terça-feira, 15 de março de 2016

Evandro Medeiros

Nos últimos anos o Brasil assiste a uma expansão do cinema documentário. Ali e acolá vão surgindo nomes que aos poucos ganham espaço em meio aos filmes comerciais.
O nosso entrevistado Evandro Medeiros é diretor e ao mesmo tempo produtor de seus filmes. Em sua carreira estão presentes: Dezinho: Vida, Sonho e luta, Ubá, um massacre anunciado e, mais recentemente Escola Quilombo.
O diretor tem como foco em seus filmes as questões sociais tão caras ao norte e nordeste do país. Com sensibilidade afastada da pieguice com que são tratados temas como estes, nos filmes de Evandro vislumbramos a poesia de trechos oriundos da tristeza que emana do real.
Evandro Medeiros também é Professor na Universidade Federal do Sul e Sudeste do Pará [UNIFESSPA] e organizador do Festival Internacional Amazônida de Cinema de Fronteira.




                                                                                                            Foto: Arquivo pessoal do diretor.

Tecendo em Reverso - Quais são as diretrizes pedagógicas que orientam o trabalho do Grupo de Estudos e Pesquisas em Educação do Campo [ Campus Universitário de Arraias – UFT]?

EVANDRO MEDEIROS – O Grupo de Estudos e Pesquisa em Educação do Campo [UFT – Campus de Arraias] faz parte de uma rede nacional de pesquisa em Educação do Campo, vinculados ao Programa Observatório da Educação do Campo da Secretaria de Educação para Diversidade [SECADI – MEC] e a CAPES. De modo geral o grupo tem como objetivo levantar dados sobre as escolas rurais, suas condições materiais, práticas pedagógicas, formação dos professores, experiências curriculares, etc. De modo a produzir possibilidades de diálogo sobre tal realidade no âmbito dos cursos de licenciatura e secretarias de educação, colocando em debate os problemas enfrentados e inovações criadas pelos professores, alunos e comunidades das escolas pesquisadas, para que assim possamos criar movimentos de elaboração de políticas educacionais que ajudem na transformação da realidade destas escolas.

Tecendo em Reverso – Como se deu a concepção do documentário “Escola Quilombo”?

EVANDRO MEDEIROS – O documentário foi pensado como mais um instrumento de enriquecimento da pesquisa, que pudesse ajudar na captação das falas-imagens de professores, alunos e comunidades sobre a realidade e cotidiano pedagógico das escolas rurais em área de quilombo no município de Arraias-To. Enriquecedor da pesquisa porque é um instrumento de apelo antropológico, pois registra a realidade observada pelos pesquisadores e a descreve por meio das imagens de vídeo de modo a permitir que os espectadores possam entrar na realidade pesquisada e construir suas próprias percepções sobre ela, ao passo que sentem tal realidade pelas falas, gestos e emoções manifestas pelos depoentes enquanto narram as questões relativas a escola e a vida na comunidade. Então, pensando assim essa relação entre o filme e a pesquisa, de modo que os resultados da pesquisa fossem ilustrados para além de um mero relatório, desejando produzir dados-informações que pudessem alcançar um público mais amplo e de maneira dinâmica, acessível a todos, independentemente da escolaridade, lugar de vida e trabalho, é que nasceu a ideia de fazer o documentário Escola Quilombo. Em sua concepção estético-fílmica o documentário tem uma ordem simples: trabalhar com as narrativas de professores, alunos e comunidade de modo a mostrar a escola segundo a concepção de quem a vive e filmado a partir de uma convivência em meio ao cotidiano pedagógico da escola.

Tecendo em Reverso- Através desta produção quais foram as maiores dificuldades levantadas no cenário educacional do norte do país?

EVANDRO MEDEIROS – Pobreza, precariedade material, baixos salários e insegurança profissional , professores não são concursados, o personagem do filme trabalha faz 20 anos como contratado, falta de acompanhamento pedagógico, professores sem formação acadêmica, currículos padronizados pela perspectiva urbanocentrica, formação continuada descontextualizada e não pautada pelas demandas do professor, alunos e comunidade.




                                                                                          Evandro e Alexandra Duarte (Diretora de Fotografia).
                                                                                                                                                               Foto: Arquivo pessoal do diretor.

Tecendo em Reverso – Sabe-se que no Brasil há um lastro razoável de produções fílmicas documentais, no entanto, a escola brasileira ainda mostra problemas quando apresenta filmes em sala de aula. Muitas vezes os professores sentem-se despreparados para a preparação de um plano de aula que contenha filmes. Como você analisa este panorama?

EVANDRO MEDEIROS – De modo geral os professores brasileiros possuem uma fragilidade  profissional no que tange ao uso de tecnologias educacionais em geral,  do trabalho com computadores ao uso de filmes em suas aulas, estes muitas vezes são usados sem conexão devida com as demais atividades curriculares e aulas, acabam sendo atividades em si. No caso de material audiovisual muitas vezes acaba sendo o filme pelo filme, falta formação direcionada para isso, óbvio, mas falta também as secretarias de educação de estados e municípios acreditarem na importância pedagógica dos filmes e outros produtos artístico-culturais  e tecnológicos, fomentando a produção desses materiais e seu uso pedagógico, assim como fomentando a produção deles através da escola, da comunidade escolar. Vivemos uma tradição arcaica da “aula monológica e quadro de giz”, em que só o professor fala e as crianças copiam, algo intolerável num tempo de avanços científicos e tecnológicos, algo intolerável em comunidades de tanta riqueza cultural e histórias, falta criatividade e estimulo a criatividade, falta estimular os alunos ao protagonismo na produção de conhecimento. Isto ocorre porque os professores também não foram “ensinados” a serem protagonistas na produção de conhecimento e uso de tecnologias para tal fim. Os professores não foram empoderados como intelectuais de suas práticas, como faz o professor Adão, personagem do filme, talvez porque não querendo que as crianças passem por tudo aquilo que ele mesmo passou na infância e profissionalmente abandonado e isolado na comunidade, se sente impulsionado a ser senhor das soluções aos limites que a realidade lhe impõe.

Tecendo em Reverso- Percebe-se que a temática social se faz presente nas suas produções audiovisuais. O que o levou a esta escolha?

EVANDRO MEDEIROS – Minha história de vida, a história de minha mãe e tios, que na infância viveram realidades parecidas com as da comunidade quilombola apresentada no filme, a trajetória de luta deles para ter acesso a direitos e criar os filhos com mais qualidade de vida, a história das pessoas pobres dos lugares por onde morei, desde pequeno observando as realidades de injustiça, miséria, exclusão social, mortes por violência ou descaso do poder público e todo tipo de tragédia que abate principalmente aqueles que menos possuem condições de se defender. Essas experiências me formaram, forjaram minha sensibilidade estética, meu compromisso ético, minha perspectiva e personalidade profissional. Fui alfabetizador de adultos, trabalhei com meninos de rua, ministrei aula em escolas públicas de periferia, colaborei com a organização de agricultores sem terra, ajudei organizar projetos de escolas para jovens agricultores, me tornei professor de universidade e todas essas experiências somadas ao desejo de realizar uma prática artística me fizeram produtor audiovisual.


                                                         Filme: Escola Quilombo






terça-feira, 22 de dezembro de 2015

No limite dos nós não desfeitos.


 Foto: Tamyris Zago

O romance “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos , foi publicado no Brasil em 1938. A narrativa centra-se em retirantes sertanejos do nordeste do país que perpetuam em sua trajetória um ciclo de miséria decorrente da seca.
O autor nesta obra, como em outras de sua autoria faz presente ao seu leitor o cuidado na escolha acertada de cada palavra, bem como, na dialética entre forma e conteúdo. Num percurso em que a violência subtraída da realidade faz de Vidas Secas um clássico, cuja atualidade, estimulou os descendentes (netos) de Graciliano a comparar o livro com a situação dos milhares de refugiados que perambulam hoje pelo  mundo. Razão lhes cabe.
A tragédia engendrada pelo escritor alagoano não acontece há pouco tempo. É fruto de séculos de opressão do capital e da propriedade privada nas mãos de poucos. A história se repete através dos tempos, mostrando-se bem parecida com essa pela qual passam os homens, mulheres e crianças da Jordânia, Líbano, Turquia e Síria que deixam esses lugares, não pela seca latifundiária, mas pelas guerras e opressões constantemente reafirmadas por parte dos truculentos governos invasores.
A mídia, muitas vezes não confiável, atesta que mais de 350.000 mil pessoas tenham deixado seus lares em 2015 em busca de uma vida menos atormentada. Muitas chegam ao Brasil com formação universitária, porém sem condições de arrumar em prego por conta da não fluência na língua local.
Coletivos são criados, como por exemplo, o Abraço Cultural ( homônimo do nosso coletivo criado em 2009) para dar conta deste déficit  e ensinar idiomas às pessoas oriundas de outras localidades.  Mas, as coisas seguem insuportáveis, visto que as instituições estatais trabalham ainda com o velho e garantido sistema de doses homeopáticas, no que diz respeito às medidas realmente eficazes relacionadas ao bem - estar dos refugiados.
É importante ressaltar aqui que a saída de forma abrupta de seus locais de origem fomenta questões nem sempre aventadas pelos Fabianos e Sinhás Vitórias, pois estes, muitas vezes desconhecem que por trás das guerras e secas encontra-se a atuação  do capitalismo, isto é,  um sistema econômico contemplador da riqueza para poucos com base na exploração de muitos e, que aos poucos vai destruindo não só o planeta, mas boa parte de seus moradores. A precarização do trabalho e a miséria estão presentes cada vez mais no modo de produção engolidor de gente.
Graciliano mostrou através de Vidas Secas o que existe para além do lenga-lenga açucarado dos romances alienantes. A pós-modernidade tem romanceado a realidade sobremaneira, trabalhando alegoricamente com o que realmente importa.
A imitação e a conformidade configuram-se como a arte destes tempos difíceis, pois o que se vê por aí ultimamente é a mais completa imbecilização dos seres humanos (das pessoas). Nunca houve tanto circo, no pior sentido que esta palavra possa adquirir.
Quem trabalha com a realidade leva logo a pecha de panfletário, pois o que sustenta a humanidade é a ilusão. Pena.
Dessa forma, apaga-se sutilmente qualquer horizonte de luta, pois no lugar deste nos é dada a fanfarrice e os momentos puramente dionisíacos que, se por um lado nos elevam por alguns instantes, por outro atrofiam nossa reflexão mais profunda acerca da vida.
Porém, nem tudo está perdido neste período de art pour l’art. Animei-me outro dia ao assistir uma adaptação para o teatro  de Vidas Secas feita pelos atores da Companhia Teatral: Caravan Maschera. Trata-se da italiana Giorgia Gold e do brasileiro Leonardo Garcia. Ambos, atores da Companhia.
Num espetáculo orientado somente por gestos e, obviamente, pela supressão das palavras, os atores conseguiram enredar o público num processo altamente criativo e crítico. Partindo-se de provocações necessárias, a não voz dos personagens incomodou a plateia o suficiente para a produção de questionamentos relevantes sobre a  própria existência.
Não posso deixar de mencionar um outro grande autor brasileiro: João Guimarães Rosa que em seu livro de contos Primeiras Estórias, escreve “A Terceira Margem do Rio”, narrativa que tece o abandono da casa por um pai que aparentemente fica “louco” e vai morar numa canoa naquilo que transformar-se-ia na terceira margem.
Há alguns anos, Caetano Veloso e Milton Nascimento compuseram uma música também chamada “A Terceira Margem do Rio”. Nela, temos: “Asa da palavra / Asa parada agora / Casa da palavra / Onde o silêncio mora / Brasa da palavra / A hora clara nosso pai”.
Transcrevo o trecho da letra, pois quando vi a encenação da obra de Graciliano, me lembrei da música de Caetano e Milton...pensei no silêncio e, também no “silenciamento” a qual é constantemente submetida a população marginalizada.
Em linhas gerais, o que escreveu o determinista Euclides da Cunha em “Os sertões”, continua válido: “O sertanejo é, antes de tudo, um forte”.
Avante Caravan Maschera! Merda procês!

Juliana Gobbe


quarta-feira, 16 de dezembro de 2015

Antônio Carlos Maciel


O pesquisador Antônio Carlos Maciel é graduado em Filosofia pela Universidade do Amazonas (1983), tem também graduação em Pedagogia pela Fundação Universidade do Amazonas (1985) com especialização em Inovação Tecnológica pela ISAE/FGV (1995). Possui mestrado em Educação pela Universidade Federal do Amazonas (1992). Possui doutorado em Desenvolvimento Socioambiental pela Universidade Federal do Pará (2004). Atualmente é Pós-doutorando em Educação pela UFOPA /UNICAMP.

Confiram a entrevista com o pesquisador:


terça-feira, 1 de dezembro de 2015

Socorro Lira

Por Juliana Gobbe

Socorro Lira é uma artista de muitos instrumentos. Além de cantora é poeta. Extremamente preocupada com os rumos da vida social brasileira, a artista tem uma ativa participação nas redes sociais e fora delas.
Em 2012 foi agraciada com o mais importante prêmio da música na23ª edição do Prêmio de Música Brasileira.
Recentemente lançou o EP: Os Sertões do Mundo e o livro de poesias : A Pena Secreta Da Asa.
A sessão de autógrafos do livro com recital de poesias acontece hoje na Casa das Rosas em São Paulo às 19horas.
Sua voz dispensa comentários, pois trata-se de um canto bem elaborado e rico de uma sensibilidade genuinamente brasileira. O blogue Tecendo em Reverso conversou com a artista sobre sua carreira.

Confiram:


Tecendo em Reverso - De que maneira o aboio (canto dos vaqueiros) influenciou a menina Socorro Lira no interior da Paraíba?

SOCORRO LIRA – Minha mãe decorava o canto dos vaqueiros (não me lembro de ter vaqueiras) e cantava em casa. Ela gosta muito. E eu ouvia isto de minha mãe ou vindo da mata branca (caatinga). Morávamos na roça. Era um som que vinha de longe em todos os sentidos. Mágico.


                                                 Foto: Arquivo pessoal da artista.

Tecendo em Reverso - Como nasceu a poeta Socorro Lira? Conte-nos um pouco sobre seu mais recente trabalho: A Pena Secreta Da Asa.

SOCORRO LIRA – Nasceu ouvindo poesia cantada, poesia dita, brincando de fazer rima, as brincadeiras de criança tinham poesia, como esta: “lua, luinha / me dê pão com farinha / pra eu dar à minha gatinha / que tá presa na cozinha (Que maldade “prender” a gatinha, mas era só no verso... risos).
Este livro nasceu de uma necessidade minha de organizar meus poemas e lhes dar atenção. É importante organizar e dispor para quem quiser ler (poesia) e ouvir (canção). Aí, a Uka Editorial publicou. Isso foi muito bom, permitiu uma edição bacana.


                                                    Foto: Arquivo pessoal da artista.

Tecendo em Reverso - O documentário Aqui tem coco – Um dia em Caiana dos Crioulos insere-se no projeto Memória Musical da Paraíba. Quais outras atividades estão ligadas a este projeto?

SOCORRO LIRA – Além desse documentário, produzimos 2 CDs com o cancioneiro tradicional de Caiana; o CD Pedra de Amolar, homenagem ao compositor Zé Marcolino e com participação de Sivuca, Marinês, Dominguinhos, Vital Farias e mais um time de artistas; e o álbum Lua Bonita onde interpreto a obra de outro paraibano, outro Zé, Zé do Norte. Ganhei o Prêmio da Música Brasileira com este, em 2012. Tenho bastante coisa registrada que poderá ser publicada ainda. Falta perna.

Tecendo em Reverso - Em que medida a premiação como melhor cantora regional na 23ª edição do Prêmio de Música Brasileira trouxe ao público um contato mais intenso com o que se produz hoje no nordeste?

SOCORRO LIRA – Creio que seja, esta, a mais importante premiação da música brasileira. Sou grata, ajudou bastante. Trata-se de um reconhecimento importante que nos motiva a continuar. Um prêmio serve para animar, tornar publica e afirmar uma trajetória ou uma obra, dentro de um determinado alcance. No mais, a vida segue normalmente.

Tecendo em Reverso - Quais foram as motivações que a levaram a oferecer ao seu público  Os Sertões do Mundo em formato EP?


SOCORRO LIRA – Uma gravação de Dominguinhos na música Fino Poema, que entraria num CD anterior, mas não foi possível. Guardei-a e dela me veio o  nome Os Sertões do Mundo. Pensei que esta canção que fiz para ele, Dominguinhos, e que tem sua sanfona, merecia um lugar especial. Lamento não ter pedido para ele cantar também. Infelizmente.
Depois, um tempo que passei na África, em 2011, trouxe-me o desejo de traçar um paralelo, através da canção, entre o sertão nordestino e o da África do Sul, por exemplo. Como se não houvesse um oceano entre nós. E o fato de sermos uma única espécie que habita esse planeta é um bom motivo. Nunca é demais lembrar-nos disto. Meu encontro com Mia Couto, em Maputo, e ele me dando um livro e falando de parceria também me animou a buscar mais a poesia africana, que é linda. Poema Didáctico é nossa primeira parceria.


                                                     Foto: Arquivo pessoal da artista.


Tecendo em Reverso - Percebe-se nos seus perfis nas redes sociais, uma grande preocupação com os rumos da política no Brasil.Qual é a importância dos artistas nessa espécie de engajamento com as questões que envolvem a sociedade como um todo?

SOCORRO LIRA – Antes de ser artista, sou cidadã. E gostaria que o mundo fosse digno para todo mundo, em toda parte. Quando comecei a compor e cantar eu já era engajada nos movimentos sociais, na Paraíba. Participei de política estudantil na escola e na universidade. A arte é só um jeito de eu dizer o que penso e sinto do mundo, da vida. O resto é a própria vida.



terça-feira, 3 de novembro de 2015

Luiz Carlos Bahia

Por Juliana Gobbe



Luiz Carlos Gomes Borges, mais conhecido como Luiz Carlos Bahia nasceu em Salvador (BA). Com uma trajetória artística ampla e variada, passou por praticamente todas as grandes emissoras brasileiras. Atuou também no cinema. Trabalhou com Antônio Abujamra. Compôs músicas e, ultimamente tem se dedicado, além da TV à produção de curta-metragens. Em entrevista ao nosso blogue o artista fala um pouco mais sobre sua carreira.



Foto: Arquivo pessoal do artista.




Tecendo em Reverso – Morte e Vida Severina é o retrato fiel da situação precária na qual vive ainda hoje grande parte do povo nordestino. Como foi interpretar a obra de João Cabral de Melo Neto no teatro sob direção de Eduardo Curado?


LUIZ CARLOS BAHIA – Participar de “ MORTE E VIDA SEVERINA “  foi  muito importante para mim . O teatro estava em um momento muito bom, muitas produções com teor literário , brasileiro , fantástico. Ter contato direto com o poema de João Cabral de Melo Neto ,não foi bom  só para mim ,como para todo um elenco jovem que estava sedento de informações e conteúdos  literários.
Foi um grande momento para todos nós, atores principiantes em São Paulo na década de 1970.
O Eduardo Curado fez uma bela direção ,dando uma postura de teatro de arena , com direção musical maravilhosamente resolvida pelo maestro Carlos Castilho. Não tinha cenários e a luz conduzia  o espetáculo . Para mim, recém chegado em São Paulo, depois de ter feito “ LAMPIÃO NO INFERNO “ , espetáculo que me trouxe do Rio de Janeiro para São Paulo, um cordel de Jairo Lima, dirigido por Luiz Mendonça , foi muito importante, pois eu estava fazendo “ ARTECULTURA ”POPULAR BRASILEIRA E “ MORTE E VIDA SEVERINA “ era uma continuação neste seguimento da literatura de cordel muito importante para a nossa dramaturgia.



Foto: Arquivo pessoal do artista.


Tecendo em Reverso – De que maneira se deu a criação e direção de Cantarena?

LUIZ CARLOS BAHIA – Em relação ao projeto “ CANTARENA “  eu pensei exatamente na posição dos compositores de música popular brasileira. Não se falava dos autores das músicas nos veículos de comunicação : Rádios e TVs.  Aliás, ainda hoje é assim. Salvo alguns programas , como o Sr. Brasil e o Altas Horas que colocam os autores nos créditos.  Então , eu como compositor , percebendo isso, resolvi criar um projeto com este enfoque. O nome “ CANTARENA” surgiu  exatamente por ter sido no Teatro de Arena Eugênio Kusnet , na época  ocupado pelo Grupo do Gianfrancesco Guarnieri , meu amigo que, entendendo a importância do projeto, me deu o espaço para que eu pudesse desenvolver  esta programação. O Projeto teve a estreia com o Renato Teixeira que entendeu o brado do “ CANTARENA” “ um canto na arena” ) . Teatro histórico pelos movimentos de liberdade. Foram oito espetáculos e, após esta temporada , não tínhamos mais condições de continuar, pois faltava a tal da verba. A produção era minha e da Carla Masumoto , parceira nesta empreitada.  Três anos depois, com o convite do Denoy de Oliveira  para participar  com ele da criação do CPC da UMES , eu apresentei o Projeto “ CANTARENA “ . Com a junção do nome da entidade “UMES” (União Municipal dos Estudantes Secundaristas ) ficou : “ UMES CANTARENA “ . Um marco para a música popular brasileira ! Vários compositores , renomados e também desconhecidos , por ter um bom trabalho , tinha o seu espaço . Foi um grande sucesso , de 1994, exatamente no  dia 31 de outubro de 1994, com o Carlos Lyra , a grande estreia , até 2001  tendo registrado em cinco CDs ,  ao vivo, momentos maravilhosos que por lá passou !
Foi uma grande experiência, mais de 150 espetáculos, com artistas de todo o Brasil ! Um grande aprendizado.

Veja a relação dos artistas:
UMES-CANTARENA
Criado e dirigido pelo poeta, ator e compositor Luiz Carlos Bahia, o projeto musical, “UMES-Cantarena”, realizado entre os anos de 1994 e 2001, traçou um amplo painel da Música Popular Brasileira, apresentando em cada espetáculo um compositor interpretando sua própria obra.
O projeto deu origem a uma coleção de cinco CDs. Seu nome vem da época em que o Teatro Denoy de Oliveira chamava-se ainda Teatro da UMES e tinha a forma de arena. Por ele passaram mais de 150 compositores e 600 músicos acompanhantes.
Confira abaixo a relação completa dos artistas que se apresentaram no projeto:
1994 a 1998
Adauto Santos
Adler Maragnon
Alaíde Costa
Aldo Bueno
Alzira Espíndola
Ana de Hollanda
Anastácia
Antonio Carlos e Jocafi
Arlindo Cruz e Sombrinha
Badi Assad
Banda Moxotó
Bando Flor do Mato
Batatinha
Belchior
Caíto Marcondes
Capinam
Carlinho Lyra
Carmen Queiróz
Cátia de França
Celso Machado
Celso Viáfora
Chico César
Chico de Abreu
Claudio Nucci
Daniel Gonzaga
Dante Ledesma
Délcio Carvalho
Dércio Marques
Dinho Nascimento
Diniz Vitorino
Don Tronxo
Dona Ivone Lara
Duofel
Edil Pacheco
Ednardo
Eduardo Gudin
Edvaldo Santana
Elieser Teixeira
Elomar
Embaixadores da Lua
Eugênio Leandro
Fábio Paes
Fátima Guedes
Filó Machado
Fuba
Grupo Tarumã
Hélio Braz
Ibys Maceió
Ivone Portela
Irineu Marinho
Jair Rodrigues
Jarbas Mariz
Jards Macalé
Jean e Paulo Garfunkel
Jica e Turcão
João Bá
João Mattos
Jorge Mello
José Felice
Juca Novaes e Eduardo Santana
Julio Sanches
Juraildes da Luz
Lourinaldo Vitorino
Lourival Tavares
Lúcio Barbosa
Luiz Avelima
Luiz Carlos Bahia
Luiz Carlos Borges
Luiz Carlos da Vila
Luiz Perequê
Luiz Vieira
Luizinho SP
Luli e Lucina
Marcus Vinícius
Maria da Paz
Maria Marta
Mário Lago
Milton Edilberto
Mina das Minas
Moacyr Luz
Monarco
Nei Lopes
Nelson Sargento
Neto Fagundes
Ney Couteiro
Noca da Portela
Osvaldinho da Cuíca
Oswaldinho do Acordeon
Oswaldinho Viana
Paulinho Pedra Azul
Paulinho Tapajós
Paulo César Pinheiro
Paulo Padilha
Paulo Simões
Pedro Osmar
Pedro Sertanejo
Rafael Altério
Renato Teixeira
Reynaldo Bessa
Rhayfer
Roberto Lapiccirela
Roberto Menescal e Márcia Salomon
Rosa Passos
Sérgio Ricardo
Sérgio Santos
Sílvio Modesto
Sombra
Tarancón
Tato Fischer
Terramérica
Tetê Espíndola
Théo do Valle
Thetê da Bahia
Thobias da Vai-Vai
Tom Zé
Valdeck de Garanhuns
Vange Milliet
Vânia Carvalho
Vicente Barreto
Victor Hugo
Vidal França
Waldir da Fonseca
Walter Alfaiate
Walter Franco
Wilson Moreira
Xangai
Xangô da Mangueira
Zé Geraldo
Zé Ketty
Zeca Baleiro
Zédi
Zezé Freitas
1999 a 2001
Adylson Godoy
Anna Torres
Antonio Barros e Cecéu
Antúlio Madureira
Banda Mafuá
Banda de Pífanos de Caruaru
Bando de Macambira
Carlinhos do Cavaco
Celso Viáfora
Chico Souza
Cida Lobo
Chico Teixeira
Daniela Lasalvia
Dayse Cordeiro
Guinga
Jarbas Mariz
Kiko Perrone, Charles Negrita e Julio Sanches
Lupe Albano
Madan
Milton Dornellas
Moacyr Luz
Mochel
Paqüera
Paulo Diniz
Roberto Mendes
Roberto Simões
Rubinho do Vale
Téo Azevedo
Theo de Barros
Vinícius Brum
Wilson Aragão
Zé Geraldo e Nô Stopa


Foto: Arquivo pessoal do artista.




Tecendo em Reverso – O programa Bambalalão foi um marco na produção artística para o público infantil brasileiro. Qual é a avaliação que você faz do que se produz hoje para crianças?

LUIZ CARLOS BAHIA – O Programa   Infanto  Juvenil  “ BAMBALALÃO “ , foi um grande marco para as crianças da época : década de 80 e 90 .Era um programa ao vivo, com grande teor educacional ! Tudo devidamente pensado e pesquisado para oferecer o melhor para o público alvo : as crianças!
Uma bela postura da TV Cultura que tinha, em sua programação, também pérolas como : “ CURUMIM “ , “ CATA VENTO “ , depois veio o “ CASTELO RÁ -TIM -BUM “ , “ COCORICÓ “ , “ QUINTAL DA CULTURA “ ! Ah, antes teve o belo programa do Daniel Azulai .
 No Rio de Janeiro, na TVE  tinha a Bia Bedram  e o Alby Ramos , além do Daniel Azulai que já tinha partido para o Rio de Janeiro.
Hoje, tirando o teatro que produz grandes espetáculos culturais , houve um grande esvaziamento educacional nos programas infantis das TVs abertas , onde  o mais importante é vender produtos, propagandas infernais , para invadir e alienar as crianças.




Foto: Arquivo pessoal do artista.



Tecendo em Reverso – Em O palhaço e o operário você foi dirigido por Antônio Abujamra. Qual é a importância desse intelectual para o Brasil?

LUIZ CARLOS BAHIA – O Mestre Antônio Abujamra , antes de tudo, era um grande filósofo !
Trabalhar com o “ ABU” era assim chamado, carinhosamente pelos amigos  e , aí, eu me incluo , era como estar tendo uma aula ! Aula de criatividade e liberdade !
Com o “ABU” a responsabilidade do acerto e do erro tinha a mesma importância. Era um Gênio !
O “ ABU “ gostava de dizer : “ ESTE VAI SER O MEU MAIOR FRACASSO “  e era mesmo... rsrs.
O sucesso e o Fracasso vinham na mesma travessa , daí, a importância intelectual  do “ ANTÔNIO ABUJAMRA” .
Ele não se  preocupava com o “ TAL” mercado . Era um artista, acima de tudo !
O Programa “ PROVOCAÇÕES”, NA TV CULTURA , que tem a apresentação dele e a direção dele com o Gregório Bacic , para mim , é um dos melhores programas , se não o melhor . O melhor programa de entrevista e filosofia. Abujamra cita textos, tantos literários quanto filosóficos, com muita propriedade e sabedoria ( digo cita, por estar, ainda , no ar, reprisando ).
Antônio  Abujamra : “UM DOS HOMENS MAIS INTELIGENTES E CULTOS QUE EU CONHECI E TIVE O PRAZER DE TRABALHAR E CONVIVER”.
Grande mestre. Faz muita falta !



Foto: Arquivo pessoal do artista.



Tecendo em Reverso - Recentemente você atuou no premiado curta Reimundo. O argumento da proposta é seu. O que o levou ao desejo de filmar a história?

LUIZ CARLOS BAHIA – O que me levou a criar e realizar o curta metragem “ REIMUNDO” , acredito ter sido uma “ INQUIETAÇÃO” dentro de mim.  As frases , os poemas e as poesias , gritavam  e gritam , dentro de mim ! Então , eu senti a necessidade de colocar para fora,  mas eu não queria que fosse  de uma forma , digamos assim, acadêmica . Eu preferi o simples , o homem simples e então , eu percebi  os “ INVISÍVEIS “ , cheios de vidas , histórias , desacertos sociais e criei um “ POETA DE RUA “ , um andarilho , com muitas estórias populares , coisas que o povo vai contando e aumentando. O “REIMUNDO”, por ser um “ INVISÍVEL” tenta se fazer ouvir pela poesia.  Ele declama pelas ruas .  É a oralidade no cinema , que é a arte da fotografia  “ REIMUNDO” tem a palavra como o ponto chave. “REIMUNDO” mostra o homem ,  seu caminhar, sozinho e cheio de histórias e estórias. Ele deixa claro que é preciso o cuidado com a nossa casa, que é o nosso planeta.  Ele brada contra a violência,  ao mesmo tempo que externa uma grande pureza.
É um grito pela inclusão social do “ INVISÍVEL”,aí o “ REIMUNDO” tenta se fazer “ OUVÍVEL”.  .
Para o curta metragem “ REIMUNDO”, que por ter argumento, roteiro, músicas, em parceria com o maestro Dyonísio Moreno, e ainda a interpretação realizada por mim, eu convidei o Mário Vaz Filho para fazer a Direção e , assim eu poder desenvolver melhor o meu projeto, que tem no elenco : o veterano e grande cineasta “CLERY CUNHA” , o Homero Barreto, a Laila Borges, a Janaína Moreno e a participação especial e afetiva do meu querido amigo: CHICO CÉSAR .
“ REIMUNDO” ganhou recentemente em agosto, o prêmio de Melhor filme e de melhor ator para Luiz Carlos Bahia , no papel de “ REIMUNDO” , no primeiro festival de cinema curta metragem de Cajazeiras, Paraíba.







terça-feira, 13 de outubro de 2015

José Claudinei Lombardi



Por Juliana Gobbe


O autor Graciliano Ramos disse certa vez: Se a igualdade entre os homens que busco e desejo for o desrespeito ao ser humano, fugirei dela. É esta frase que usamos para introduzir ao leitor um pouco da carreira do nosso entrevistado que se destaca na educação, não simplesmente pelos títulos que acumulou durante a vida, mas pela humanidade traduzida em sua práticas na luta por outra sociedade.
José Claudinei Lombardi é graduado em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Campinas (1976); Mestrado em Agronomia, Área de Concentração: Sociologia Rural, pela Universidade de São Paulo (1985); Doutorado em Educação, Área de Concentração: Filosofia e História da Educação, pela Universidade Estadual de Campinas (1993); é Livre-docência em História da Educação na Faculdade de Educação da Unicamp. Foi Secretário de Educação de Limeira, SP, de janeiro de 2013 a janeiro de 2015. É professor livre-docente da Universidade Estadual de Campinas. É bolsista de Produtividade em Pesquisa - Nível 2 - do CNPq. Tem experiência na área de Educação, com ênfase em Marxismo e Educação; Pedagogia Histórico-Crítica; e História da Educação, atuando principalmente nos seguintes temas: pesquisa em educação; história da educação brasileira; história, trabalho e educação; e historiografia da educação. É autor e organizador de várias publicações no campo de pesquisa referida, como: História e História da Educação. O debate Teórico-Metodológico Atual; Globalização, pós-modernidade e educação: história, filosofia e temas transversais; Capitalismo, trabalho e educação; A Escola Pública no Brasil: história e historiografia; Ética e Educação - reflexões filosóficas e históricas; Marxismo e educação - debates contemporâneos; O Público e o Privado na história da educação brasileira; Educação e Ensino na obra de Marx e Engels; Embates Marxistas: apontamentos sobre a pós-modernidade e a crise terminal do capitalismo. É coordenador executivo do Grupo de Estudos e Pesquisas "História, Sociedade e Educação no Brasil" (HISTEDBR). 






O livro organizado por José Claudinei Lombardi, Carlos Lucena e Fabiane Santana Previtali pode ser acessado e lido gratuitamente através do seguinte link: 





quinta-feira, 16 de julho de 2015

Mara Regina Jacomeli

Por Juliana Gobbe


Mara Regina Jacomeli é pedagoga com mestrado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (1998) e doutorado em Educação pela Universidade Estadual de Campinas (2004). Nessa mesma Universidade é professora e atualmente  coordena o Programa de Pós-graduação em educação. É também coordenadora local do Grupo de Pesquisa do HISTEDBR (História, Sociedade e Educação no Brasil).
Em entrevista à RTV (Unicamp) a pesquisadora discorreu sobre as políticas educacionais brasileiras (1971-2000).





Arquivo pessoal da pesquisadora.




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