segunda-feira, 17 de março de 2014
Os 50 anos do golpe.
Foto: Companhia de teatro Kiwi
No ano em que o Brasil lamenta os 50 anos do golpe civil militar, o blog Tecendo em Reverso trará ao público ao longo do ano uma série de entrevistas com militantes que viveram à época e lutam até os dias atuais por uma sociedade sem repressão.
A dica de hoje aos amigos professores é a reestreia da peça Morro por um país dirigida por Fernando Kinas. O projeto contou com uma extensa pesquisa que incluiu temas como: "estado de exceção", ditadura e a violação aos direitos humanos.
A peça ficará em cartaz no Cit Ecum em São Paulo entre 26 de março e 17 de abril. Confiram maiores informações no site da Companhia de teatro Kiwi:
http://www.kiwiciadeteatro.com.br/Members/fernando/morro-como-um-pais-cenas-sobre-a-violencia-de-estado
Abraços,
Juliana Gobbe
terça-feira, 11 de março de 2014
Romeu Adriano da Silva
O pesquisador Romeu Adriano da Silva é doutor em
Educação, na área de Filosofia e História da Educação pela Unicamp –
Universidade Estadual de Campinas. Atualmente é professor da Universidade Federal
de Alfenas com atuação nas respectivas áreas: Teoria e Filosofia da História,
História da Educação e Marxismo e Educação.
Sua tese de doutorado, defendida em 2013 teve como
orientador o Prof. Dr. José Claudinei Lombardi e abordou o seguinte tema: “A
obra de Marx e Engels e as tendências do Marxismo nas pesquisas educacionais
brasileiras”.
Em entrevista concedida ao Tecendo em Reverso o pesquisador discorreu um pouco sobre este
trabalho.
Ao final da entrevista, o leitor terá acesso ao link da
tese para a leitura na íntegra.
O blog Tecendo em Reverso parabeniza o pesquisador
Romeu Adriano da Silva por esta relevante contribuição para a Educação
brasileira.
Arquivo pessoal do pesquisador.
Tecendo em Reverso -Como
ocorreu a percepção da necessidade de pesquisar: “A obra de Marx e Engels e as
tendências do Marxismo: crítica das perspectivas essencialistas nas pesquisas educacionais
brasileiras”?
ROMEU ADRIANO DA SILVA - Foi
um processo um tanto lento, mas que obrigou-me a tratar de forma mais cautelosa
uma questão que penso ser crucial: a relação entre uma concepção da Ciência da
História, sua capacidade de explicação do real, e a articulação deste
conhecimento com as possibilidades de interferência na realidade vivida, tendo
a prática social como o critério de verdade científica. Na tese, não tentei
“depurar” o marxismo, mas sim retomar a obra de Marx e Engels como um ponto
central de sustentação de uma leitura materialista e dialética do real, talvez mais
necessária do que nunca, para uma profunda análise do capitalismo contemporâneo
e de suas contradições. Como as contribuições no próprio seio do marxismo são
muitas e diversas, procurei atentar-me para determinados encaminhamentos que,
apesar de sua manifesta filiação ao marxismo, ainda permitem leituras
essencialistas da realidade, aí incluídas as práticas e concepções educativas.
A isso chamei de tendências do marxismo, e, neste caso, em especial, procuro
dialogar com uma tendência com forte penetração nas pesquisas e debates
educacionais no Brasil, que é a da “ontologia do ser social”, procurando
demonstrar tensões internas existentes no interior desta tendência.
Tecendo em Reverso - Na sua
tese lemos... “uma leitura dialética do real não permite operar por exclusão e
nem raciocinar de forma mecânica...” Qual a crítica que se faz hoje em relação
ao ensino de História nas escolas brasileiras, visto que muitas vezes
concepções notadamente idealistas refutam a realidade histórica?
ROMEU ADRIANO DA SILVA - Como
a tese não trata da questão do ensino de História e sim dos pressupostos da
Ciência da História, essa resposta é difícil de dar, pois já existe um
crescimento fértil de pesquisas sobre o ensino de História que tratam com muita
propriedade a questão. De qualquer forma, entendo ser importante indicar que as
concepções idealistas se fazem presentes na educação básica não somente em
relação ao ensino de História, mas na própria forma como se concebe o mundo, o
real, as relações sociais, a existência individual... Assim, as concepções
idealistas não refutam apenas a realidade histórica, mas a própria
materialidade do real, o que limita as possiblidades de conhecimento objetivo
da realidade. Agora, entendo que a constatação é importante, mas alavancar as
possibilidades de uma educação escolar que vá para além dessa necessária
constatação, rumo a uma educação que seja capaz de articular-se com as ações
efetivas de revolucionamento da vida social, é primordial.
Tecendo em Reverso - De que
maneira as tendências do marxismo apontadas no capítulo dois da sua tese podem
corroborar para uma interpretação equivocada e até mesmo desqualificadora da
obra do revolucionário alemão Friedrich Engels?
ROMEU ADRIANO DA SILVA - Essa
questão que você coloca é fundamental. Arrisco respondê-la de modo conciso,
procurando não empobrecer o debate: no meu entendimento, o ponto central deste
problema é a quebra da perspectiva de totalidade na explicação do real e o
risco de, evidentemente que sem a intenção de fazê-lo, assumir “um compromisso
contra o materialismo” - na feliz expressão do professor Caio Navarro de Toledo.
Tecendo em Reverso - Você aponta
na sua tese o fato de que nos últimos anos têm surgido na academia muitas
pesquisas em torno do trabalho e educação no capitalismo. Como pesquisas como a
sua podem fomentar o debate educacional no Brasil numa perspectiva crítica e
emancipadora de consciências?
ROMEU ADRIANO DA SILVA - Entendo
ser importante mantermos nossa atenção às determinações objetivas da nossa
existência. O trabalho é uma dessas determinações fundamentais. O que procurei
fazer foi articular essa categoria com a categoria modo de produção, de modo a evitar
tratar do trabalho de uma forma geral e abstrata. Assim, penso que a educação
também não pode ser tratada de forma geral e abstrata, e sim como instância
determinada e simultaneamente determinante da vida social, articulada a uma
totalidade de relações historicamente determinadas e que, neste terreno, também
se expressam os embates entre as classes. Não se trata de tomar a escola como a
promotora da igualdade social ou a educação como o remédio para a solução dos
problemas sociais, como o faz a perspectiva liberal, nem tampouco de dar
tratamento autônomo ao fenômeno educativo, como o fazem os idealistas. Mas a
questão é a da educação como um momento da práxis, com tudo o que isso implica,
inclusive o fato de não nos prendermos a uma postura imobilista em relação à
educação, o que me parece ser o caso da tendência a que se refere a tese.
Espaço do pesquisador:
Aqui quero registrar meu
agradecimento pela entrevista e parabenizar a equipe do “Tecendo em Reverso”
pelo relevante e precioso trabalho de dar publicidade aos trabalhos e abrir
espaço para que os pesquisadores possam falar um pouco sobre o que fundamenta e
norteia seu pensamento e sua ação.
Abraços,
Juliana Gobbe
segunda-feira, 3 de março de 2014
Pedagogia Histórico - Crítica
A revista Germinal: Marxismo e Educação em debate dedica seu 5º volume à Pedogogia Histórico-Crítica:
http://www.portalseer.ufba.br/index.php/revistagerminal/index
Abraços,
Juliana Gobbe
domingo, 23 de fevereiro de 2014
Entrevista com Rui Ribeiro de Campos.
O
Professor Rui Ribeiro de Campos é graduado em Filosofia, Estudos Sociais e
Geografia pela PUC – Campinas. Fez mestrado em educação também pela PUC e
doutorado em Geografia na UNESP- Rio Claro. Foi professor titular da PUC –
Campinas de Epistemologia da Geografia, Pensamento Geográfico Brasileiro e
Geografia Política.
Durante
muitos anos trabalhou com o ensino de geografia através da música popular
brasileira.
Confiram
a entrevista que o pesquisador concedeu ao Tecendo em Reverso sobre a
importância da música na educação dos nossos jovens.
Tecendo em Reverso - Qual é
a importância da arte como recurso pedagógico?
RUI RIBEIRO DE CAMPOS - Educar já é uma arte. Mas a proposta é de utilização de outras formas de arte para realizar o trabalho educacional: poemas e letras de canções. Trabalhar com sons colabora para o aprimoramento da sensibilidade. Descobrir o som de certos versos também é fundamental; além disso, contribui para aprimorar o vocabulário e estimular os alunos a realizarem essa experiência humana. E fazer uma atividade interdisciplinar é uma forma de o aluno sentir que o processo de aprendizagem não é isolado, que existe ligação entre disciplinas trabalhadas, que um mesmo conceito pode estar na narrativa de um conto, no enredo de um filme, num quadro, numa escultura, na letra de uma canção. No entanto, no Brasil, não se trabalha seriamente a arte no processo educacional, pois desde a infância muitos pais já possuem uma perspectiva profissional para seus filhos e desejam da escola somente conteúdos “técnicos” que sejam “úteis” no futuro.
Tecendo em Reverso - Especificando-se o ensino de Geografia. Como
utilizar letras de MPB na ilustração dos temas abordados?
RUI RIBEIRO DE CAMPOS - A proposta é que a disciplina Geografia utilize determinadas letras de canções para analisar aspectos estudados no decorrer do conteúdo programado. O que fizemos nos artigos foi sugerir determinados temas e algumas letras que podem ser utilizadas em sala de aula. Deixou-se em aberto o momento: início, meio ou final do assunto tratado; e também se procurou mais caracterizar a situação do que analisar especificamente a letra, deixando isso para o docente. Existem outros temas (e letras de músicas relativas a eles) nos quais se pode fazer a mesma coisa. A tentativa foi de sugerir aos docentes de Geografia que façam isso, que dialoguem com a realidade também dessa maneira.
Tecendo em Reverso - Sabe-se que hoje em dia o “conhecimento de mundo”
do aluno, leia-se, bagagem cultural é muitas vezes rechaçado pela escola, ou
seja, há muito preconceito em relação às manifestações musicais,como: funk e
rap. Como apresentar aos alunos outros movimentos musicais sem ignorar o que
eles trazem do cotidiano?
RUI RIBEIRO DE CAMPOS - O
baixo nível da população brasileira relativo a um conhecimento mais
sistematizado tem atrapalhado bastante os professores em sala de aula. A
estratégia depende de qual setor os alunos integram. Para os mais
marginalizados creio que a estratégia mais adequada é a de estimulá-los a
fazerem um rap cuja letra retrate problemas de seu cotidiano. A partir daí se
introduziriam letras um pouco mais “sofisticadas”, mais relacionadas a
problemas brasileiros semelhantes. Por essas razões, o professor não deve
colocar músicas (com letras, é claro) em sala de aula sem planejar
adequadamente, para que não se pense que é somente uma pausa do que se está
“dando” em sala de aula. A canção deve integrar o conteúdo como mais uma
expressão – cultural – da situação estudada.
Tecendo em Reverso - Os anos de chumbo da ditadura civil-militar no
Brasil deram ao nosso país uma lavra significante de músicas com letras que
mostravam indignação em relação ao regime. O Sr. destacaria algum compositor
desta época que contribuiu para isso?
RUI RIBEIRO DE CAMPOS - Para
mim, o destaque entre aqueles que conseguiram driblar a censura foi Chico
Buarque, principalmente após o AI-5. Antes disso, poucas letras desse
compositor foram fundamentais para que se colocasse, sob a forma de canção, o
que se sentia em relação ao poder autoritário instalado no país. Uma das mais
significativas foi “Sabiá”, um
prenúncio, uma canção que retratava o “exílio interno”, possibilitando que ,
enquanto Geografia debata o regime militar, a área de literatura trabalhe com
Gonçalves Dias. Depois de 1969, foi ele um dos compositores mais coerentes na
luta contra a opressão. Pode-se começar citando “Apesar de Você”, escrita especialmente para o ditador Médici,
continuando com “Cálice”, “Milagre Brasileiro” e “Vence na vida quem diz sim” (letras
conhecidas no final do regime), “Angélica”
(muito bonita e triste, ao mesmo tempo, sobre Zuzu Angel), “Samba de Orly”, “Deus lhe pague”, “Linha de
Montagem” e outras. Contudo, existem outros letristas que também tentaram
driblar a censura para que se pudesse ter uma pequena sensação de estar livre
(somente a sensação), como Sérgio Ricardo, Gonzaguinha, Aldir Blanc e Paulo
César Pinheiro.
Tecendo em Reverso - No seu trabalho encontramos músicas, como: Meninos
do Brasil de Gonzaguinha e Povo da Raça Brasil de Milton Nascimento e Fernando
Brant. No seu ponto de vista qual é a música que melhor traduz o povo
brasileiro na conjuntura política atual?
RUI RIBEIRO DE CAMPOS - Dessas duas? Acredito que a do Gonzaguinha,
principalmente por conter mais relatos de mazelas. A situação do país melhorou
em relação ao final da década de 1980, mas muito do que ainda existe está na
letra de Meninos do Brasil. Embora ache que a que melhor reflete o Brasil atual
seja “Cara do Brasil”, de Celso
Viáfora e Vicente Barreto, feita uma década depois.
Espaço do pesquisador:
A proposta de trabalhar MPB em aulas de Geografia resulta de minha
experiência anterior como professor do ensino médio. Permaneço acreditando que
ela pode ser utilizada por diversas disciplinas, principalmente em um trabalho
conjunto. No entanto, é somente um recurso pedagógico, que não substitui o
conteúdo, e a música não deve ser colocada somente para tornar a aula mais
“agradável”. Ao mesmo tempo, consegue-se mostrar a riquíssima variedade musical
do país e impedir que ela seja “engolida” pelo domínio de formas musicais
estrangeiras.
Abraços,
Juliana Gobbe
quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014
segunda-feira, 9 de dezembro de 2013
terça-feira, 3 de dezembro de 2013
Marcos Lima
Dando continuidade ao
ciclo de entrevistas com os pesquisadores da educação no Brasil, o blog Tecendo
em Reverso entrevistou o pesquisador Marcos Lima que
defendeu em 2012 na Unicamp sua dissertação de mestrado com o tema :
Educação, trabalho e hegemonia no Região Metropolitana de Campinas: uma análise
da ação estratégica do “terceiro setor” e suas implicações político-pedagógicas.
A dissertação contou com a orientação do Drº
José Claudinei Lombardi (Unicamp).
O blog Tecendo em
Reverso parabeniza Marcos Lima por esta valiosa contribuição para a educação
brasileira.
Arquivo pessoal: Marcos Lima
Tecendo
em Reverso -Tratando-se de “educação e hegemonia”. Quais foram as contribuições
da obra de Antonio Gramsci quando se enfoca a crítica do “terceiro setor”?
MARCOS
LIMA - Primeiramente, gostaria de parabenizar a Juliana pela organização deste
importante instrumento de articulação entre a pesquisa acadêmica e a educação
básica. Sem iniciativas como esta, incorremos no equívoco de permitir, aludindo
a Marx e Engels, que nossos esforços sejam lançados à “crítica roedora dos
ratos”.
Gramsci
traz consigo uma premissa marxiana, segundo a qual “nenhuma sociedade se
dissolve e pode ser substituída antes que se tenham desenvolvido todas as
formas de vida implícitas em suas relações”. Tal alerta nos impediu de
enveredarmos pelos caminhos tentadores de entendimento baseados no senso comum
que transformou a tal “sociedade civil” em um espaço de virtudes, enquanto o
Estado, identificado com a ditadura militar, era “satanizado”. Ao afirmar que
devemos distinguir no estudo de uma estrutura os movimentos orgânicos
(relativamente permanentes) dos movimentos de conjuntura (ocasionais,
imediatos, quase acidentais), o referencial teórico-metodológico gramsciano nos
impediu de realizarmos uma “crítica política miúda”, buscando numa periodização
mais ampla as raízes do “terceiro setor”. Qual não foi nosso espanto ao
perceber que a aliança dos EUA com setores civis de nossa sociedade, através da
“Aliança para o Progresso”, preparava um campo de ação estratégica que
neutralizava de forma preventiva o conflito social. Implementava-se em terras
tupiniquins um tipo de sociabilidade já destacado por Alexis de Tocqueville, em
sua obra A democracia na América,
escrita entre os anos de 1835 e 1840, fundamentada na prevenção dos conflitos
sociais, através da “preparação” dos indivíduos para a participação,
racionalizando-se, assim, a democracia. Seguindo as orientações metodológicas
de Gramsci, pudemos observar que as estratégias mais desenvolvidas de
hegemonia, no caso a estadunidense, através da mediação de seus intelectuais,
vinham em auxílio aos grupos nacionais dominantes, ameaçados pelo contexto
nacional-desenvolvimentista que possibilitava a emergência das camadas
populares como sujeitos históricos. Uma
forma de Estado mais complexa e eficiente na prevenção dos conflitos, sobretudo
aqueles fundamentados no antagonismo de classe, emerge a partir dos anos
pós-ditadura civil-militar. Trata-se de uma forma “integral” de Estado, em que
os aparelhos privados de hegemonia são incorporados, instrumentalizando-se as
iniciativas de emancipação das camadas subalternas. A partir da concepção
gramsciana de Estado, concluímos que a tal “lógica da sociedade civil
organizada”, advogada pelos defensores do “terceiro setor”, representava na
verdade a expansão dos “tentáculos” do Estado sobre os espaços de organização
dos movimentos populares, anulando seu caráter contestatório, preparando o
caminho para as reformas neoliberais orquestradas pelo capital monopólico
internacional.
Tecendo em
Reverso - Na sua dissertação, lemos:“O “terceiro setor” é apresentado como
solução para a separação entre o público e o privado. Através dessa esfera, o
público (Estado) e o privado (mercado) se articulariam, materializando-se no
“público, porém privado”, realizando-se atividades públicas através da iniciativa
privada”. De que maneira articula-se atualmente a “privatização” dos espaços
públicos brasileiros?
MARCOS LIMA - O
conceito “público, porém privado” foi cunhado por Luiz Carlos Bresser Pereira,
nomeado para o Ministério da Administração Federal e Reforma do Estado durante
o governo de Fernando Henrique Cardoso. Com este conceito, os reformadores do
Estado brasileiro adequavam-se ao discurso neoliberal da “terceira via”, cujo
principal representante é Antony Guidenns, mentor das reformas que deram origem
ao New Labor de Tony Blair na
Inglaterra. Como resposta àqueles que afirmavam ser o governo o inimigo e, por
outro lado, àqueles que defendiam a tese de que o Estado é a solução, a
“sociedade civil” foi transformada em “parceira do Estado na execução dos
serviços sociais”. Através desse sofisma, foram introduzidas diferentes formas
de privatização dos serviços públicos, seja através de sua transferência direta
às tais ONGs, seja através da atuação de instituições como a Federação das
Entidades Assistenciais de Campinas (FEAC), impondo-se o que tenho chamado de “reestruturação
flexível do trabalho escolar”. A tal “sociedade civil organizada” engloba desde
setores empresariais até representantes sindicais das diferentes categorias do
magistério, o que resulta em movimentos como o “Compromisso Todos pela
Educação”, que através de um “pacto social” acaba por controlar o conflito fundamentado
nos interesses de classe que marcam a história da educação brasileira.
Portanto, não se trata meramente de transferir o trabalho escolar às grandes corporações
educacionais que impõem à educação pública a lógica do mercado, transformando
em valor de troca (mercadoria) o valor de uso (instrumento de humanização) presente
na escola. Em última instância, institui-se o consenso em torno das “pedagogias
do aprender a aprender”, com a ajuda de setores populares que, ao enveredarem
de forma acrítica pelo campo de ação estratégica do “terceiro setor”, acabaram
por inserir-se estruturalmente no processo de expansão e controle do Estado
neoliberal sobre as formas de representação das camadas populares, processo
cujo resultado tem sido a institucionalização dos legítimos movimentos
populares em defesa da educação, tratando-se de uma forma sui generis de privatização, fundamentada na imposição da lógica
liberal. Atualmente, tenho pesquisado as transformações sofridas pela pedagogia
da educação popular durante esse período histórico, analisando a possível instrumentalização
da pedagogia freireana pelo ideário das reformas educacionais em curso,
fundamentadas no aprender a aprender, que tem como grande marca a perda da
especificidade do trabalho educativo, qual seja, nos dizeres de Saviani:
“produzir, direta e intencionalmente, em cada indivíduo singular, a humanidade
que é produzida histórica e coletivamente pelo conjunto dos homens. Assim, o
objeto da educação diz respeito, de um lado, à identificação dos elementos
culturais que precisam ser assimilados pelos indivíduos da espécie humana para
que eles se tornem humanos e, de outro lado e concomitantemente, à descoberta
das formas mais adequadas para atingir esse objetivo”. Ao que parece, socializar
a escola como instrumento de humanização não está na agenda do capital, o que
nos faz entender o esvaziamento de conteúdo da escola pública, expressão do
processo cada vez mais acentuado de privatização, sobretudo, do saber
elaborado, perpetuando-se a divisão do trabalho sobre os moldes capitalistas.
Tecendo em Reverso
- Como ocorrem as políticas neoliberais na educação brasileira?
MARCOS LIMA -Em
síntese: de um lado a reestruturação flexível do trabalho escolar anteriormente
citada, por outro a hegemonização da “pedagogia do aprender a aprender”,
substrato pedagógico do que Newton Duarte chama de “sociedade das ilusões”.
Todo o conhecimento histórico e acúmulo de experiências na trajetória humana
perderam a centralidade para um eterno presente, ao qual basta o
desenvolvimento de “habilidades” e “competências”, tendo os indivíduos que responder
às necessidades de um mercado de trabalho cada vez mais competitivo. Um dos
elementos presentes na teoria da produção capitalista de Marx é a concorrência,
pertencendo à essência mais íntima do capital, que busca ocultar sua verdadeira
base, fundamentada na exploração do trabalho. Portanto, trata-se de um sofisma
o pilar “aprender a viver com os outros”, posto que, ao atingirmos patamares
tão elevados de tecnologia, capazes de ampliar cada vez mais o tempo livre para
os homens desenvolverem a totalidade de suas capacidades, a única justificativa
para a manutenção da concorrência é a tentativa ensandecida do capital
recuperar sua taxa de lucro, após as décadas de crise.
Tecendo em
Reverso - Qual é o papel da “sociedade civil” nos movimentos populares?
MARCOS LIMA - Primeiramente,
é necessário desmistificar o conceito de sociedade civil. A partir do processo
de “transição tutelada”, orquestrado pelos militares, a partir de meados da
década de 1970, esse conceito, juntamente com o conceito de cidadania, adquiriu
um lugar de destaque, não somente no léxico dos reformadores neoliberais, pois
grande parte da esquerda de forma licenciosa passou a utilizá-lo. À luz das
pistas deixadas pela obra de autores como Armand Dreifuss, minha pesquisa
demonstra que a dicotomia Estado/sociedade civil não colabora para o
entendimento do processo histórico que resultou na “satanização” do Estado e
hipertrofia da sociedade civil, ou, como diz Carlos Montaño, na transição da
lógica do Estado para a lógica da sociedade civil. Tal dicotomia oculta o
processo de expansão e controle dos conflitos sociais pelo Estado. Setores
conservadores da sociedade civil não somente participaram do golpe de 1964 como
colaboraram ativamente na construção do consenso a partir da década de 1980,
dissimulando-se a luta de classes através da ação estratégica do “terceiro
setor”. Destituindo-se de centralidade a categoria da luta de classes, o
conceito de sociedade civil se torna um nebuloso emaranhado de interesses
difusos que não permitem a percepção da totalidade concreta que é o sistema
capitalista.
Tecendo
em Reverso - A militante boliviana Domitila Chungarra é mencionada na sua
dissertação como um exemplo de luta frente às estratégias do capital. Como
ocorre a articulação feminina dentro do movimentos sociais contemporâneos?
MARCOS
LIMA - Domitila faleceu em 2012, momento em que minha pesquisa era concluída. A
referência a essa militante colabora para o enfrentamento da lógica
anteriormente descrita. Primeiramente,
pelo fato de que o enfrentamento desenvolvido pelo Comitê de Donas de Casa do
Distrito Mineiro Século XX, do qual Domitila era integrante, articula
fundamentalmente a libertação das mulheres à libertação sócio-econômica,
política e cultural do povo. Movimentos sociais populares brasileiros como o
Movimento dos Sem Terra, à semelhança dos mineiros bolivianos, buscavam em
meados da década de 1980 relacionar a luta das mulheres com a luta mais geral
da classe trabalhadora. Ainda que a questão feminina tenha suas
especificidades, não se desarticula da luta contra a exploração capitalista,
superando os limites da emancipação ancorada no acesso ao mercado e o fim da
opressão masculina. A partir dos anos de 1990, Nancy Frase, feminista
norte-americana, tem se destacado no mundo acadêmico como defensora do
cruzamento das questões referentes ao “reconhecimento” e as questões “redistributivas”
(próprias do socialismo). Homens e mulheres devem lutar em uníssono contra as
mazelas do sistema capitalista que potencializam a exploração não somente
destas últimas, como também de negros, imigrantes, crianças, homossexuais etc.
É preciso cuidado ao analisar os tais “novos movimentos sociais”, pois o que se
apresenta com a roupagem democrática da defesa dos direitos das “minorias” pode
incorrer na fragmentação das lutas sociais desenvolvidas pelos setores
subalternos, fragilizando-se a luta da classe trabalhadora. No que se refere à
educação especificamente, penso que a luta pela escola pública desenvolvida
pelos defensores da pedagogia histórico-crítica de Dermeval Saviani se
constitui em um elemento estratégico para a articulação das diferentes lutas. A
construção de uma escola pública de qualidade, fundamentada no trabalho como
principio educativo, deve subsidiar a compreensão da totalidade social, ao
mesmo tempo em que a prática social ancorada na realização dessa tarefa pode possibilitar
a emergência de um novo individuo, cujos interesses coincidam com as
necessidades do gênero humano e sua busca pela omnilateralidade. A questão feminina deve ser articulada a essa
estratégia, posto que ao capital é até admissível a inserção das mulheres no
mercado de trabalho, desde que não dominem a complexidade do processo produtivo
e mantenham a concorrência entre os diferentes segmentos.
Abraços,
Juliana Gobbe
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