terça-feira, 2 de setembro de 2014

MAURO IASI

Mauro Iasi é candidato a presidente da República pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB).  Nasceu em São Paulo-SP  em 1960.  Graduou-se em HISTÓRIA  pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.   Mestre e doutor  em SOCIOLOGIA  pela  USP, exerce o cargo de  professor adjunto da Escola de Serviço Social da Universidade Federal do Rio de Janeiro.    Exerceu o cargo  de   presidente do Sindicato dos Docentes da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), de  2011 a 2013.  Publicou os  livros: O Dilema de Hamlet – O ser e o não ser da consciência (Viramundo) e o recente   As Ruas – Poemas e reflexões pedestres (ICP), dentre outros. Integra o  Comitê Central do PCB.
 Tecendo em Reverso entrevistou o político, professor e literato   Mauro Iasi,   em busca de respostas para as inquietantes perguntas e  questões arguidas pelos leitores no curso  deste blog, dentre estudantes, artistas, educadores e  escritores.  


                                                                 Foto: Divulgação



Tecendo em Reverso – O voto distrital representa um avanço com relação à democracia representativa?


MAURO IASI – Não. Para nós, do PCB, a proposta do voto distrital representa um retrocesso político. Vez por outra, os setores conservadores tiram do colete a proposta de introdução do voto distrital nas eleições proporcionais. Isto significa que cada eleitor só pode votar em candidatos inscritos para disputar a eleição num distrito, ou seja, apenas numa determinada jurisdição. Não poderiam votar num candidato domiciliado na capital ou em outra região. Hoje já existe uma grande despolitização nas eleições proporcionais, com uma tendência ao voto que privilegia os candidatos locais, os quais prometem obras, serviços e favores aos seus eleitores, deixando de lado as grandes questões nacionais e as lutas em prol de transformações sociais e políticas efetivas, na contracorrente da ordem burguesa e do domínio dos interesses capitalistas sobre a vida da população. O advento desta mudança reduziria ainda mais a possibilidade do voto politizado, de opinião, tornando minoritário o voto conscientizado, razão principal dos partidos revolucionários. Uma vez eleito, o parlamentar distrital tende a se comportar no parlamento como uma espécie de despachante da região que o elegeu e pela qual pretende se reeleger. Com a implantação do voto distrital, o debate político e ideológico dará lugar ao bairrismo e às disputas regionais.


Tecendo em Reverso – Como transformar a proposta de governo do PCB em futuro?


MAURO IASI – Queremos transformar o programa político do PCB em presente, pois é urgente reverter o quadro atual marcado pelos graves problemas com que se defrontam os trabalhadores e o conjunto da população brasileira. Estes não serão resolvidos com a manutenção e desenvolvimento do mercado e da economia capitalista. Não é mais possível pensarmos que se enfrentarão as profundas desigualdades existentes – a falta de serviços essenciais à vida humana (alimentação, moradia, transporte, educação, saúde, lazer, cultura, etc.), a barbárie em que se transformou a civilização do capital e da mercadoria, com o genocídio dos pobres, dos negros, das populações indígenas – aplicando políticas que visem ampliar o acesso aos bens materiais com o simples crescimento econômico capitalista, o que só faz aumentar a destruição da natureza e acaba concentrando ainda mais a riqueza na forma de lucros acumulados privadamente. Nossa luta é para que os trabalhadores e a imensa maioria da população brasileira participem conosco de um grande movimento em defesa do Poder Popular, dando continuidade às grandes manifestações que explodiram no Brasil em junho de 2013, revelando a enorme contrariedade do povo com as condições de vida a que está submetido, sob imposição do capitalismo. A saída para o movimento de rebeldia das massas é fazer com que esta luta assuma um caráter político, isto é, a forma de um programa e de uma ação que se apresente como uma real alternativa de poder ao domínio atual das classes proprietárias.


Tecendo em Reverso – A atual juventude brasileira pode se espelhar na práxis da juventude comunista do século XX?


MAURO IASI – Acredito que sim, no sentido de que a juventude revolucionária – e não só aquela que integrava os partidos comunistas no mundo – participou ativamente de movimentos responsáveis por grandes transformações sociais e políticas, seja na tentativa de afirmação de propostas socialistas, seja na resistência às determinações do capitalismo e às intervenções do imperialismo. A juventude esteve presente nas manifestações de massas, nas revoltas anarquistas e revoluções socialistas do século passado, participando ativamente das inúmeras lutas contrárias às injustiças e desigualdades impostas pela burguesia. Foi assim nas greves operárias do início do século XX, nas revoluções de 1917 na Rússia, em 1949 na China, em 1959 em Cuba. Resistiu o que pôde contra os regimes fascistas, apoiou os movimentos de libertação nacional na Ásia e na África nos anos 1950, esteve junto às lutas por direitos civis nos EUA, montou barricadas em Paris em 1968, foi às ruas em todas as grandes cidades do mundo para protestar contra o ataque imperialista estadunidense no Vietnam. No Brasil e em toda a América Latina, resistiu bravamente às ditaduras financiadas pelo grande capital, imolando suas vidas em nome da liberdade e do socialismo. A União da Juventude Comunista (UJC), ligada ao PCB, dá sequência hoje à luta revolucionária e internacionalista dos jovens. Contamos com ela e com toda a juventude brasileira que clama por mudanças radicais na sociedade contemporânea para o processo de construção do Poder Popular e do socialismo em nosso país.


Tecendo em Reverso - O exercício do cargo de presidente da república do Brasil pressupõe concessões às oligarquias. O PCB pretende retomar a política de aliança com a burguesia nacional?


MAURO IASI – Não concordo com a premissa colocada. A concessão às oligarquias é feita pelos partidos burgueses e por aqueles que acabaram se rendendo à forma capitalista de governo. A maneira que a burguesia encontrou historicamente foi o desenvolvimento de uma institucionalidade política na qual muitos participam – através das eleições – para que poucos governem, garantindo a dominação exercida pela minoria de proprietários. Para reverter isso não basta uma reforma política ou a engenhosidade de sistemas de representação, organização partidária e sistemas eleitorais pitorescos. Só é possível contrapor o poder da burguesia com o poder popular. A única maneira de contrapor o poder daqueles que querem manter as formas de propriedade atuais e as relações sociais de produção a elas associadas é constituir um poder capaz de enfrentá-los com a força da mobilização popular para derrotá-los, neutralizando ou destruindo seus recursos de poder. Não há a mínima chance de o PCB promover alianças com a burguesia. O PCB defende que somente a Revolução Socialista, entendida como um forte e poderoso processo de lutas populares que desemboque na construção de uma sociedade alternativa ao capitalismo e à ordem burguesa, será capaz de realmente resolver os problemas vividos pelos trabalhadores e setores populares. Por isso o PCB apresenta uma alternativa anticapitalista e socialista e lutará para que se constitua na sociedade a força política necessária à sua implementação.


Tecendo em Reverso – No seu livro: O dilema de Hamlet lemos: “...o dilema de Hamlet é o dilema da consciência militante. Vê o mundo se desmoronar e vive profundamente seu sofrimento. Quer realizar a profecia de justiça, mas se sente fraca como indivíduo diante das forças objetivas de um mundo que se apresenta de forma invencível”. Como se dá o enfrentamento da problemática da consciência no debate da contemporaneidade econômica e política?


MAURO IASI – Os capitalistas, através de todos os meios possíveis, desde as formas de exploração direta dos trabalhadores nos ambientes dedicados à produção, à difusão da ideologia dominante nos diversos espaços sociais existentes, como as escolas, igrejas, etc, passando pela manipulação aberta com o uso abusivo dos meios de comunicação, tentam neutralizar ou paralisar todo processo coletivo de tomada de consciência das classes dominadas. A tomada de consciência é a experiência que cada trabalhador individualmente e todos os trabalhadores juntos – como classe – vão construindo a partir de suas próprias lutas e suas próprias vivências. A consciência de classe se constrói todos os dias. Ninguém nasce com ela. A consciência, como o senso comum, é um campo de disputa. A militância revolucionária atua para que os trabalhadores e a população explorada pelo capital compreendam que a raiz dos seus males está no sistema capitalista, que seu inimigo principal não é o colega de trabalho, o vizinho, o motorista do ônibus, o funcionário do comércio ou o servidor da prefeitura, mas os donos dos meios que produzem a sua exploração. A criação de uma consciência socialista pressupõe uma luta, desde já, para a construção de organizações políticas autônomas, independentes e próprias da classe trabalhadora, que tomem a iniciativa nos movimentos populares e que, nos embates contra a ordem burguesa, construam uma poderosa força política unitária contraposta ao bloco dominante, formulando um programa político de transformações necessárias de caráter anticapitalista. Isto é o que chamamos de Poder Popular. E temos certeza de que este processo está em curso no Brasil. Por isso acreditamos que o socialismo não seja uma quimera, mas uma possibilidade real e, acima de tudo, uma necessidade no mundo de hoje, marcado pela barbárie capitalista.
 
 

sexta-feira, 15 de agosto de 2014

Pedro Monteiro

O escritor Pedro Monteiro é piauiense de Campo Maior. Sua infância deu-se no roçado ao som das histórias contadas sob a luz de lamparinas ou em terreiros clareados pelo luar.
O apetite pelos livros fez com que o autodidata Pedro pudesse aguçar a imaginação e sua verve observadora.
Aos dezessete anos pousou com suas palavras em terras paulistanas onde angariou novos conhecimentos e, sobretudo pode através do contato com a periferia da metrópole ampliar sua luta por justiça e solidariedade. Sobre isso o autor comenta: “ É agir contra o embrutecimento, a alienação, e a coisificação do homem”.
Há pouco tempo em companhia de Júlio Verne deu “A volta ao mundo em oitenta dias” numa bela adaptação em cordel do clássico do escritor francês.
Com Pedro Monteiro o blogue Tecendo em Reverso reforça a frase de Suassuna...nós também não trocamos nosso oxente pelo ok de ninguém.


                                                 Foto: Arquivo pessoal do autor


Pedro Monteiro por ele mesmo:

Sou poeta cordelista
Me chamo Pedro Monteiro,
Amasso o barro da rima
No metro do bom oleiro,
Sou um campo-maiorense,
Das terras Piauiense,
Nosso sertão brasileiro.


Tecendo em Reverso – Como se deram as primeiras aproximações com a Cultura Popular?

PEDRO MONTEIRO – Interessante; eu tenho muitas lembranças de quando era menino, das festas de reis “boi de reisado”, das conversas nos terreiros em noites enluaradas ou mesmo alumiado por lamparina. Sempre que ia dormir, minhas irmãs mais velhas entoavam cânticos em cordel. Isso mesmo, a leitura era cantada, além de muitas histórias. Destaque para os cordéis que cantavam da chegada de Lampião no Céu, no Inferno, José de Souza Leão, As bravuras do valente Apolinário, Princesa da pedra fina, A triste Partida e Pavão Misterioso, entre outros. Cresci, migrei para São Paulo aos 17 anos e só em 2008, já com 52 anos, fazendo uma pesquisa sobre linguagem, para concluir minha participação ao fazer uma oficina de direção teatral foi que reencontrei a Literatura de Cordel. Graças a um encontro com os poetas Marco Haurélio, Varneci Nascimento e João Gomes de Sá, que participavam de uma feira de Cultura Nordestina no Anhembi.  A partir desse momento, fui encorajado por Marco Haurélio a escrever Chicó, o Menino das Cem Mentiras, minha estreia no mundo do Cordel, daí, acho que despertei para uma vocação que, até então, desconhecia.

Foto: Arquivo pessoal do autor


Tecendo em Reverso- Há em alguns de seus livros uma certa aproximação com o teatro que nos remete à obra de Ariano Suassuna. Qual é o legado que Suassuna deixou ao povo brasileiro?

PEDRO MONTEIRO— Uma riqueza grandiosa. Um mestre no conto, no romance, na poesia e na prosa. Dotado de tino afeiçoado ao humor refinado, mas sem abrir mão da crítica velada às injustiças sociais. Ele transforma o simples em obra de grande erudição. Curioso, ele buscou inspiração nos folhetos de cordéis para brilhar nos palcos teatrais, telas de cinema e televisão. Exemplo: O Auto da Compadecida e A Pedra do Reino, O Príncipe do Sangue do Vai e Volta, entre outras. Uma grande perda para a cultura Brasileira.



A cultura popular
Tem hoje grande lacuna,
A morte sempre inclemente
É uma perversa gatuna,
Fila cristãos e ateus,
Desta vez levou pra Deus
Ariano Suassuna.

Tecendo em Reverso- Atualmente nas grandes metrópoles ocorre um movimento difuso da cultura popular em seus diversos seguimentos, tais como: teatro, música e dança. Como você avalia esse momento?

PEDRO MONTEIRO – Acredito que seja resultante de uma necessidade de respostas, dado a sua importância no contexto cultural de um país, pois ela é o que temos de mais legítimo. Dessa forma, parece valer além do anseio popular, também o acadêmico, onde a Xilogravura, o poeta repentista também vem ganhando mais espaço.



Foto: Arquivo pessoal do autor

Tecendo em Reverso- A sua obra mais recente: “A volta ao mundo em 80 dias” encontra-se inserida no projeto Clássicos em Cordel. Como foi adaptar a obra de Júlio Verne, um dos autores mais traduzidos em todo o mundo?

PEDRO MONTEIRO- Uma responsabilidade e tanta! Uma grande responsabilidade. Primeiro, pela importância do seu autor e dessa obra para a literatura Universal. Depois, por recontar essa história dentro dos padrões necessários para compor a “Coleção Clássicos em Cordel”, coordenada por Marco Haurélio e publicada pela Editora Nova Alexandria.



Tecendo em Reverso – Qual é a sua avaliação sobre a inserção do Cordel no atual “mercado” editorial?


PEDRO MONTEIRO – Acho que, cada vez mais, os leitores vêm descobrindo e tomando gosto pela Literatura de Cordel. Isso, graças a vários fatores, merecendo destaque para a qualidade das publicações:  conteúdo dos textos, gramática, ilustrações mais atraentes e também no formato de livros. Dessa forma, ocupam espaços nas grandes livrarias e salas de leituras, antes, jamais ocupado, ganhando, assim, mais e mais visibilidade. 


Juliana Gobbe

quinta-feira, 7 de agosto de 2014

Aldy Carvalho

Aldy Carvalho é cantor, compositor, poeta e violonista. Das barrancas do Rio São Francisco (Petrolina -PE), mescla e condensa, de maneira particular, o seu universo de origem, o nordeste. A paisagem nordestina em canções não estereotipadas, resulta um interessante diálogo entre o Sertão, que mistura as mazelas euclidianas, o colorido sonoro de Guimarães Rosa, a alegria farsesca de Ariano Suassuna e o meio urbano, cujo eixo é a temática universalizada de Manuel Bandeira. Neste contexto, apresenta seu trabalho.

                                          Fonte: Arquivo pessoal do artista.

Tecendo em Reverso- Quais circunstâncias o levaram a aproximar-se da música?

ALDY CARVALHO – A música me tem desde a gênese, contudo, meu pai, autodidata me aguçou o gosto pelo universo popular: música, a prosa, a poesia, o teatro.

Tecendo em Reverso -  Como nasceu o cordelista Aldy Carvalho?

ALDY CARVALHO – O amigo escritor, pesquisador Marco Haurélio, um dia me soprou aos ouvidos uma mensagem já decifrada. Outro amigo, o professor e historiador Aderaldo Luciano, referendou o assopro e aí eu ensaiei mostrar uns guardados em prosa e em versos que já vinha alinhavando e de uma fornada boa saíram “A ganância de um preguiçoso” e “No reino dos imbuzeiros”.

Tecendo em Reverso - No seu mais recente trabalho “Cantos d’Algibeira” a música nordestina é acompanhada de letras que nos remetem à esperança por melhores momentos. Como foi o processo de criação do cd?

ALDY CARVALHO- É a continuação de um trabalho de longo tempo correndo trecho nessa seara de cantador. O cd anterior “Alforje”, por si só já me indicava que eu iria desaguar em “Cantos d'Algibeira”. O poeta J F Lisboa diz que:

“  É do poeta
Conceber o poema contido no universo
Plantar flores, colher flores, suas pétalas em versos.
É do poeta
Semear em ventos, colher nas brisas,
planos de iluminar o mundo
eternizar o minuto, o segundo
É do poeta
Percorrer caminhos sem fim
Dizer não e dizer sim
Espalhar versos que destronam tiranos
É do poeta.”
Cantos d'Algibeira traz uma mensagem de solidariedade humana.  Após léguas de jornada, o cantador, ciente do seu ofício, missão(  Cantadores são, invariavelmente, possuidores de dons “paranormais” verdadeiros vates, poetas, apontam e prenunciam, diagnosticam,  prognosticam transformações humanas e sociais) vaticinam “...só o amor dá alforria, enche o mundo de alegria, faz a vida ter mais graça”.
                                                                            Fonte: Arquivo pessoal do artista
   
Tecendo em Reverso- Dentre os trabalhos dos cordelistas, existe hoje uma demanda pela divulgação do cordel nas grandes metrópoles. De que forma a Caravana do Cordel tem atuado em São Paulo para promover a Cultura Popular?

ALDY CARVALHO – Caravana do Cordel, movimento lítero cultural criado em São Paulo em 2009 por artistas de diversas regiões do Brasil que, radicados na cidade de São Paulo, buscam promover a literatura de Cordel, trazendo-a para o destaque que esta arte requer. Os participantes do movimento têm levado aos mais diversos espaços: escolas, universidades, circos, praças, bibliotecas, CEUs.

Tecendo em Reverso – Quais são os próximos projetos do artista Aldy Carvalho?

ALDY CARVALHO – A jornada continua na boa peleja, divulgando “Alforje” e “Cantos d'Algibeira”. Em agosto, em Lençóis Paulista – SP, com os poetas João Gomes de Sá e Varneci Nascimento e depois  cantoria em Guaxupé – MG. Em setembro, Petrolina - PE, Curaçá – BA e coquetel de lançamento na Livraria Cortez. Novembro, na casa de Cultura do Tremembé – SP e gravação de dois clips, e a jornada  continuará onde houver um espaço, uma varanda, um alpendre, um terreiro.

Aldy por Aldy:
Eu me chamo Aldy Carvalho
Cantador que tem alume
Meu canto ecoa na serra
Do sopé até o cume
Vento leva a melodia
As rimas da cantoria
Pra não perder o costume...



Contatos: Aldy Carvalho (11) 995134867 / (11) 37429642. Email: pazinko@gmail.com 
Disponível em:

Biografia: Aldy Carvalho


Por Juliana Gobbe

quinta-feira, 10 de julho de 2014

Talita Bordignon

A pesquisadora Talita Bordignon é graduada em História pela Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” – UNESP, campus Franca (2008). Tem mestrado em Filosofia e História da Educação pela Faculdade de Educação da Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP. Atualmente é doutoranda do Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal de São Carlos (UFScar) e leciona na rede estadual de ensino do Estado de São Paulo.
Sua dissertação de mestrado defendida em 2012 teve como orientador o Prof. Dr. José Luis Sanfelice e abordou o seguinte tema: As ações do Estado Brasileiro para o desenvolvimento do ensino industrial no Brasil (1946-1971).
Em entrevista concedida ao Tecendo em Reverso a pesquisadora discorreu  sobre este trabalho.
Ao final da entrevista, o leitor terá acesso ao link da dissertação para a leitura na íntegra.
O blog Tecendo em Reverso parabeniza a pesquisadora Talita Bordignon por esta relevante contribuição para a Educação brasileira.

                                                                                                  Foto: Arquivo pessoal da pesquisadora.





Tecendo em Reverso- Como ocorreu a percepção da necessidade de pesquisar: “As ações do Estado Brasileiro para o desenvolvimento do ensino industrial no Brasil (1946-1971)”?


TALITA BORDIGNON – Inicialmente senti que seria importante analisar os “Acordos MEC-USAID” para a educação profissional. Estes convênios são bastante “famosos” e envolvem questões caras à educação brasileira: o Brasil consentiu a interferência estadunidense em várias áreas, inclusive na Educação. Isto significa que nos deixamos moldar conforme o ideal de mundo capitalista que, na década de 1960 estava representado na figura dos Estados Unidos da América. Ou seja, o Estado brasileiro – articulado ao governo norte-americano – agiu de forma a desenvolver um tipo muito específico de cidadão-trabalhador. Para os governos que atuaram entre 1946 e 1971, as escolas técnicas eram as instituições responsáveis pela formação da grande massa de trabalhadores que faria o país rumar ao desenvolvimento e ao progresso. Estes trabalhadores deveriam, inclusive, ter sua conduta moral ditada pelas fábricas – e pelas escolas que formavam os trabalhadores para elas. Assim se garantiria que a nação brasileira pudesse se desenvolver economicamente.
No entanto, ao analisar os documentos que foram divulgados como Acordos MEC-USAID para o ensino industrial, confirmamos que, na verdade, estes convênios foram firmados com o Banco Interamericano para o Desenvolvimento (BID) e não com a United States Agency for International Development (USAID). Na procura por fontes documentais, nos deparamos com os Boletins da CBAI, uma publicação mensal de responsabilidade da Comissão Brasileiro-Americana para o desenvolvimento do Ensino Industrial (CBAI). Neste periódico estão expostos, claramente, quais eram os objetivos dos governos e da classe de industriais que participavam da gestão dos recursos que deveriam ser aplicados no ensino técnico-industrial brasileiro do período. Ali se expõe como se delinearam, portanto, as ações do Estado brasileiro para este ramo de ensino.


Tecendo em Reverso -De que forma os acordos MEC- USAID influenciaram a educação brasileira?


TALITA BORDIGNON – Os governantes brasileiros, quando buscaram ajuda financeira para realizar o que julgavam necessário, se dispuseram a alinhavar os montantes à ideologia do bloco que o emprestavam. Ou seja, os convênios transplantaram a ideologia capitalista estadunidense para a cultura e a sociedade brasileira – por meio das escolas, dos livros, dos educadores de lá que vinham para cá e dos educadores brasileiros que frequentaram cursos em território norte-americano. Não se pode esquecer que naquele contexto de Guerra Fria, estavam se digladiando dois blocos antagônicos: de um lado a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), representando o comunismo e de outro, os Estados Unidos da América, em defesa do capitalismo. Os EUA, como não poderia deixar de ser, agiram de todas as maneiras para assegurar a implantação do capitalismo em todo o mundo – inclusive emprestando valores para o desenvolvimento dos países cujos governos apresentavam inclinações à sua maneira de enxergar o mundo, como é o caso do Brasil.


Tecendo em Reverso - Em que medida a organização da escola, como lemos na sua dissertação, acompanhou “a movimentação do capitalismo internacional”?


TALITA BORDIGNON – Veja... as escolas ambicionavam formar cidadãos que se comportassem e pensassem de acordo com os ditames do capitalismo. Isto significa que, enquanto cidadãos a serviço do país onde vivem, deveriam trabalhar sem fazer maiores questionamentos à ordem. Não era importante que organizassem a produção coletivamente, por exemplo; era mais relevante que realizassem as tarefas que lhe são impostas, individualmente. As escolas técnicas orientavam os alunos – futuros cidadãos-trabalhadores – a agirem e se comportarem desta maneira. Não havia necessidade de pensar; apenas realizar tarefas isoladas para elevar o país à condição de potência econômica. Afinal de contas, quando se adota a divisão social do trabalho, se garante maior produtividade. Neste sentido, quaisquer ações que favorecessem  a  organização  do  mundo  do  trabalho  e orientassem a consolidação do capitalismo seriam bem-vindas: os princípios tayloristas de racionalização do trabalho embalaram os rumos do ensino técnico industrial e do cotidiano das fábricas. Isto é, cada trabalhador deveria ser responsável por apenas uma determinada tarefa na produção daquele produto e as escolas técnicas eram as instituições onde se ensinava isto.


Tecendo em Reverso - Como se deu à época a atuação da burguesia nacional atrelada ao grande capital?


TALITA BORDIGNON – A burguesia internacional associou-se à nacional para gerir os recursos advindos dos Estados Unidos e do Brasil. A burguesia de ambos os países está personificada na figura da CBAI: para administrar os valores, foi criada a comissão que, por sua vez, era formada por membros dos dois países. Muito além de financiar,  os convênios  se  encarregaram  de  transformar  a  vida  e  a  cultura  da  sociedade  brasileira, isto é, a cooperação internacional articulou os níveis econômico, político e cultural. Ademais, esta troca não teria se dado se as elites não estivessem dispostas a consenti-la.  Em nome do desenvolvimento, as  classes  dominantes  fizeram  da  cooperação  bilateral  a justificativa para associar o seu capital ao internacional.  Pode-se falar em  agentes  sociais  que  procuravam  modernizar  conservando  a ordem, principalmente após o golpe civil-militar do Movimento de 1964.



Espaço da pesquisadora: Desejo ter contribuído para a reflexão acerca dos acordos internacionais que o Brasil fez e continua fazendo para a educação. Atingir índices pré-fixados por organismos internacionais e seguir e adotar pedagogias vazias de sentido nem sempre é uma alternativa válida. O que deu certo em outros países, não é garantia de sucesso para a educação brasileira.






Juliana Gobbe


quinta-feira, 3 de julho de 2014

Adailton Alves Teixeira

Adailton Alves Teixeira é Diretor, ator, palhaço e professor de teatro. Graduado em História pela UNICSUL; mestre em Artes - Área de Concentração: Artes Cênicas, pelo Instituto de Artes da UNESP, com a pesquisa sobre o território e a identidade como norte do processo de criação para o teatro de rua. É membro fundador do grupo Buraco d`Oráculo, do Movimento de Teatro de Rua de São Paulo, da Rede Brasileira de Teatro de Rua e do Núcleo Brasileiro de Pesquisadores em Teatro de Rua.

Foto: Arquivo pessoal do artista.


Tecendo em Reverso - Em quais circunstâncias se deu a criação do Buraco d’Oráculo? Qual é o referencial estético do grupo?

ADAILTON ALVES TEIXEIRA – O grupo surgiu em 1998 em um projeto coordenado por João Carlos Andreazza, na Oficina Cultural Amácio Mazzaropi; tratava-se da criação de um núcleo de teatro de rua, com aulas de interpretação, expressão corporal, criação musical etc. e ao terminar uma montagem teatral. Teve a duração de dez meses. Esses processos quase não se veem mais...
Depois o grupo passou por outro projeto, o Ademar Guerra, sendo orientado por Ednaldo Freire, diretor da Fraternal Cia. De Artes e Malas-Artes. Esses dois processos são fundantes e fundamentais na história do grupo. O primeiro mostrou a rua como possibilidade cênica e o segundo nos aproximou da estética popular, consequentemente, de um público que não frequentava as salas de espetáculos.


                                                           Foto: Divulgação


Tecendo em Reverso - Suas pesquisas na Unesp direcionavam-se pelo viés do “território e a identidade como norte do processo de criação para o teatro de rua”. Como você avalia a atuação dos coletivos artísticos atualmente nas ruas das grandes cidades?

ADAILTON ALVES TEIXEIRA – Os coletivos de teatro de rua são essenciais nos grandes centros urbanos e também nas pequenas e médias cidades, por muitos motivos. Destaco alguns: a possibilidade de acesso da arte teatral; a ressignificação dos espaços públicos abertos, o que faz com que os cidadãos se relacionem com sua cidade de outra maneira, criando afetividade com os locais das apresentações; nas cidades pequenas, em geral, não há edifícios teatrais, então aí, a praça torna-se fundamental como local de encontro e das trocas simbólicas.
Hoje, cada vez mais é preciso olharmos com atenção a questão do território, na medida em que a própria cidade se torna uma mercadoria, então a arte entra também na disputa de que cidade se deseja, que se quer. E, claro, isso também acaba norteando, influenciando os processos de criação dos grupos. Mas não tem sido fácil, na medida em que a cidade entra na lógica mercadológica, começa a perseguição aos artistas populares e temos visto isso ocorrer em diversas cidades grandes e pequenas, bem como em metrópoles como Rio de Janeiro e São Paulo. A disputa pelo espaço é diária. Então, entender o que é território na atualidade é importante tanto para quem faz arte, quanto para aqueles que apenas se relacionam com ela, que fruem.

                                                            Foto: Divulgação

Tecendo em Reverso - Como foi concebida a “Ópera do Trabalho”?

ADAILTON ALVES TEIXEIRA – Ópera do Trabalho é o último espetáculo do Buraco d`Oráculo, criado em 2013, mas que vem de um processo anterior. No grupo, um projeto acaba desencadeando no seguinte, isto é, uma determinada pesquisa que estamos realizando, seja teórica ou estética, acaba sempre tomando outros desdobramentos. Isso ocorreu com a Ópera do Trabalho. O grupo vinha pesquisando a história de algumas comunidades do extremo leste da cidade de São Paulo para a construção de outro espetáculo, isso nos levou a questão da precarização do trabalho na contemporaneidade. Por outro lado, a música sempre esteve presente em nossos estudos e queríamos verticalizar essa pesquisa. Então aliamos essas duas pesquisas, ao mesmo tempo em que abrimos espaço para outras pessoas, isto é, criamos oficinas de formação para criarmos um espetáculo com mais pessoas além dos integrantes do grupo.
Todo o processo foi coletivo, como tem sido tudo o que temos feito, pessoas do projeto e mesmo de fora contribuíram com criações, dicas, conversas, críticas... É um espetáculo em que a dramaturgia está organizada pela música, o que é um caminho novo para o grupo e, em certa medida, no teatro de rua. A experiência de um teatro musical não é nova, já foi muito experimentada, mas na rua, não se sabe de muitas experiências nesse sentido. Então estamos colhendo as dores e as alegrias desse processo.

                                                     Foto: Divulgação

Tecendo em Reverso - Qual é a influência de Brecht no teatro épico brasileiro?

ADAILTON ALVES TEIXEIRA – Embora Brecht tenha chegado ao Brasil pela via comercial, mas uma ideia fora do lugar como tantas outras, rapidamente ele é apropriado pelo Teatro de Arena, que começa a experimentar e a disseminar as proposições do teatro épico. Hoje, todos os grupos utilizam procedimentos épicos, ainda que não sejam, necessariamente, brechtianos, ou seja, os grupos utilizam procedimentos estéticos característicos do teatro épico estudados por Brecht e Piscator, mas não necessariamente fazem um teatro em que a função social está em seu horizonte, isto é, nem sempre há preocupação com o desvelamento da sociedade em que vivemos.
Quanto ao teatro de rua, este é épico por definição, na medida em que não é possível fazer um teatro de rua fechado, sem relação direta com o público, etc., mas isso não significa também que todo teatro de rua desenvolva propostas cênicas preocupados com o tempo presente e nossas relações sociais. Nesse sentido, a importância de Brecht vem no sentido de mostrar como olharmos a sociedade, as relações sociais em que estamos todos envolvidos. A rua, nesse sentido, ganha outra importância, pois está em um espaço, em tese, de todos. O teatro que se coloca aí precisa ter a consciência da importância da disputa do imaginário das pessoas que se deparam com a obra artística.


Conheça o trabalho do artista:




Juliana Gobbe


terça-feira, 10 de junho de 2014

ANGELA MENDES DE ALMEIDA

O blog Tecendo em Reverso inicia hoje uma série de entrevistas sobre os 50 anos do golpe civil-militar no Brasil. A nossa primeira entrevistada é Angela Mendes de Almeida (Militante do Coletivo Merlino).
Luiz Eduardo da Rocha Merlino destacava-se nos anos 60 por seu brilhantismo como jornalista na Folha da Tarde, Jornal do Bairro e no jornal alternativo Amanhã. O jornalista militava bravamente contra a repressão que se instalava no país. No dia 15 de julho de 1971, Merlino foi levado para o DOI – CODI de São Paulo e submetido a tortura que o levou à morte.
A ditadura encerrou-se oficialmente no Brasil em 15 de março de 1985, porém, suas formas de opressão ainda hoje estão presentes no cotidiano do povo brasileiro.





                                                              Foto: Juliana Gobbe





Tecendo em Reverso- Como se deu sua militância política à época da ditadura?

ANGELA MENDES DE ALMEIDA - A minha trajetória é semelhante à da minha geração de militância, pois ocorreu através do movimento estudantil. Em 64, quando houve o golpe, eu tinha entrado na Faculdade de Direito da USP, na qual cursei apenas um ano. Posteriormente prestei um vestibular que à época constituía-se num  processo de entrevistas e prova escrita. Entrei para o curso de Ciências Sociais que funcionava na Rua Maria Antônia (São Paulo) .
No começo, no período entre os anos de 1964 e 1968, notava-se a repressão voltada principalmente para os sindicalistas, depois vai aos poucos se amainando.
Começam aí a pesar fatores culturais, tais como as peças do Teatro Arena e o show Opinião. No movimento estudantil surge a discussão de ideias, e, apesar das poucas informações que vinham de fora, uma série de ocorrências internacionais faz com que  as pessoas oriundas desse movimento se radicalizem  e entrem para organizações que naquele momento eram clandestinas. Eu tive uma breve passagem pelo PCB, mas divergi em relação a algumas situações e me filiei à POLOP que existia desde 1961 e naquele momento definia que o processo aqui no Brasil teria que ser pensado como  uma revolução socialista.

Tecendo em Reverso - O fato dos processos da ditadura serem atualmente divulgados na internet é de alguma forma um ponto positivo na conscientização da nova geração que tiver acesso a eles?

ANGELA MENDES DE ALMEIDA - Quando se fala de processos atuais, temos que distinguir dois tipos de processo. O processo que eu, viúva de Luiz Eduardo da Rocha Merlino, assassinado no DOI-CODI em julho de 1971, e Regina Merlino, sua irmã, movemos contra o coronel Carlos Alberto Brilhante Ustra, responsabilizando-o pela morte dele  é um processo na área cível. Esse tipo de processo utiliza-se de meandros para se chegar ao assunto em questão. Na verdade deveríamos estar movendo o processo na área criminal e desde o término da ditadura. Ocorre aí um grande empecilho, trata-se da Lei de Anistia do ano de 1979, que foi interpretada como sendo uma anistia também para os torturadores. Essa interpretação desembocou numa espécie de complô de silêncio entre os setores dominantes, inclusive entre aqueles que se denominavam  esquerda naquela época. Não se falava mais no assunto. Depois de 1985 o projeto da esquerda via PT era a eleição do Presidente Lula. Penso que o fato desta esquerda ter jogado todas as suas fichas na via parlamentar, fez com que se imaginasse que após a eleição tudo que havia ficado em aberto sobre os crimes da ditadura seria resolvido.  Mas não foi isso que aconteceu. A dificuldade em tratar deste assunto deu lugar a um silêncio doloroso para a maior parte de familiares dos mortos e desaparecidos, pois não havia espaço para falar.
Muitos processos na área cível foram movidos contra o Estado brasileiro por parte das famílias atingidas pela ditadura, mas entre 2005 e 2006 a família Teles moveu, na área cível, o primeiro processo contra o coronel torturador Carlos Alberto Brilhante Ustra. Nós, inspirados por esse processo, também o fizemos na intenção de declarar a responsabilidade de Ustra pela morte de Luiz Eduardo da Rocha Merlino.
No nosso caso, na primeira instância do processo, o coronel Ustra apresentou ao Tribunal de Justiça um embargo. Isto fez com que houvesse em 2008 três sessões de julgamento que foram muito desgastantes e eles concluíram que não discutiriam o mérito da questão que é a tortura e a morte, mas simplesmente defenderam  a não adequação da forma “ação declaratória”, que nossos advogados haviam usado. Sugeriu-se  então, sutilmente, que fizéssemos uma “ação por danos morais”. Primeiramente  ponderamos com nossos advogados, pois  toda ação por dano moral requer um pedido de  indenização material. Posteriormente aceitamos deixando o valor da indenização a critério do juiz. Obtivemos já, na primeira instância, uma decisão favorável.
Quanto aos processos na área criminal movidos pelo Ministério Público Federal, existem vários que foram arquivados, pois o Poder Judiciário interpreta que a Lei de Anistia impede-os. Recentemente alguns desses processos têm sido aceitos pelo Poder Judiciário em casos de desaparecidos políticos.
Todos esses processos permitiram que a imprensa falasse sobre estas questões. Aí chegamos ao fim da sua pergunta que é  se, através desses processos, a população fica sabendo um pouco da história que foi silenciada com esse complô do silêncio .É verdade, através deles a imprensa fala dessa história.

Tecendo em Reverso – Como foi  sua convivência política com Luiz Eduardo Merlino, bem como o processo de criação do Coletivo  e os objetivos do grupo?

ANGELA MENDES DE ALMEIDA – Na minha convivência com Merlino juntou-se afeto e militância, pois nos conhecemos nas assembleias estudantis, e assim como eu, ele também militava na POLOP. No início do relacionamento não morávamos na mesma casa, em parte por questão de segurança, até que começamos a viver juntos e a nossa casa tornou-se um aparelho da organização.
Depois do AI 5 vivenciamos um período duro de prisões e desaparecimentos de vários companheiros.
 Fomos então contactados por um companheiro brasileiro que militava na França, na Liga Comunista Revolucionária que era uma organização da Quarta Internacional. Este amigo nos convidou para fazer um estágio de seis meses na França, onde teríamos um contato maior com uma literatura de esquerda e sobretudo com movimentos de outros países, e particularmente com companheiros da Argentina, pois existia lá o PRT (Partido Revolucionario de los  Trabajadores).  Ao fim desse estágio nós dois voltaríamos ao Brasil e os demais companheiros para a Argentina. Merlino veio antes, pois eu estava clandestina e ele queria preparar a minha volta. Ele estava de posse dos seus documentos legais, inclusive passaporte, de maneira que entrou legalmente no país. Ao chegar no Brasil foi passar uns dias na casa da mãe dele em Santos. Houve então uma coincidência trágica, alguns companheiros foram presos e um deles sabia quem era o Nicolau (nome de guerra de Merlino)  e também onde morava a família dele. É que os repressores da ditadura conheciam a existência de um Nicolau mas não sabiam ainda quem era ele. A história da tortura dele foi uma barbárie. Resumidamente, ele permaneceu  no pau-de- arara sendo torturado por cerca de 24 horas, depois foi jogado numa cela solitária e lá ficou. Em dois dias uma gangrena poderosa tomou conta de sua perna, até ele ser retirado e levado para um hospital, onde veio a falecer. A família só conseguiu a entrega do corpo dele, porque sua irmã era casada com um delegado de polícia que exigiu que o corpo fosse entregue.
O Coletivo Merlino na verdade é um grupo simples, família e mais algumas pessoas amigas que se juntam a nós nas tarefas. Todas as decisões são tomadas coletivamente.
A revista Merlino Presente é financiada com as indenizações que recebemos dos governos estadual e federal pelo assassinato de Merlino. É preciso deixar claro que estamos à espera do julgamento  da segunda instância do processo, no Tribunal de Justiça.

Tecendo em Reverso – Como ocorreu a criação do site Observatório das Violências Policiais?

ANGELA MENDES DE ALMEIDA - Isso foi uma iniciativa minha. Eu militava no grupo Tortura Nunca Mais e houve  um tempo em que o grupo estava muito voltado para as reparações na Comissão da Anistia e pouco se falava do que está acontecendo hoje, ou seja, a tortura continua. E eu também queria um site em que pudéssemos homenagear o Luiz Eduardo Merlino, pois até então pouco se falava nele. Então, com alguns companheiros, já fora do GTNM-SP, criamos o site.
 Em 2006 a  professora Vera Lucia Vieira tomou conhecimento do trabalho e associou o Observatório ao Centro de Estudos de Historia da América Latina, da PUC. A partir daí nós fizemos  trabalhos sobre a violência atual com os alunos dessa Instituição. Durante muito tempo este site foi um instrumento de denúncia da violência atual.

Tecendo em Reverso -  Há vontade política no Brasil  para a desmilitarização da polícia?

ANGELA MENDES DE ALMEIDA -  Existe uma mentalidade na polícia, que é também da sociedade brasileira, de achar que existe um inimigo interno que são as populações pobres e negras das periferias e favelas. Ali a polícia  encontra sempre um “suspeito”. Os programas policialescos de fim de tarde também condicionam a sociedade a pensar dessa forma. Temos que ultrapassar estes obstáculos.



Por:Juliana Gobbe