materiais concretas permeadas por interesses de classe, muitas mulheres são intensiva e extensivamente exploradas no mundo do trabalho (incluindo o trabalho doméstico). A força de trabalho feminina ao ser desvalorizada e muitas vezes não paga (como é o caso de grande parte do trabalho doméstico e procriativo), possibilita maiores lucros ao capital. Não é à toa, portanto, que os trabalhos mais precarizados e de menor remuneração possuem um sexo predominante: são mulheres, em sua maioria, negras.


Tecendo em Reverso - Como se dão as relações de movimentos feministas e socialistas na atualidade?


MIRLA CISNE – Penso que as mulheres feministas e socialistas conseguiram conquistar um espaço nas organizações de esquerda de tal forma que o feminismo é debatido e apreendido como parte de suas estratégias. Isso está presente tanto em partidos políticos como movimentos sociais.Todavia, isso não significa dizer que as tensões históricas entre feministas e alguns segmentos da esquerda tenham sido plenamente superadas. Ainda hoje, encontramos militantes que não compreendem ou não querem compreender a importância do feminismo, provavelmente porque incorporar o feminismo exige dos homens abrirem mão de privilégios nessa sociedade patriarcal. Infelizmente, ainda recebemos notícias de violências contra mulher praticadas por “socialistas”, bem como não é incomum que companheiras de militantes de esquerda não tenham a mesma disponibilidade de tempo para o exercício da política devido ao trabalho doméstico e procriativo. Então, a luta feminista permanece como uma necessidade diária de demonstrar que o socialismo que queremos é aquele que rompe com todas as formas de propriedade privada, inclusive, sobre o corpo e a vida das mulheres, tendo o compromisso radical com a liberdade e com o fim de todas as formas de opressão e exploração.



Foto: Divulgação

sábado, 20 de dezembro de 2014

O pesquisador Gilberto César Lopes Rodrigues fala sobre o lançamento do seu livro pela editora da Unesp.

Por Juliana Gobbe



O pesquisador Gilberto César Lopes Rodrigues é licenciado em Filosofia pela Unesp – Marília SP e mestre em Filosofia também pela Unesp. Atualmente é professor no programa de educação da Universidade do oeste do Pará e doutorando do PPG em Educação da Unicamp com projeto de pesquisa sobre Educação Indígena e Pedagogia Histórico-Crítica.
Nesta entrevista, o pesquisador discorre sobre seu livro In-Form-Ação.



                                                        Foto: Arquivo pessoal do pesquisador.



Tecendo em Reverso – Como foi concebido o livro In-Form-Ação?

GILBERTO CÉSAR LOPES RODRIGUES - Bom, esse livro resulta da pesquisa de mestrado que realizei junto ao Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Estadual Paulista (UNESP) de Marília no período de 2006 a 2009. Apesar do título induzir o leitor a pensar que o livro é sobre computação ou comunicação ele é, na verdade, sobre Filosofia. Mais precisamente sobre Filosofia da Ação ou, como ficou conhecido no Brasil, Filosofia da Mente. Nele, apresento um exame da pertinência do conceito contemporâneo de informação para explicar a ação como alternativa ao paradigma causal-mecanicista.
O livro foi estruturado em quatro capítulos. No primeiro faço um percurso na história da filosofia destacando o modo pelo qual a causalidade penetra nessa área do saber e se instala como um paradigma sobre o qual as explicações, sobretudo científicas, deveriam ser fundamentadas para serem satisfatórias. Exploro mais detidamente as considerações de Aristóteles e Hume sobre causalidade. Depois examino os limites que as considerações sobre causalidade desses dois autores enfrentam quando empregadas no domínio da ação humana. Isto porque a ação, diferentemente do comportamento mecânico, engendra uma intencionalidade que a direciona. O resultado da ação de algum modo retroage sobre o agente mantendo ou modificando o conteúdo da intencionalidade (significado) para futuras ações que demandarem intencionalidade semelhante. Este movimento pressupõe uma circularidade e um conteúdo significativo no domínio da ação. As explicações causais de cunho mecanicistas tem dificuldade de considerar estes dois aspectos.
No terceiro e quarto capítulos examino a pertinência dos estudos contemporâneos sobre informação para suplantar as dificuldades que levantei sobre a causalidade no domínio da explicação da ação intencional. Aí vou deixar para os leitores a curiosidade aberta sobre o que tem informação a ver com a ação intencional e também quais os limites que ela enfrenta nesse domínio.
Outra coisa que acho interessante compartilhar é que o livro está disponível gratuitamente para download no site da editora da Unesp. Saber que seria gratuito e disponibilizado universalmente para download me incentivou a transformar a dissertação em livro.


Tecendo em Reverso - De onde vem o título In-Form-Ação?

GILBERTO CÉSAR LOPES RODRIGUES - Na verdade o título completo do livro é “In-Form-Ação: do paradigma causal ao paradigma informacional na explicação da ação”. Achei pertinente separar a palavra informação nas três partes que a compõe para sugerir ao leitor uma noção de movimento e processo que essas partes conferem ao serem separadas e relacionadas com ação. Ou seja, a ação intencional seria orientada, conformada (Form), constrangida, por dados, padrões, hábitos que re(construímos) (In) que de algum modo utilizamos para orientar nossos comportamentos tornando-os intencionais (Ação). E a esse processo informativo, poderíamos chamar de processo de construção do significado.  Não é uma tese nova nem complexa. Diria tratar-se de algo meio óbvio. Acho que o grande passo que dei, mas que ficou meio incompleto, foi trazer a ação para o centro do processo de significação. Parece redundância, mas há uma forte tradição na filosofia que em última instância recai no idealismo do tipo transcendental ao explicar o processo de significação. Entendo que recai nesse tipo de explicação as teorias sobre a natureza do significado que não colocam a ação concreta de agentes incorporados e situados em um ambiente ao qual co-evolue, que lhe é inerentemente significativo, e do qual é parte imanente, no centro das considerações sobre o processo de significação. Os matemáticos em geral são mestres em recair nesse típico desvio.


Tecendo em Reverso - Você disse que ficou meio incompleta a abordagem da ação que utilizou. O que faltou?

GILBERTO CÉSAR LOPES RODRIGUES - Bem, na época do mestrado, muito pela boa influência do grupo de estudo que participava, utilizei o filósofo estadunidense Charles Sanders Peirce para mostrar como a ação era central no processo de significação, assim como faz esse filósofo. No entanto o que acho que faltou foi incorporar o Materialismo Histórico Dialético em minhas análises. Mas isso não deu pra fazer porque não pertencia ao universo de minhas preocupações à época, também não daria tempo considerando o insatisfatório período de mestrado permitido pela CAPES para pesquisas mais profundas e o marxismo não era tema do grupo de pesquisa apesar de notar em minha orientadora certa admiração por Marx.


Tecendo em Reverso - Qual a relação entre o marxismo e seus estudos sobre informação?

GILBERTO CÉSAR LOPES RODRIGUES - Bem, vou falar sobre isso de modo geral e considerando o marxismo como sinônimo de materialismo histórico dialético e o que prevejo de relação entre eles, lembrando que não explorei essa relação no livro. Veja bem, entendo a ação como um processo que se estende no tempo abarcando elementos filogenéticos e ontogenéticos que se reforçam ou modificam no embate com o real concreto na medida de sua pertinência como orientadores dos movimentos dos agentes no ambiente.  Esses elementos em relação com os agentes possibilitam os significados, tanto os já produzidos historicamente pela humanidade (filogenéticos) como sua reconstrução (ou criação de novos) no indivíduo (ontogenético). O centro desse processo de (re)construção dos significados é a práxis. Outro elemento importante que o marxismo possui é considerar humano e natureza como pertencentes a uma mesma totalidade inseparável. Não tem nenhuma abertura para atribuir transcendentalidade ao significado, nem mesmo as representações que construímos mentalmente sobre o real. Não significa dizer que não há uma dimensão mental no marxismo. Há. Mas ela pertence ao domínio da natureza. Esse domínio se constrói pelo trabalho (no sentido marxista), pelo movimento de transformar o concreto real em concreto pensado e possibilitar a adaptação da natureza às necessidades humanas. Na medida em que adaptamos a realidade às nossas necessidades, humanizamo-nos. Esta dinâmica é o processo de significação. Sem essa âncora no real concreto abre-se espaço para um idealismo alienante que pouco contribui para a constituição de ações transformadoras da realidade concreta no sentido da emancipação humana. Emancipação no sentido de superação da sociedade alienante que vivemos sob a batuta do modo de produção capitalista e em direção a uma realidade plena de sentidos.


Tecendo em Reverso – Nota-se pelo seu currículo que ultimamente você tem se dedicado as pesquisas na área da educação, particularmente à educação escolar indígena. Qual a relação desse novo tema de pesquisa com o tema que deu origem ao livro?

GILBERTO CÉSAR LOPES RODRIGUES - Pois é. Aqui novamente o marxismo e a centralidade da práxis são fundamentais. Marx, escrevendo com Engels as teses sobre Feuerbach, em certa altura esbraveja que os filósofos até aquele momento se dedicaram a interpretar o mundo, e que isso, para ele, passara a ser uma questão escolástica. Depois dessa constatação ele adverte que é necessário transformar o mundo, que já estamos cheios de interpretação. Esse pensamento de certa forma me acordou e me fez considerar que até hoje parece ser assim. Senti-me, na filosofia, como um pesquisador que estava caminhando para a escolástica. Por outro lado, quando entrei para a universidade como docente, fui para a área de educação, em um programa de Pedagogia no interior da Amazônia. Recebi dezenas de alunos indígenas e comecei a trabalhar mais detidamente com eles questões da filosofia da educação, sobretudo se havia uma filosofia da educação indígena. Pesquisei varias realidades indígenas e notei que antes de ter ou não filosofia da educação indígena, eles estavam lutando por implantação de educação escolar. No entanto, descobri que a educação escolar em implementação é de baixíssima qualidade, altamente precarizada e pouco se coaduna aos interesses dos indígenas por escola. Naturalmente me questionei: qual o papel da educação escolar estatal precarizada no interior das sociedades indígenas? Bem, tendo em vista que a escola é um instrumento informativo, na medida em que formata a ação dos indivíduos para agir de certo modo na sociedade, não foi difícil responder que a educação escolar operava como (re)produtora da cultura dominante naquelas sociedades (processo informativo). No entanto, constatei que, contraditoriamente, mesmo tendo uma escola altamente precarizada e reprodutora dos valores da cultura nacional hegemônica, os indígenas lutam por escola e constatei que elas trazem benefício a eles. Tendo esse quadro no horizonte, a práxis marxista como elemento de transformação de um lado, e estar em um programa de educação, de outro, decidi por pesquisar alguma alternativa pedagógica para sugerir às escolas indígenas da região que trabalho. Por isso estou me doutorando no grupo de pesquisa que tem na Pedagogia Histórico-crítica um de seus eixos. A ligação com o tema do mestrado é entender que nossas ações são aprendidas e que elas podem ser orientadas externamente em uma relação de alienação ou podem ser realizadas de modo consciente, transformador e com emancipação. Para construir tanto um tipo de ação como o outro, a escola tem papel importante como instrumento in-form-ativo(ação). Ela molda a ação no mundo através de um processo informativo. Mas há no interior desse processo, imanente a ele, as tensões, as disputas, a resistência. Esse lado pode ser explorado através de uma teoria pedagógica que busque a emancipação humana em direção a uma sociedade plena de sentidos.


Tecendo em Reverso - Voltando ao conteúdo do livro, você o termina afirmando que os estudos contemporâneos sobre informação podem ter produzido um efeito importante na filosofia. Fale um pouco sobre isso.

GILBERTO CÉSAR LOPES RODRIGUES - Essa concepção de que a introdução de estudos em informação na filosofia significou uma reviravolta importante, da qual eu concordo, foi sistematizada por Frederick Adam. Para entender essa importância é preciso ir além do significado corriqueiro de informação, sobretudo a versão da teoria matemática da comunicação, que a considera como dados, sinais, bits, inputs e outputs desprovidos de significado. Estes seriam construídos internamente pelos sistemas vivos (ou artificiais) capazes de significá-los. Não concordo com este processo e aponto os motivos na última seção do terceiro capítulo do livro. Entendo que informação é um processo entre agente (não necessariamente humano) e ambiente (contexto) que não se reduz nem a um nem a outro, mas que não existe sem um desses lados. Deste processo resultam padrões, regularidades, hábitos que se armazenam no ambiente ou no agente que orientarão ações. Por exemplo: ao caminhar por um lugar desconhecido os rastros que se formam na relação entre o agente e o ambiente podem orientar o caminho de volta. O processo todo é informativo. Assim, informação não é um substantivo fixo. É um processo que ocorre o tempo todo com todos os agentes da natureza. Essa abordagem simplifica problemas clássicos da filosofia como a relação mente-corpo, a natureza da cognição, o processo de significação, a natureza das representações mentais, etc. Por isso a introdução dos estudos contemporâneos sobre informação pode representar uma virada informacional de grande monta na filosofia.






Confiram o livro neste link:






terça-feira, 14 de outubro de 2014

DERMEVAL SAVIANI

O AUTOR:


O escritor russo Máximo Górki afirmou certa vez que a única coisa que
transcende a existência do ser humano é a sua obra. Esta frase valida a
trajetória do pedagogo e filósofo brasileiro: Dermeval Saviani.

Formado em filosofia na PUC-SP no ano de 1966, doutorou-se em filosofia
na mesma Instituição no ano de 1971. É livre-docente em história da educação na
Unicamp desde o ano de 1986.
Entre 1994 e 1995 realizou “estágio sênior” na Itália.

Foi condecorado com a medalha do mérito educacional do Ministério da
Educação e, também recebeu da Unicamp o prêmio Zeferino Vaz de Produção
Científica.

Atualmente é professor emérito da Unicamp e coordenador geral do Grupo
Nacional de Estudos e Pesquisas “História, Sociedade e Educação no Brasil”
(HISTEDBR).
Em 2008 foi agraciado com o prêmio Jabuti de Literatura na categoria Educação, Psicologia e Psicanálise com História das Idéias Pedagógicas no Brasil.
Em 2010 recebeu o título de Pesquisador Emérito do CNPq.
Em 2014 concorre novamente ao prêmio Jabuti com a obra: Aberturas para a História da Educação.

O LIVRO:





Foto: Divulgação


A primeira edição do livro Escola e Democracia foi lançada no Brasil em
setembro de 1983 às portas do movimento Diretas Já.

Em 31 anos efetivaram-se 42ª edições. As interpretações diversas por
parte de leituras apressadas levantaram polêmicas em torno da obra. A maior
delas: o livro seria uma espécie de “Manifesto contra a Escola Nova”. No
prefácio da 35ª edição, o autor reitera: “...este não é um livro contra o
movimento da Escola Nova” e, mais adiante pondera: “Espero que, por esse
caminho, se possa deslocar um pouco o foco das atenções da polêmica com a
Escola Nova para a construção da pedagogia histórico-crítica, em cujo ponto de
partida se encontra a presente obra”.

O LIVRO POR SEU AUTOR:










Juliana Gobbe

terça-feira, 30 de setembro de 2014

José Luís Sanfelice

Em continuidade às entrevistas sobre a ditadura no Brasil, o nosso blogue traz ao público a conversa com o Professor da Unicamp:José Luís Sanfelice, autor de: Movimento Estudantil – A UNE na resistência ao golpe de 1964.






Abraços,
Juliana Gobbe

terça-feira, 23 de setembro de 2014

João Gomes de Sá

O alagoano João Gomes de Sá aproximou-se das manifestações da cultura popular ainda quando trabalhava no Museu de Antropologia e Folclore Dr. Théo Brandão, localizado na Avenida da Paz em Maceió. Além de sua incursão no cordel, o autor é dramaturgo e xilógrafo.  São de sua autoria : O Auto do Boi Encantado, Canto Guerreiro e os cordéis: A briga de Zé Valente com a Leide Catapora e, mais recentemente sua adaptação em cordel da obra de Kafka:  A metamorfose.




                                                                   Foto: Divulgação


Tecendo em Reverso - Consta na sua biografia, o trabalho no Museu de Antropologia e Folclore Dr. Théo Brandão. De que forma as atividades ali exercidas despertaram o apreço pela cultura popular?

JOÃO GOMES DE SÁ – O interesse era natural – “interesse interesseiro” – Os frequentadores geralmente eram estudantes de ensino médio e universidades em busca de informações e esclarecimentos sobre as manifestações de Cultura espontânea – o nosso Folclore. Para atender com fundamentos teóricos e práticos, a direção do Museu organizava uma programação temática, ora folguedos, ora danças e palestras privilegiando determinado tema – além de curso sobre a cultura alagoana. A minha contribuição era atender e colaborar nas pesquisas e trabalhos dos alunos e principalmente aos estudantes universitários em trabalhos de conclusão de curso ou tese de pós-graduação, mestrado ou doutorado; informava sobre o tão rico acervo do museu, mas, porém; o que mais despertava interesse, contentamento e vontade de pesquisar e estudar a cultura popular – eram os encontros com os folguedos e danças:  o Guerreiro, A Chegança, As Baianas, O Reisado, entre outros, pelo brilho da indumentária, da musicalidade, do ritmo, do canto, da coreografia dos bailados, dos entremeios e da encenação de Autos.


Tecendo em Reverso -Atualmente há um considerável trabalho de inserção do cordel no ensino de Literatura. Que importância terá a leitura dessas obras nas diferentes séries do ensino fundamental e médio?

JOÃO GOMES DE SÁ - Sempre teve conhecimentos de que alguns livros didáticos oportunizavam a literatura de cordel, mas de forma muita acanhada e algumas vezes com alguns equívocos – isso outrora. Atualmente estudiosos, pesquisadores, autores, poetas cordelistas e professores, compreenderam a importância dessa manifestação rimada e metrificada como ferramenta para estimular os nossos educandos ao estudo, a leitura e construção da literatura de cordel – E aqui, agradecemos as editoras que investiram, acreditaram e difundiram – agora em formato de livro ilustrado, papel de qualidade – exigência do mercado editorial. Com certeza, se ainda estivesse construindo meus cordéis em formato de folheto, em papel jornal ou em sulfite e sem ilustração, não estaria realizando essa entrevista. O cordel continua com a mesma técnica, o mesmo rigor na rima, a mesma forma, de cem anos atrás – mudou sua apresentação, promoção e divulgação nos veículos coletivos de comunicação de massa. Pois bem; para os educandos – às vezes – não ávidos pela leitura, adentram o universo cordeliano de forma prazerosa, curiosos pela rima e métrica; e daí, tudo isso se transforma em música – é o cordel! Tem, agora; uma literatura sem rodeio, objetiva, precisa, atual e atuante, sem esquecer o encantamento, a bravura, a magia, a valentia, a paixão, o ensinamento, o amor dos protagonistas.


                                                                              Foto: Divulgação

Tecendo em Reverso -A realização oral através de gêneros, como o repente e o cordel remetem a um resgate de múltiplas possibilidades de desdobramentos artísticos. A seu ver há hoje um movimento voltado para a encenação do que é produzido pela cultura popular, principalmente em comunidades com pouco acesso à cultura?

JOÃO GOMES DE SÁ- Na verdade, os espaços para espontaneidade e a informalidade sempre estiveram presentes em todos os segmentos sociais, porém mais acentuado, nas comunidades sem condições favoráveis de acesso às informações, e nesse contexto, a cultura popular – se destaca, as tradições populares se renovam, todavia,atualmente, todos têm acesso à informação, ao conhecimento, aos livros, à pesquisa e sendo assim;sou otimista – o mundo imagético, o mundo cibernético, as redes sociais fascinam, seduzem e despertam interesse no público em geral para buscar conhecimento na cultura popular. Veja quantos filmes, novelas, musicais, teatros “bebem’ na fonte da cultura popular! E o cordel, nem se fala!


Tecendo em Reverso – Neste ano você presenteou o público brasileiro com a publicação de Metamorfose de Kafka em cordel. Sua obra apresenta uma variação no que diz respeito à métrica típica do cordel, e também um forte apelo às questões sociais recriando nas estrofes o “emparedamento” dos homens em meio às exigências de um mundo insensível e cada vez mais desumano”. A temática da asfixia social é uma constante na obra do autor da Metamorfose. Qual é o legado que Kafka nos deixou?

JOÃO GOMES DE SÁ - A reflexão!A fuga ao consumismo! É necessário humanizar a vida!
Compartilhar conhecimento é fundamental! Combater a desigualdade social!
Não são “bordões”, “pregões”, com Kafka aprendi a olhar a vida com meus próprios olhos.




                                                              Foto: Divulgação
  

Tecendo em Reverso – Em suas viagens pelo Brasil, você ministra oficinas literárias. Como nasceu o projeto “Salão do Cordel”?

JOÃO GOMES DE SÁ – Sempre tive a vontade de organizar e promover eventos, encontros, tendo como tema central a Literatura de cordel. Quando, em Guarulhos/SP (2006), trabalhei na Secretaria de Cultura – Biblioteca Monteiro Lobato – nasceu aí a oportunidade. Realizamos o I e II Salão do Cordel – com uma programação Literomusical: feira de cordel, exposição de xilogravura, repentistas, cordelistas, poetas cantadores, músicos, palestras, oficinas, contação de histórias e danças.
Com o êxito, apresentei a proposta para a Diretoria de Cultura de Lençóis Paulista – e já realizamos quatro edições, realizamos no Memorial da América Latina, em Barueri/SP e em Guaranésia/MG. Recentemente em Guaxupé/MG.


Dica de leitura:



                                                                              Foto: Divulgação

 Por Juliana Gobbe

terça-feira, 2 de setembro de 2014

MAURO IASI

Mauro Iasi é candidato a presidente da República pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB).  Nasceu em São Paulo-SP  em 1960.  Graduou-se em HISTÓRIA  pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.   Mestre e doutor  em SOCIOLOGIA  pela  USP, exerce o cargo de  professor adjunto da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.    Exerceu o cargo  de   presidente do Sindicato dos Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de  2011 a 2013.  Publicou os  livros: O Dilema de Hamlet – O ser e o não ser da consciência (Viramundo) e o recente   As Ruas – Poemas e reflexões pedestres (ICP), dentre outros. Integra o  Comitê Central do PCB.
 Tecendo em Reverso entrevistou o político, professor e literato   Mauro Iasi,   em busca de respostas para as inquietantes perguntas e  questões arguidas pelos leitores no curso  deste blog, dentre estudantes, artistas, educadores e  escritores.  


                                                                 Foto: Divulgação



Tecendo em Reverso – O voto distrital representa um avanço com relação à democracia representativa?


MAURO IASI – Não. Para nós, do PCB, a proposta do voto distrital representa um retrocesso político. Vez por outra, os setores conservadores tiram do colete a proposta de introdução do voto distrital nas eleições proporcionais. Isto significa que cada eleitor só pode votar em candidatos inscritos para disputar a eleição num distrito, ou seja, apenas numa determinada jurisdição. Não poderiam votar num candidato domiciliado na capital ou em outra região. Hoje já existe uma grande despolitização nas eleições proporcionais, com uma tendência ao voto que privilegia os candidatos locais, os quais prometem obras, serviços e favores aos seus eleitores, deixando de lado as grandes questões nacionais e as lutas em prol de transformações sociais e políticas efetivas, na contracorrente da ordem burguesa e do domínio dos interesses capitalistas sobre a vida da população. O advento desta mudança reduziria ainda mais a possibilidade do voto politizado, de opinião, tornando minoritário o voto conscientizado, razão principal dos partidos revolucionários. Uma vez eleito, o parlamentar distrital tende a se comportar no parlamento como uma espécie de despachante da região que o elegeu e pela qual pretende se reeleger. Com a implantação do voto distrital, o debate político e ideológico dará lugar ao bairrismo e às disputas regionais.


Tecendo em Reverso – Como transformar a proposta de governo do PCB em futuro?


MAURO IASI – Queremos transformar o programa político do PCB em presente, pois é urgente reverter o quadro atual marcado pelos graves problemas com que se defrontam os trabalhadores e o conjunto da população brasileira. Estes não serão resolvidos com a manutenção e desenvolvimento do mercado e da economia capitalista. Não é mais possível pensarmos que se enfrentarão as profundas desigualdades existentes – a falta de serviços essenciais à vida humana (alimentação, moradia, transporte, educação, saúde, lazer, cultura, etc.), a barbárie em que se transformou a civilização do capital e da mercadoria, com o genocídio dos pobres, dos negros, das populações indígenas – aplicando políticas que visem ampliar o acesso aos bens materiais com o simples crescimento econômico capitalista, o que só faz aumentar a destruição da natureza e acaba concentrando ainda mais a riqueza na forma de lucros acumulados privadamente. Nossa luta é para que os trabalhadores e a imensa maioria da população brasileira participem conosco de um grande movimento em defesa do Poder Popular, dando continuidade às grandes manifestações que explodiram no Brasil em junho de 2013, revelando a enorme contrariedade do povo com as condições de vida a que está submetido, sob imposição do capitalismo. A saída para o movimento de rebeldia das massas é fazer com que esta luta assuma um caráter político, isto é, a forma de um programa e de uma ação que se apresente como uma real alternativa de poder ao domínio atual das classes proprietárias.


Tecendo em Reverso – A atual juventude brasileira pode se espelhar na práxis da juventude comunista do século XX?


MAURO IASI – Acredito que sim, no sentido de que a juventude revolucionária – e não só aquela que integrava os partidos comunistas no mundo – participou ativamente de movimentos responsáveis por grandes transformações sociais e políticas, seja na tentativa de afirmação de propostas socialistas, seja na resistência às determinações do capitalismo e às intervenções do imperialismo. A juventude esteve presente nas manifestações de massas, nas revoltas anarquistas e revoluções socialistas do século passado, participando ativamente das inúmeras lutas contrárias às injustiças e desigualdades impostas pela burguesia. Foi assim nas greves operárias do início do século XX, nas revoluções de 1917 na Rússia, em 1949 na China, em 1959 em Cuba. Resistiu o que pôde contra os regimes fascistas, apoiou os movimentos de libertação nacional na Ásia e na África nos anos 1950, esteve junto às lutas por direitos civis nos EUA, montou barricadas em Paris em 1968, foi às ruas em todas as grandes cidades do mundo para protestar contra o ataque imperialista estadunidense no Vietnam. No Brasil e em toda a América Latina, resistiu bravamente às ditaduras financiadas pelo grande capital, imolando suas vidas em nome da liberdade e do socialismo. A União da Juventude Comunista (UJC), ligada ao PCB, dá sequência hoje à luta revolucionária e internacionalista dos jovens. Contamos com ela e com toda a juventude brasileira que clama por mudanças radicais na sociedade contemporânea para o processo de construção do Poder Popular e do socialismo em nosso país.


Tecendo em Reverso - O exercício do cargo de presidente da república do Brasil pressupõe concessões às oligarquias. O PCB pretende retomar a política de aliança com a burguesia nacional?


MAURO IASI – Não concordo com a premissa colocada. A concessão às oligarquias é feita pelos partidos burgueses e por aqueles que acabaram se rendendo à forma capitalista de governo. A maneira que a burguesia encontrou historicamente foi o desenvolvimento de uma institucionalidade política na qual muitos participam – através das eleições – para que poucos governem, garantindo a dominação exercida pela minoria de proprietários. Para reverter isso não basta uma reforma política ou a engenhosidade de sistemas de representação, organização partidária e sistemas eleitorais pitorescos. Só é possível contrapor o poder da burguesia com o poder popular. A única maneira de contrapor o poder daqueles que querem manter as formas de propriedade atuais e as relações sociais de produção a elas associadas é constituir um poder capaz de enfrentá-los com a força da mobilização popular para derrotá-los, neutralizando ou destruindo seus recursos de poder. Não há a mínima chance de o PCB promover alianças com a burguesia. O PCB defende que somente a Revolução Socialista, entendida como um forte e poderoso processo de lutas populares que desemboque na construção de uma sociedade alternativa ao capitalismo e à ordem burguesa, será capaz de realmente resolver os problemas vividos pelos trabalhadores e setores populares. Por isso o PCB apresenta uma alternativa anticapitalista e socialista e lutará para que se constitua na sociedade a força política necessária à sua implementação.


Tecendo em Reverso – No seu livro: O dilema de Hamlet lemos: “...o dilema de Hamlet é o dilema da consciência militante. Vê o mundo se desmoronar e vive profundamente seu sofrimento. Quer realizar a profecia de justiça, mas se sente fraca como indivíduo diante das forças objetivas de um mundo que se apresenta de forma invencível”. Como se dá o enfrentamento da problemática da consciência no debate da contemporaneidade econômica e política?


MAURO IASI – Os capitalistas, através de todos os meios possíveis, desde as formas de exploração direta dos trabalhadores nos ambientes dedicados à produção, à difusão da ideologia dominante nos diversos espaços sociais existentes, como as escolas, igrejas, etc, passando pela manipulação aberta com o uso abusivo dos meios de comunicação, tentam neutralizar ou paralisar todo processo coletivo de tomada de consciência das classes dominadas. A tomada de consciência é a experiência que cada trabalhador individualmente e todos os trabalhadores juntos – como classe – vão construindo a partir de suas próprias lutas e suas próprias vivências. A consciência de classe se constrói todos os dias. Ninguém nasce com ela. A consciência, como o senso comum, é um campo de disputa. A militância revolucionária atua para que os trabalhadores e a população explorada pelo capital compreendam que a raiz dos seus males está no sistema capitalista, que seu inimigo principal não é o colega de trabalho, o vizinho, o motorista do ônibus, o funcionário do comércio ou o servidor da prefeitura, mas os donos dos meios que produzem a sua exploração. A criação de uma consciência socialista pressupõe uma luta, desde já, para a construção de organizações políticas autônomas, independentes e próprias da classe trabalhadora, que tomem a iniciativa nos movimentos populares e que, nos embates contra a ordem burguesa, construam uma poderosa força política unitária contraposta ao bloco dominante, formulando um programa político de transformações necessárias de caráter anticapitalista. Isto é o que chamamos de Poder Popular. E temos certeza de que este processo está em curso no Brasil. Por isso acreditamos que o socialismo não seja uma quimera, mas uma possibilidade real e, acima de tudo, uma necessidade no mundo de hoje, marcado pela barbárie capitalista.