terça-feira, 23 de junho de 2015

Lidiane Soares Rodrigues


Por Juliana Gobbe


Lidiane Soares Rodrigues é doutora em História Social pela Universidade de São Paulo ( USP) e pós-doutora com estágio no Centro Europeu de Sociologia e Ciência Política da Sorbonne e da Escola de Ciência Sociais ( CESSP- EHESS- Paris). Atualmente é professora do Departamento de Ciências Sociais na UFSCar. Como pesquisadora atua na área de História das Ciências Sociais, História do Marxismo e Sociologia da Ciência.
Em 2011 defendeu sua tese na USP com o seguinte tema: 'A produção social do Marxismo Universitário em São Paulo: Mestres, Discípulos e "Um Seminário" ( 1958-1978).
Em entrevista ao nosso blogue a pesquisadora discorreu um pouco sobre este trabalho.



                                                                      Arquivo pessoal da pesquisadora.


Tecendo em Reverso – Como se deu a escolha do tema da sua tese?

LIDIANE RODRIGUES – Esse tema não existia quando comecei minha pesquisa. Aos poucos eu propus uma mudança nos termos. Não me interessava o estudo de “intelectuais de esquerda”, “intelectuais marxistas”, engajamento – termos recorrentes com os quais a discussão a respeito do marxismo é encaminhada. Pareceu-me, depois de ler muito, que era necessário definir melhor o que cada um desses termos quer dizer. Acabei reformulando o projeto e me propus a estudar o processo de importação da obra de Karl Marx, do campo político para o científico, no espaço universitário brasileiro. Como este escopo era irrealizável, redimensionei e me ocupei de São Paulo. Para este objetivo, o “Seminário Marx” revelou-se estratégico.  Sobretudo pois a bibliografia tinha hábito de tratar a obra dos membros desse seminário como se estas pessoas nunca tivessem se encontrado para ler juntas. Eu diagnosticava que era necessário, para dar inteligibilidade à produção desses seminaristas, figuras que constituíram algumas disciplinas acadêmicas, estudar também o seminário como grupo.



Tecendo em Reverso- De acordo com sua pesquisa qual foi a diretriz de leitura de Marx adotada pelos jovens intelectuais da USP de 1958?

LIDIANE RODRIGUES – Todos leram Karl Marx sob a diretriz de um filósofo, o prof. José Arthur Giannotti.  Um dos efeitos de sua posição de “capitão do time” é a presença de um Marx epistemólogo pontilhando os trabalhos dos seminaristas. Se o método de leitura e as discussões da Filosofia invadiram outras áreas (História, Sociologia, Crítica Literária), em contrapartida, também ela era impactada pela agenda de investigação dessas disciplinas. Nelas, a peculiaridade do desenvolvimento capitalista na periferia do sistema mundial, particularmente no Brasil, era o eixo temático em torno do qual todos orbitavam. É interessante notar que o filósofo se ocupou desse assunto e que os seus colegas elaboraram aprofundadas reflexões de ordem epistemológicas voltadas para suas áreas específicas.


Tecendo em Reverso-  Em que medida dá-se a atuação de Florestan Fernandes à época e quais são as  convergências e divergências entre os intelectuais?

LIDIANE RODRIGUES – Os seminaristas não foram os primeiros leitores universitários de Marx. Na verdade, Florestan Fernandes, entre outros, já o liam. No entanto, há duas diferenças nestas leituras. A primeira diferença é a seguinte. Os leitores anteriores buscavam  em Marx a contribuição deste autor para sua disciplina científica. No caso de Florestan, tratava-se de estabelecer a “sociologia” de Marx. Como disse na questão acima, o seminário trilhou outros caminhos. Nada mais distante do que o historiador ler o “Marx historiador” ou o crítico literário o “Marx literário” – esta segmentação faz parte da leitura dos seminaristas, mas não a define.  A segunda diferença – que penso ser fundamental – consiste em que os leitores anteriores liam Marx isoladamente e eles leram em grupo. Isso tem pelo menos duas conseqüências, uma para os membros do grupo e outra para os que não fizeram parte dele (fossem eles contemporâneos ou sucessores).  Por um lado, ler em um grupo composto por membros de diversas disciplinas, implica uma capacidade potencial de difusão da leitura, cada um importando para sua área um conjunto de textos, uma certa maneira de lê-los, etc. Ignorar isso implica estar fora de uma certa discussão que definiu durante muito tempo chaves de entrada na obra de Marx. Ler em grupo, por outro lado, de modo contínuo e sistemático, foi uma atividade que operou homogeneizando léxico, práticas, grade de valores e modalidades de excelência intelectual. Grosso modo, a atividade coletiva de leitura inculcou um espírito de corpo entre eles. Há mais a dizer a respeito de Florestan e este grupo, mas tornaria esta entrevista uma aula. O que foi dito é o bastante para assinalar a divisa de propósito na leitura de Marx, do grupo e do sociólogo.



Tecendo em Reverso - Na tese você utiliza os conceitos “Marxismo dominante” e “Marxismo dominado”. Fale-nos um pouco sobre eles.

LIDIANE RODRIGUES – Quando percebi que estava me deparando com a estruturação do espaço de leitores universitários de Marx ainda em vigência no Brasil, tentei classificar os tipos de marxismo praticado pelo grupo e nas disciplinas dos membros do grupo.  Essas duas categorias denominam dois tipos de “marxismo” encontrados ainda hoje entre sociólogos: o dominante, senão menos politizado, refratando a política pela fidelidade à teoria, e, por isso, valorizando enormemente a discussão de autores com legitimidade teórica no marxismo. Em geral, é praticado pelos agentes mais capitalizados culturalmente (o que se mensura por origem social dos alunos/leitores/marxistas, escolas que estudou, etc.). Já o “marxismo dominado”, refrata a política não na teoria, mas no tema, sendo, por isso, mais quente e politizado, inclinando-se às pesquisas empíricas. Em geral é praticado pelos agentes menos capitalizados culturalmente. Esses dois pólos concentram propriedades sociais simetricamente opostas ainda hoje. Na tese, tinham origem na trajetória social e no percurso intelectual de Fernando Henrique Cardoso e Octavio Ianni. Em tempo: afirmo que linhas estruturantes da experiência que estudei têm vigência atual, pois no momento estou trabalhando com uma população de 900 marxistas universitários e tenho constatado isso.



Tecendo em Reverso- Em 1958 o Brasil estava sob a égide do governo de Juscelino Kubitschek num franco processo de internacionalização da economia. Na cultura, cinema novo e bossa nova emergiam. Até que ponto este contexto fomentou os estudos de O Capital?


LIDIANE RODRIGUES – Decerto esse clima fomentou estudos de Marx. Mas não os estudos de Marx realizados pelo grupo que investiguei. Esses jovens acadêmicos em início de carreira empenhavam-se precisamente em se desvencilhar de leituras excessivamente panfletárias e políticas. Não podiam mesmo fazer outra coisa e qualquer suspeita de leitura fácil ou panfletária destruiria suas vidas profissionais. O “impacto” desse clima consistia em rebaixar os partes no Rio de Janeiro, na avaliação deles, submissos demais aos mandos e desmandos do Estado. Eles estavam antes interessados em estabelecer uma barreira com o campo político, tão mais forte e exigente por tratarem do autor que por excelência faz a mediação desses campos. Tentei, na pesquisa, colocar em dúvida esses nexos meio apressados das explicações ad hoc que ligam o “clima” (cujos critérios de elaboração jamais são explicitados) aos projetos científicos e culturais.  Tomando outro exemplo: repete-se ad nauseum que a crise das grandes narrativas e a atenção aos objetos da micro-história resultam do fim da URSS. Todos já ouviram explicações desse tipo. De tão repetidas, ninguém se dá conta do insólito! Só entendemos a multiplicação de temas legítimos da “micro-história” se fizermos uma boa história social das disciplinas, da luta dos pesquisadores por fazerem valer seus temas, das linhas de financiamento, etc.  No entanto, é claro, a explicação ad hoc pelo “clima”, “contexto macro político” é mais palatável. Embora mais popular, eu a considero mais  criativa do que séria: afinal inventa problemas curiosos – teria o marxismo chegado à presidência? Nada disso. Entender como alguns desses seminaristas se tornaram grandes políticos implicaria investigar os liames sociais e nada intelectuais entre os campos políticos e acadêmicos no Brasil, as veleidades políticas dos intelectuais quando a oportunidade de ir para a política os alcança, a reestruturação das elites políticas, etc.





quinta-feira, 7 de maio de 2015

Sobre os 90 anos da Biblioteca Mário de Andrade.

Por Juliana Gobbe


Em 1960 a então Biblioteca Municipal de São Paulo passa a se chamar Mário de Andrade em homenagem ao autor de Macunaíma. Nos últimos anos o espaço tem proporcionado aos paulistanos o acesso ao conhecimento através de um amplo acervo. O local conta também com iniciativas culturais, como saraus, teatro e shows.
Em 2015 a Biblioteca comemora 90 anos de intensa atividade intelectual. Em entrevista ao blogue sobre as atividades do espaço contamos com a Supervisora da Ação Cultural: Tarcila Lucena com participação de Joana de Andrade e Emanuel Guedes.




                                                                          Foto: Divulgação



Tecendo em Reverso – Em 2015 a Biblioteca Mário de Andrade completa 90 anos. Quais os projetos culturais que o público leitor poderá apreciar durante as comemorações?


TARCILA LUCENA- Além da programação regular e já bem consolidada da Biblioteca, que inclui teatro, música, seminários e exposição de arte, teremos programações comemorativas espalhadas durante o ano e um seminário internacional sobre Mário de Andrade de 12 a 14 de novembro.


Tecendo em Reverso – Qual é o perfil do leitor que passa pela Mário de Andrade?


TARCILA LUCENA – Diverso, temos universitários, pesquisadores, curiosos, aposentados, jovens de ensino médio e vestibulandos.




                                                                      Foto: Divulgação

Tecendo em Reverso - Sabe-se que a Mário de Andrade possui um especial acervo de obras raras. Como anda o processo de catalogação online e como os leitores podem acessar essas obras?


TARCILA LUCENA – As obras estão em processo de inventário, por isso os agendamentos para pesquisa estão suspensos. Para saber como fazer o agendamento quando este for possível, basta acessar nosso site: http://www.prefeitura.sp.gov.br/cidade/secretarias/cultura/bma/


Tecendo em Reverso – Dentro da biblioteca há uma Mapoteca. Quais são os destaques deste espaço?


JOANA DARC MORENO DE ANDRADE (RESPONSÁVEL PELAS SEÇÕES DE OBRAS RARAS E ESPECIAIS E MAPOTECA) – A Biblioteca Mário de Andrade (BMA), criada em 1925, é uma das mais importantes bibliotecas do país. Dentre outras coleções, possui uma Mapoteca, criada em 1929 e formada por 6.500 mapas (políticos, físicos, geológicos, demográficos, topográficos, reproduções de mapas raros, tanto mundiais quanto locais), cartas marinhas, plantas urbanas, documentos cartográficos e outros. Desse acervo, destacam-se alguns exemplares de valor histórico, como o original de um mapa da Capital da Província de São Paulo, datado de 1877, além de plantas urbanas da Cidade de São Paulo desde 1810 e uma Coleção de Mapas do Brasil do século XVIII.
Exemplos de coleções existentes na Mapoteca:
Cartas e publicações da Marinha do Brasil;
Cartas topográficas do Estado de São Paulo, (Instituto Geographico e Geológico do Estado de São Paulo, na escala 1:100.000 e IBGE/IGG, na escala 1:50.000);
Cartas topográficas do Município de São Paulo (Coleção SARA Brasil, na escala 1:5.000, com maior detalhamento na área central do município, e Coleção VASP/Cruzeiro do Sul, na escala 1:2.000) e da Região Metropolitana de São Paulo (GEGRAN/EMPLASA, na escala 1:10.000);
Mapas de Ferrovias Paulistas e outras do Brasil;
Carta Internacional do mundo; ou, Carte internationale du monde; Quadro de União das folhas brasileiras; ou, Tableau d’assemblage dês feuilles brésiliennes (Clube de Engenharia do Rio de janeiro). 1922. 50 mapas;  col. esc. 1.1000.000.

                                                             Foto: Divulgação


Tecendo em Reverso- De que maneira dá-se o acesso aos periódicos da hemeroteca e como se constitui este acervo?


EMANUEL GUEDES (RESPONSÁVEL PELA HEMEROTECA) – O acervo da Hemeroteca da Mário de Andrade é composto por periódicos impressos e em microfilme publicados desde o séc. XIX, abrangendo alguns milhares de títulos nacionais e estrangeiros. É composto por publicações que vão desde pequenos títulos de grupos independentes a produções acadêmicas, institucionais e imprensa comercial, além de documentação de órgãos públicos e jornais de comunidades estrangeiras emigradas ao Brasil entre os séculos XIX e XX.
Em nosso acervo destacam-se entre os jornais os principais paulistas como Diário Popular, Diário de S. Paulo (Diários Associados), O Estado de S. Paulo, Folha da Manhã/Folha de S. Paulo, A Gazeta Esportiva e Correio Paulistano, e entre as revistas, coleções importantes como O Cruzeiro, Manchete, Realidade, Illustração Brasileira, Grande Hotel, Rio e Esfera em âmbito nacional e outras como Revue des Deux Mondes, La Revue de France, Mercure, The Sphere, The Graphic em âmbito internacional.
Estão disponíveis também jornais brasileiros de menor porte como O Pasquim, O Movimento, Opinião, Versus e Para Todos.
Para ter acesso ao acervo é necessário solicitar agendamento via email, telefone ou presencialmente, informando os títulos e datas desejados ou consultar nossa equipe para o caso de pesquisa temática, para o qual o pesquisador ainda não possui títulos específicos.
A Hemeroteca oferece também espaço de leitura às revistas e jornais diários sem agendamento  para publicações com até 3 meses.
Horário de funcionamento:
Área de leitura  de periódicos correntes: 08h30 as 20h30 (sem agendamento)
Atendimento por agendamento: 09h00 as 17h00 (prazo de até 05 dias úteis).
hemerotecabma@prefeitura.sp.gov.br
3775-1400

Endereço: Rua Dr. Bráulio Gomes, 125/139

                                                     Tarcila Lucena - Foto: Arquivo pessoal da supervisora


domingo, 26 de abril de 2015

Manual de Autodefesa Intelectual


MANUAL DE AUTODEFESA INTELECTUAL investiga temas tão diversos quanto a numerologia, o horóscopo, o pensamento circular, a mídia empresarial, o surgimento da publicidade moderna, as religiões e as teorias da conspiração (“Elvis não morreu”, “o homem não foi à Lua”, etc.). A peça aborda, por meio de 30 cenas, um conjunto de temas relacionados às mistificações e crendices contemporâneas. Também fazem parte do espetáculo reflexões filosóficas, principalmente a partir da obra de René Descartes (1596-1650), números de mágica e música ao vivo.

Fonte:http://www.kiwiciadeteatro.com.br/

quinta-feira, 12 de março de 2015

Azilde Andreotti




Por Juliana Gobbe



O blogue Tecendo em Reverso traz uma entrevista com a socióloga Azilde Andreotti, doutora em Educação pela Unicamp, também pesquisadora vinculada ao grupo HISTEDBR ( História, Sociedade e Educação no Brasil). A socióloga atualmente é responsável pelo Acervo Histórico do Livro Escolar (AHLE) da Biblioteca Monteiro Lobato – Secretaria Municipal de Cultura de São Paulo.
Recentemente lançou pela Paco Editorial o Livro:  “O Jornal A voz da infância” (1936-1950) Educação e Cultura na Modernidade Paulistana e é sobre esse trabalho que a autora conversou conosco.


 
Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora.



Tecendo em Reverso – O que a levou a pesquisar “ O Jornal  A voz da infância (1936 -1950)”?

AZILDE ANDREOTTI  - Eu conheci o jornal através de um trabalho  de organização do Acervo Memória da Biblioteca Monteiro Lobato. Essa Biblioteca foi criada em 1936, compondo o projeto de políticas culturais de São Paulo, com Mário de Andrade como diretor do Departamento de Cultura e mantinha registros e documentos de sua trajetória espalhados, desorganizados e mal conservados. Nesse acervo encontrei o jornal “A Voz da Infância” que logo me chamou a atenção pelo conteúdo, periodicidade, pela participação das crianças e jovens em todo o processo de sua elaboração como um projeto educativo da Biblioteca. A minha pesquisa se voltou para as ideias que nortearam não só a criação do jornal, mas também seus conteúdos. Essa é uma das possibilidades entre outras que esse jornal apresenta como fonte de investigação.

Tecendo em Reverso – De que forma as diretrizes políticas embasaram a composição do jornal pelas crianças e adolescentes na Biblioteca Infantil Municipal nas décadas pesquisadas?

AZILDE ANDREOTTI – Se pensarmos em política cultural e educativa, a própria criação de uma Biblioteca Infantil pública na década de 1930 demonstra um projeto de atuação mais abrangente em relação à criança, que poderíamos chamar de moderna, na época.  Afinal, as bibliotecas eram vistas como lugar de silêncio, de reflexão, voltadas principalmente ao público adulto. Sem dúvida a iniciativa de elaboração do jornal propiciava a permanência da criança e do jovem na Biblioteca, além de incentivá-los a participar de um projeto organizado, coletivo, e educativo.

Tecendo em Reverso - Como a cidade de São Paulo foi retratada pelo jornal?

AZILDE ANDREOTTI – Eis aí um dos aspectos curiosos do jornal, pois além da descrição de espaços urbanos como praças e ruas da época através de crônicas, transparece, em vários momentos, um sentimento de enaltecimento de São Paulo por conta da Revolução Constitucionalista, muito próxima de 1936, quando foi editado o primeiro número do jornal. Mas esse sentimento vai se diluindo com o tempo e outro aparece, o orgulho do progresso, das avenidas e dos prédios que surgiam na cidade.
Tecendo em Reverso - Em seu livro lemos: “As propostas de trabalho da Biblioteca atendiam a necessidade de despertar o interesse da criança indicando a semelhança com os princípios da Escola Nova, considerados processos mais criativos e menos rígidos do que as práticas educacionais tradicionais”. Até que ponto o escolanovismo norteou as atividades da Biblioteca?

AZILDE ANDREOTTI – As ideias do movimento da Escola Nova se fortaleceram nos anos de 1930 e a Biblioteca foi dirigida, desde a sua instalação, por Lenyra Fraccaroli, normalista da Escola Caetano de Campos, influenciada por esse movimento. Ao mesmo tempo boa parte das crianças que frequentavam a Biblioteca e compunham o jornal estudavam em escolas particulares, onde essas ideias se lançaram primeiramente. A criatividade, a iniciativa e a participação em projetos eram estimulados, até por se tratar de um espaço diferente do da escola, mas a leitura de livros era obrigatória para que a criança pudesse ver um filme, por exemplo.

Tecendo em Reverso – De acordo com sua pesquisa, como as crianças e jovens reproduziam as ideias da sociedade à época?

AZILDE ANDREOTTI – A escola foi, naquele período, importante fonte de informação dessas crianças. Muito dos conteúdos representados no jornal traduziu essa influência e não poderia ser diferente. Afinal, a escola ao mesmo tempo em que exerce seu papel de propagadora de ideias, insere-se dentro de padrões sociais. Essa relação analisada como um todo nos fornece um retrato de aspectos culturais, educativos e sociais daquele tempo.


   Foto: Divulgação






sexta-feira, 6 de março de 2015

O Lunar de Sepé por Denise Gomide

Denise Gomide é doutoranda pela Universidade Estadual de Campinas, mestre em Educação (2004) e graduada em Pedagogia pela mesma Universidade (1998). Possui especialização em Gestão da Rede Pública pela Universidade de São Paulo (2011). Atualmente é supervisora de ensino – Secretaria do Estado da Educação (SP) e pesquisadora do grupo HISTEDBR ( História, Sociedade e Educação no Brasil).
O blogue Tecendo em Reverso apresenta a resenha da pesquisadora sobre o livro de Dermeval Saviani: O Lunar de Sepé.

                                                              Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora.

Composta por doze capítulos, a obra intitulada O lunar de Sepé. Paixão, dilemas e perspectivas na educação é uma coletânea de estudos apresentados pelo autor em conferências proferidas em diferentes circunstâncias. O título do trabalho refere-se a sua curiosidade intelectual que, ao conhecer a cidade de São Sepé, buscou alguma referência a este santo desconhecido. Tomou conhecimento do poema popular “O lunar de Sepé”, entendendo assim que a canonização de São Sepé se deu pelo imaginário popular.
O poema, apresentado na íntegra no capítulo primeiro, retrata a saga do índio Sepé que, no âmbito das missões jesuíticas, foi um dos chefes na resistência armada às determinações do Tratado de Madri que definia os novos limites entre as colônias portuguesa e espanhola na América. Pelo Tratado, boa parte das terras do sul passou para o domínio português e, por isso, os jesuítas foram obrigados a migrar com os índios para outras terras, culminando na resistência dos índios em cumprir tais determinações. O lunar correspondia a uma mancha congênita que Sepé tinha gravada na testa na forma estelar do cruzeiro, caracterizando uma predestinação divina à liderança e à guerra.
É a partir desse contexto que no primeiro capítulo o autor aborda a questão das reduções jesuítas e a última migração. A cultura introjetada nos índios pelos jesuítas representou a base da resistência, conduzindo a guerras cujo resultado foi a destruição das missões pelas forças associadas de portugueses e espanhóis.
No processo de inculcação da fé cristã, a vida social em conjunto assume papel de destaque e com esse modelo educativo os jesuítas conseguiram forjar nos índios e, especificamente no índio Sepé, os princípios da cultura jesuíta. Nesse contexto, o índio Sepé encarnou mais plenamente essa cultura introjetada pelos jesuítas. Sepé foi morto em uma das batalhas de resistência e, conforme o imaginário popular, saiu vitorioso sobre a morte a ponto de seu lunar tomar no céu a posição do Cruzeiro do Sul, saga esta que o tornou imortalizado na cultura do Rio Grande do Sul. A imagem do índio Sepé significa, no âmbito pedagógico, a representação do projeto civilizatório e do modelo educativo dos jesuítas de aculturação dos indígenas. O êxito desse trabalho educativo de aculturação é representado pela santidade atribuída pelos próprios índios à Sepé.
No capítulo dois, o autor aborda as vicissitudes, entendida como dificuldade ou revés, e as perspectivas da pedagogia no Brasil definindo-a como uma teoria que orienta de modo intencional a prática pedagógica.
O autor ressalta que no período colonial da história da educação brasileira, embora a problemática se fizesse presente, o termo “pedagogia” estava ausente tanto do plano do Ratio como nas reformas pombalinas e por este motivo denomina este período como “pedagogia antes da pedagogia”.
Ao tratar da primeira vicissitude na história da pedagogia no Brasil aponta que o termo “pedagogia” apareceu pela primeira vez em 1826 no projeto de lei de ensino apresentado por Januário da Cunha Barbosa. Dadas as diferentes interpretações do termo, foi substituído no texto da lei por “escolas de primeiras letras”.
A escola Normal para formação docente foi criada em 1835 com o objetivo de realizar o treinamento no método monitorial-mútuo, no entanto, face à sua ineficiência apontada por Couto Ferraz, buscou-se substituí-la pelos professores adjuntos que atuariam como ajudantes do regente da classe, caminho que não prosperou, dando continuidade à instalação dos Cursos Normais. Essa interrupção na instalação dos Cursos Normais e a tentativa frustrada de substituí-los pelos adjuntos são identificadas como a segunda vicissitude na história da pedagogia no Brasil, tendo em vista que retardou a formação padronizada dos professores primários.
A terceira vicissitude na história da pedagogia no Brasil foi o Decreto 19.851 de 1931 baixado pelo ministro Francisco Campos que instituiu a Faculdade de Educação, Ciências e Letras e fixou o Estatuto das Universidades Brasileiras. No entanto, essa Faculdade, definida como modelo para todo o país, nunca chegou a ser instalada. Duas iniciativas ainda da década de 30 manifestam a quarta vicissitude na trajetória histórica da pedagogia no Brasil: a criação do Instituto de Educação em São Paulo e o Instituto de Educação no Rio de Janeiro.
Ambos os institutos foram incorporados a universidades e, portanto, elevados ao nível universitário, solidificando a formação docente na investigação e experimentação científicas.
A origem do curso de pedagogia na história da educação brasileira remonta-se ao Decreto-Lei 1.190 de 1939 que normatizou a Faculdade Nacional de Filosofia, da Universidade do Brasil, organizando-a em quatro seções: filosofia, ciências, letras e pedagogia, acrescidas da seção especial de didática. Os alunos, para obterem a licença para lecionar, cursariam três anos de bacharelado na área específica mais um ano do curso de didática, o que conferiria a licenciatura. Desta forma, a formação dos professores se daria em duas vertentes: para o ensino normal e para as especialidades, o que configurou a quinta vicissitude na história da pedagogia no Brasil.
Com a organização da Associação Nacional pela Formação dos Profissionais da Educação (ANFOPE) em 1990, emergiram duas idéias-força: a tendência em organizar o curso de pedagogia em torno da formação de professores; e a definição dos elementos fundamentais que devem basear a formação de um educador consciente e crítica, ideia essa expressa no termo “base comum nacional”.
A primeira idéia representa a sexta vicissitude da pedagogia no Brasil por definir a docência como base para a formação dos profissionais da educação, reduzindo a pedagogia à docência. A segunda idéia representa a sétima vicissitude, pois a noção de “base comum nacional” permanece obscurecida.
A pedagogia foi a última área a ter definidas suas diretrizes nacionais previstas pela nova LDB (1996), o que aconteceu somente em 2006, dez anos depois de sua promulgação. No entanto, essas diretrizes curriculares nacionais do curso de pedagogia restringiram o pedagogo a um docente formado em curso de licenciatura, caracterizando a oitava vicissitude da pedagogia no Brasil por centrar a formação do pedagogo no exercício docente.
No tocante às perspectivas da pedagogia no Brasil, o autor aponta o caminho da história como eixo articulador na organização dos conteúdos curriculares, a partir do qual a realidade da escola torna-se foco do processo formativo. A partir da trajetória histórica, os elementos da atualidade necessários à formação do pedagogo, serão estudados pelo viés da história que contemplará seu nascimento e seu desenvolvimento, possibilitando assim uma instrumentalização técnica para uma prática pedagógica eficaz, focando o processo formativo na história da organização e funcionamento da escola.
O autor reforça ainda neste capítulo a necessidade das unidades universitárias na área da educação propiciar aos jovens aspirantes à tarefa de educadores um ambiente de intenso e exigente estímulo intelectual, através da articulação dos fundamentos teóricos e práticos da educação com a pesquisa científica.
No capítulo 3, sob o título Pedagogia, Paixão e Crítica, o autor aborda a paixão do professor em cinco estações, a qual ao mesmo tempo em que remete ao prazer e à felicidade, significa também sofrimento. Assim, percorre na história, o calvário dos professores. Na 1ª Estação, a educação na Grécia, a profissão docente estava associada mais ao desprezo do que à estima. Na 2ª Estação, a educação em Roma, os dois pólos da palavra paixão, sofrimento e prazer, se fazem presentes. Na Educação na Idade Média, caracterizada como a 3ª Estação, a falta de mestres e o desinteresse pelo estudo das letras reduziram o valor social da educação, fazendo desaparecer a escola clássica e surgir os mestres livres. A educação moderna ou burguesa da 4ª Estação é definida como precária, condicionando a subsistência miserável dos professores aos centavos recebidos pelo maior número de alunos que conseguisse incluir na lista. A 5ª Estação, a educação no Brasil, trata do paradoxo exaltação e penúria que desmobiliza os movimentos docentes.
Ainda neste capítulo, o autor alerta para o fato de que a apaixonante profissão do educador não deve ser subjugada pela ingenuidade. É preciso superá-la a partir de uma perspectiva crítica que permita adequar as ações aos objetivos que se deseja atingir. Nesse sentido, o compromisso com a educação implica na tomada de consciência e no entendimento de que existe uma correlação de forças daqueles que buscam perpetuar a ordem vigente e aqueles que lutam por transformá-la, onde o professor assume a causa dos dominados (excluídos). Essa passagem da consciência ingênua à consciência crítica implica em desfazer toda ilusão de poder que acometia o professor otimista e fazia-o acreditar na sua capacidade de transformar a sociedade sem, contudo, cair num pessimismo igualmente ingênuo que não vislumbra possibilidades de transformação da sociedade pela educação. A superação do otimismo ingênuo e do pessimismo ingênuo está, segundo o autor, no entusiasmo crítico que supera a visão de senso comum intuitiva e opinativa, ascendendo à consciência fundamentada filosoficamente e cientificamente.
A temática Ética, Educação e Cidadania é tratada no capítulo 4 a partir da centralidade da Educação na trilogia, isto é, a educação, por se definir pela mediação no sentido de possibilitar ao homem a apropriação da produção humana historicamente acumulada, fará também a mediação do homem e a ética (consciência ética) e do homem e a cidadania (consciência cidadã). Além disso, a educação fará a mediação entre a ética e a cidadania, possibilitando a construção de uma cidadania ética e de uma ética cidadã.
Ao refletir sobre “O homem e os valores”, o autor aponta os condicionamentos aos quais o homem está submetido tanto no meio natural como no ambiente cultural. Esses condicionamentos tornam-no um ser situado (a priori existencial), o que lhe dá as condições de existência humana. Por este motivo, o homem passa a valorizar os elementos que lhe dão essas condições, exercendo assim uma atitude axiológica, ou seja, passa a atribuir conceitos de valor. Define, portanto, a situação (contexto determinado) como o primeiro aspecto que caracteriza a estrutura do homem.
A partir dessas considerações, o autor define valor como uma relação de não indiferença entre o homem e os elementos com que ele se defronta, estabelecendo uma relação de valoração positiva com os elementos que favorecem a sua existência e uma relação de valoração negativa com os elementos que prejudicam a sua existência. Dessa forma, é possível ao homem reagir e intervir na situação para aceitá-la, rejeitá-la ou transformá-la. E a transformação que o homem opera no contexto determinado é definida pelo autor como cultura que, enquanto produto da ação humana, é resultado da ação que ele opera no meio, sendo-lhe, portanto, capaz de superar os condicionamentos da situação.
Ao tratar do segundo aspecto da estrutura do homem, a liberdade, que por ser pessoal e intransferível, evidencia a autonomia dos sujeitos e impõe o respeito à pessoa humana. Nessa perspectiva, o autor assevera que a relação de domínio do homem sobre as coisas jamais pode ser estendida para as relações entre os homens.
O terceiro aspecto que caracteriza a estrutura do homem, o aspecto intelectual, implica na consciência, por meio da qual é possível ultrapassar os limites situacionais e pessoais numa perspectiva de objetividade, transcendendo os pontos de vista pessoais e possibilitando, portanto, a comunicação e o entendimento entre os homens numa relação de colaboração. Isso dá abertura para a relação estética, de apreciação, do homem com as coisas e do homem com outros homens.
Ao tratar da educação e os valores, o autor retoma a idéia de homem como ser que produz a sua própria existência a partir da ação coletiva sobre a natureza. E nesse sentido, as origens da educação se confundem com as origens do próprio homem que, não tendo garantida a sua existência, tem que aprender a produzi-la, agindo sobre a natureza e transformando-a. Neste sentido, a educação, enquanto atividade intencional consiste em produzir na singularidade a humanidade que é produzida historicamente pela coletividade a fim de capacitá-lo para intervir na situação para transformá-la, ou seja, transformar o que é naquilo que deve ser.
Ao falar sobre Ética e Educação, o autor aponta a educação como mediação no processo de tomada de consciência moral das ações humanas elevando-a ao nível ético, isto é, a partir da educação os valores morais são subordinados à compreensão teórica dos fundamentos, critérios e regras que os definem, o que os eleva ao nível ético.
A ética pertence, portanto, ao domínio pessoal das relações entre os homens, nas quais está em evidencia a questão indissociável da liberdade e da responsabilidade. No entanto a educação tem tratado a questão de forma dicotômica: hora exaltando a liberdade, hora exaltando a responsabilidade. Com efeito, o indivíduo deve assumir as suas decisões e escolhas (liberdade), mas também deve assumir as suas consequências e implicações (responsabilidade).
Sobre Cidadania e Educação, inicia afirmando que ser cidadão significa ser sujeito de direitos e de deveres, agindo politicamente segundo as exigências próprias da vida em sociedade.
Ressalta que a questão da cidadania se põe na sociedade burguesa e, nesse contexto, a educação escolar configura-se como instrumento básico para o exercício da cidadania, como condição indispensável para que ela se constitua, pois não é possível a existência na sociedade moderna sem o acesso à cultura letrada, sem a qual não se pode participar plenamente da vida em sociedade e nem mesmo ser sujeito de direitos e deveres.
Considerando que na base da sociedade burguesa está a divisão de classes, os interesses opostos dessas classes acabam por refletirem-se nas relações da trilogia ética, educação e cidadania, tanto na vida social cotidiana, como também nas relações de trabalho e na vida cultural, o que atribui à trilogia uma determinação histórica e social. No contexto da sociedade burguesa, a ética, a educação e a cidadania refletem a ideologia burguesa, e a educação, no papel de mediadora entre a ética e a cidadania, buscará instituir em cada indivíduo singular o cidadão ético correspondente a esse tipo de sociedade.
Diante desses impasses, aponta-se como horizonte a visão socialista de educação, capaz de embasar uma nova sociedade em que a ética e a cidadania, mediadas pela educação, realize a verdadeira emancipação humana.
No capítulo 5, ao tratar dos dilemas e perspectivas da formação de professores no Brasil, o debate se inicia com uma reflexão sobre a situação atual da educação e a formação de professores situando, em termos quantitativos, o avanço significativo no campo educacional ocorrido no século XX, consubstanciado na universalização do acesso ao ensino fundamental. No entanto, o avanço quantitativo trouxe em seu bojo os problemas de caráter qualitativo, que se evidenciam no desempenho insuficiente e na dificuldade de conclusão do ensino fundamental. Nessa discussão, o problema da formação docente emerge como o vilão responsável pela falta de qualidade na educação.
Retomando os antecedentes históricos, o autor aponta que no século XIX dois modelos buscaram resolver o problema da formação docente: o modelo dos conteúdos culturais-cognitivos e o modelo pedagógico-didático. A preocupação do primeiro modelo está no domínio da cultura geral e na formação específica na área de conhecimento que o professor pretende lecionar, representando, na história da educação, as instituições de ensino que foram responsáveis pela formação dos professores secundários. No segundo modelo além da cultura geral e da formação específica, prioriza-se a preparação pedagógico-didática, tendo as Escolas Normais como representantes deste modelo na formação dos professores primários.
Aponta ainda que as políticas formativas no Brasil são descontínuas. Enquanto que nas reformas da década de 30 a questão pedagógica ocupou posição central; as diretrizes sucessivas, não conseguiram estabelecer um padrão mínimo de formação docente para o enfrentamento dos problemas da educação escolar brasileira.
Ao analisar os documentos oficiais que estruturam a atual formação dos professores no Brasil, o autor faz menção a cinco dilemas:
1. Apontam os problemas a serem resolvidos e as dificuldades a serem superadas, porém são insuficientes no encaminhamento das soluções.
2. São restritos no que diz respeito aos conhecimentos historicamente acumulados, essenciais à formação docente; porém são impregnados dos novos paradigmas da pós-modernidade.
3. Centralizam a noção de “competência” entendida como mecanismo de adaptação do comportamento humano ao meio material e social, o que resulta na incompetência dos professores em lidar com a complexidade da tarefa pedagógica.
4. Reforçam uma formação focada no máximo desempenho com o mínimo de investimento, resultando no professor técnico cuja atividade restringe-se à aplicação de regras, em detrimento do professor culto que domina os fundamentos científicos e filosóficos do conhecimento.
5. Evidenciam a dicotomia entre os dois modelos de formação (o modelo dos conteúdos culturais-cognitivos e o modelo pedagógico-didático), sem qualquer encaminhamento para sua superação.
Quanto às perspectivas da formação docente no Brasil hoje, apresenta a fragmentação, dispersão e descontinuidade das políticas educacionais; o formalismo das normas legais nos cursos de formação docente; separação entre as instituições formativas e as escolas; dicotomia entre teoria e prática; e precarização do trabalho docente como desafios a serem superados. Para essa superação apresenta como perspectivas a formação centrada no padrão universitário com foco na docência; uma política educacional que priorize a formação de professores cultos; a formação para o ensino e a pesquisa com intenso e exigente estímulo intelectual; uma articulação das instituições formativas com o funcionamento das escolas através de um redimensionamento dos estágios; um posicionamento teórico, no âmbito da pedagogia histórico-crítica, para articulação da teoria e da prática; e uma política de valorização docente.
Nessa perspectiva, há que se ressaltar que não há como enfrentar o problema da formação docente, ignorando a questão das condições do exercício do trabalho docente. Se por um lado, a boa formação implica num trabalho docente satisfatório; por outro lado, as condições do exercício do magistério verificadas fundamentalmente nos próprios professores formadores e nos estágios, acabam por determinar a qualidade da formação docente. Assim, as condições de trabalho docente têm um impacto decisivo na formação de novos professores, ligando-se intimamente à valorização social da profissão.
Ao tratar do direito à educação, o autor inicia o capítulo 6 distinguindo direitos civis, ligados ao exercício da liberdade individual; direitos políticos, ligados à participação no poder político; e direitos sociais, correspondendo ao nível mínimo de bem-estar e no qual se configura a educação que, para além de um direito social, é condição necessária para o exercício de todos os direitos. Considerando que a sociedade urbano-industrial se baseia em normas escritas, para a participação ativa nessa sociedade e o exercício dos direitos, os indivíduos necessitam ter acesso aos códigos escritos, o que, de fato, é mediado pela escola, convertendo os indivíduos em cidadãos, isto é, sujeitos de direitos e deveres.
No entanto, ao longo da história da educação no Brasil, o Estado não conseguiu cumprir o seu dever de garantir à população o direito de ter acesso à educação, persistindo o conflito entre a proclamação do direito à educação e a sua efetivação, dada a histórica resistência em investir neste direito social.
Em seguida, no capítulo 7, buscando responder a questão “que escola queremos?”, o autor descreve os quatro paradoxos da educação escolar. O primeiro deles, o paradoxo da escola cidadã: autonomia ou submissão, trata da expectativa contraditória da escola cidadã que, ao nível do discurso, tem por objetivo formar para o exercício consciente da cidadania, isto é, transformar os indivíduos de sujeitos passivos e conformados em sujeitos críticos, ativos e transformadores; e da escola que, na realidade, entende a educação cidadã como o processo de formar indivíduos disciplinados, ordeiros, que respeitem os outros e sejam submissos. Já as expectativas contraditórias do paradoxo da escola imparcial: justiça ou injustiça, se definem na defesa de uma escola justa, imparcial, que, por uma lado, leve em conta apenas o mérito individual como padrão de justiça; mas que, por outro lado, se pauta pela defesa de uma escola que leve em conta as diferenças e particularidades individuais e sociais dos alunos. Ao tratar do paradoxo da escola igualitária: igualdade ou desigualdade as expectativas contraditórias resumem-se no tratamento igual conferido ao desiguais e o tratamento desigual aos iguais, o que reporta ao último paradoxo: o paradoxo da escola equalizadora: equidade ou ini(e)quidade.
Neste paradoxo, o autor discorre sobre a escola que busca equalizar as desigualdades tratando de forma diferenciada os desiguais. Todavia, é exatamente o discurso da equidade que acentua as desigualdades por permitir que regras utilitárias de conduta sobrepujem a questão do direito, adaptando-o às diferentes circunstâncias.
A razão dessa tendência da educação em gerar expectativas contraditórias está na estrutura da sociedade atual. O caráter contraditório da ideologia liberal, que é a base da sociedade capitalista, se expressa no campo educacional a partir das contradições entre o homem e sociedade expressas na divisão entre o indivíduo egoísta e independente e a pessoa moral, cidadão do Estado; entre o homem e o trabalho que contrapõe o trabalho enquanto fonte criadora da existência humana e o trabalho como elemento de degradação e escravidão do trabalhador; e entre o homem e a cultura que contrapõe a cultura socializada, rebaixada para as massas, à cultura individual, sofisticada para as elites.
Tais questões evidenciam a impossibilidade do desenvolvimento da escola pública na sociedade de classes de tipo capitalista a qual funda-se na apropriação privada dos meios de produção, dentre eles o saber. Uma escola pública de qualidade viabilizaria a apropriação do saber por parte dos trabalhadores que, sendo proprietários apenas de sua força de trabalho, não podem, portanto, apropriar-se do saber. Por isso, a luta pela escola pública coincide com a luta pela superação dessa forma de sociedade, com a luta pelo socialismo. Este é o caminho para resolver o paradoxo da educação escolar, superando as expectativas contraditórias.
O capítulo 8 aborda a importância da filosofia para a educação, considerando que a filosofia, por ser a forma mais elaborada de compreensão do homem pelo próprio homem, é uma especialidade que interessa a todos os homens.
Sendo a história o conteúdo da filosofia por tratar da produção da existência humana no tempo, o método do filosofar pode seguir dois caminhos distintos e opostos: o do idealismo ou da metafísica, que faz abstração do movimento concreto da história, convertendo-a em idéias que se justificam por si mesmas, e o da historicização, que toma a história como o próprio método do filosofar. Nessa perspectiva, a formação do educador deveria priorizar o desenvolvimento de uma ampla cultura filosófica que tenha a história como conteúdo e forma, possibilitando assim compreender o modo de ser do homem enquanto indivíduo real e sujeito histórico.
A politecnia e a formação humana são tratadas no capítulo 9 a partir do trabalho enquanto princípio educativo no sentido de ajustar a natureza às finalidades humanas. Essa ação sobre a natureza para transformá-la é guiada por objetivos, antecipada mentalmente, o que diferencia os homens dos animais que apenas adaptam-se a natureza e agem sobre ela por instinto.
A formação dos homens traz a determinação do modo como produzem a sua existência e a realidade da escola tem de ser vista nesse quadro. Nos primórdios, a educação se restringia a pequenas parcelas da humanidade. O trabalho produtivo era o trabalho de cultivo da terra, para o qual não eram requeridos conhecimentos sistemáticos. Com o advento da sociedade moderna, os conhecimentos passam a ser incorporados como força produtiva por meio da indústria, subordinando o campo à cidade, e a agricultura à indústria. Distanciando-se das relações naturais, a sociedade moderna passou a adotar normas para as relações entre os homens, normas estas compreendidas no direito positivo, que assumiu a forma escrita, sendo necessária a introdução de códigos de comunicação. É nesse contexto que a escola se constitui como via de acesso aos códigos escritos e o currículo escolar, desde a escola elementar, passa a ser estruturado considerando o princípio do trabalho como processo pelo qual o homem transforma a natureza. No entanto, a sociedade moderna, alicerçada na propriedade privada dos meios de produção, converteu o conhecimento em força produtiva, ou seja, propriedade privada da classe dominante, desenvolvendo mecanismos que sistematizam os conhecimentos em saberes genéricos aos trabalhadores e reforçando a separação entre o trabalho manual e trabalho intelectual.
A noção de politecnia vem contrapor-se a essa dicotomia, postulando que o processo de trabalho desenvolva os aspectos manuais e intelectuais, colocando assim todo o processo produtivo a serviço do conjunto da sociedade, abarcando assim todos os ângulos da prática produtiva.
No capítulo 10, o autor discorre sobre O futuro da Universidade entre o possível e o desejável. As universidades surgiram na Idade Média com o propósito de formação de profissionais intelectuais, em oposição às corporações de ofício cujo objetivo era a formação nas artes manuais.
Na primeira metade do século XIX definiram-se os três modelos clássicos de universidade e que configuram a universidade como a conhecemos atualmente: o modelo napoleônico, com a prevalência do Estado, o modelo anglo-saxônico, com destaque para a sociedade civil, e o modelo prussiano, prevalecendo a autonomia da comunidade acadêmica.
No Brasil, o modelo napoleônico prevaleceu desde 1808. A partir da década de 80, há um deslocamento no padrão do ensino superior no Brasil com a incorporação de elementos do modelo anglo-saxônico, principalmente no que diz respeito a distinção entre as universidades de pesquisa, espaços restritos de concentração dos investimentos públicos; e as universidades de ensino, tidas como universidades de segunda classe que não necessitam desenvolver pesquisa. Nesse contexto, configura-se o futuro possível da universidade: o de subordinação da educação superior aos mecanismos de mercado.
Segundo o autor, a atividade de pesquisa é um produto que não é separável do ato de produção, o que limita o modo de produção capitalista neste tipo de atividade e, portanto, não pode ser plenamente objetivada. No âmbito da produção material, a maior produtividade e o maior nível de qualidade estão atrelados a incorporação de inovações tecnológicas que possibilitaram o incremento da mais-valia relativa, de modo que os ganhos de produtividade expressam-se igualmente em ganhos de qualidade. Já no âmbito da atividade científica e da educação, modalidades da produção não material, o incremento da produtividade interfere negativamente na qualidade e vice-versa. No entanto, é importante ressaltar que, trabalho produtivo na sociedade capitalista é o que gera mais-valia e trabalho improdutivo é o que não gera mais-valia, o que não significa que nada produza. Pode produzir, sem, contudo, gerar mais-valia, ou seja, sem entrar no circuito do capital.
Esses dois aspectos, produtividade e qualidade, consistem no dilema do ensino superior hoje, especialmente dos cursos de pós-graduação. Ao dar precedência à produtividade, atendendo aos critérios das agências de apoio à pesquisa no que diz respeito ao aumento do número de relatórios de pesquisa em troca de apoio financeiro, ignora-se o tempo destinado à produção de dissertações e teses, o que acaba por contribuir com a queda da qualidade dos programas de pós-graduação. Ao dar precedência à qualidade, com foco na formação e na produção de dissertações e teses, as exigências de produtividade ficariam em segundo plano, reduzindo o financiamento.
A solução deste problema, segundo o autor, é buscar construir outro futuro para a universidade que afirme a educação como fator estratégico, de modo que a prática articulada do ensino, da pesquisa e da extensão converta-se em principal instrumento no projeto de desenvolvimento da sociedade brasileira.
Dando continuidade ao tema da educação superior, o capítulo 11 trata da Pós-graduação em educação, interdisciplinaridade e formação de professores. Inicia o texto fazendo a distinção entre a pós-graduação lato sensu, voltada para o aperfeiçoamento e especialização da formação profissional básica obtida na graduação e tendo como elemento principal o ensino; e a pós-graduação stricto sensu, organizada nas formas de mestrado e doutorado e voltada para a formação acadêmica de pesquisadores e, portanto, com foco na pesquisa inicial (mestrado) e de consolidação (doutorado).
O autor retomou o Parecer 977 de 1965, de autoria de Newton Sucupira, que trata da conceituação dos estudos pós-graduados stricto sensu, prevendo apenas o mestrado e o doutorado, e da estrutura organizacional bastante articulada influenciada pelo modelo americano, mas inspirada, na sua implantação, pela experiência europeia de densidade teórica herdada do iluminismo.
Questiona a redução do tempo de realização do mestrado com a tendência de dispensar a dissertação, ressaltando como necessário o exercício da pesquisa como forma de adquirir domínio teórico e prático do processo de investigação. Aponta como alternativa as monografias de base como ideia reguladora da dissertação de mestrado que, a partir de temas relevantes ainda não suficientemente explorados, orientariam um levantamento das informações possíveis.
Com relação à forma de organização curricular da pós-graduação, o autor trata da questão da interdisciplinaridade, ressaltando como o termo vem sendo banalizado nas teorizações. Com relação ao campo educativo, suas reflexões partem da diferenciação entre as ciências da educação (psicologia da educação, sociologia da educação, história da educação, etc), onde o ponto de partida e o ponto de chegada estão fora da educação; e a ciência da educação enquanto constituição concreta a partir de uma totalidade e, portanto, ponto de chegada e ponto de partida, onde as contribuições e os conhecimentos científicos das diferentes áreas têm como referência a problemática educacional.
No tocante a formação docente na pós-graduação, a história da educação brasileira desde seus primórdios evidencia que não se manifestou uma preocupação explícita com a formação dos professores.
Fechando a obra, o autor trata no capítulo 12 sobre o financiamento da educação sob perspectiva histórica, constatando que embora a legislação tenha definido em diferentes momentos percentuais mínimos a serem investidos no ensino, tais percentuais sempre foram entendidos como máximos, configurando assim na história brasileira a escassez de recursos para a área da educação.
A atual sociedade do conhecimento aponta a educação como fator estratégico no projeto de desenvolvimento do país e, considerando isto, o autor apresenta uma proposta de aumento exponencial dos recursos para a educação. Inicia pontuando a relação entre educação e desenvolvimento a partir de três concepções distintas: educação pelo desenvolvimento econômico, educação para o desenvolvimento econômico e educação como desenvolvimento econômico.
A educação pelo desenvolvimento econômico considera a relação entre educação e desenvolvimento a partir do entendimento de que a educação situa-se à margem do desenvolvimento econômico, porém dependente das possibilidades abertas por ele. Esta concepção estabelece a educação no âmbito do não trabalho como atividade improdutiva. Pautada na concepção liberal, centrada na valorização absoluta do indivíduo, a educação nesse contexto é vista como fruição da cultura e não como preparo para a atuação social.
Na segunda concepção, educação para o desenvolvimento, a educação atua como instrumento a serviço do desenvolvimento econômico. Tal perspectiva se projetou na década de 1960, com a teoria do capital humano, focando o valor econômico da educação pela sua relação direta com a qualificação da mão de obra. Isso significa que, nesse contexto, o projeto de desenvolvimento nacional buscava adequar o ensino escolar às demandas do processo produtivo resultando na instalação das escolas técnicas profissionalizantes e reforçando a visão dualista e excludente que contrapõe desenvolvimento econômico e desenvolvimento social.
Na terceira concepção, educação como desenvolvimento econômico, o autor, a partir de Marx, define a educação como não apenas um bem de consumo, mas um bem de produção, evidenciando que o processo de produção social é uma totalidade orgânica.
Assim, não faz sentido a dicotomia entre educação e economia, justamente porque no contexto da atual sociedade do conhecimento, o processo produtivo depende cada vez mais do domínio de formas de pensamento adquiridas sistematicamente através da escola.
O autor sinaliza para a superação do modelo econômico vigente, a partir do consenso de que a educação formal, na atual sociedade do conhecimento, é a chave do sucesso para todos os setores e empreendimentos. Portanto, é preciso assumir a educação como fator estratégico para o desenvolvimento o que implica no investimento maciço para atacar, na linha de frente, todos os outros problemas decorrentes da falta dela, pois, pela educação, estará sendo promovido o desenvolvimento econômico.
O autor conclui o capítulo final refletindo sobre a oportunidade que nos é posta pelo novo Plano Nacional de Educação (PNE) no sentido da melhoria da qualidade na educação e, especificamente, no tocante ao financiamento, sem o qual todas as outras metas ficam inviabilizadas. A educação, como modelo de desenvolvimento econômico e como área prioritária em torno da qual girará o desenvolvimento do país, é o caminho mais consistente e estratégico, e por isso, reivindica via PNE, o adequado encaminhamento da questão do financiamento.
Finalizando, ressaltamos que os doze capítulos apresentam uma importante referência para a área da educação e isto se deve, especialmente, à sua linguagem clara, direta e objetiva, o que facilita a consulta e a compreensão por parte dos leitores das temáticas abordadas nesta obra.


* Esta resenha foi publicada pela primeira vez na Revista HISTEDBR online.



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